“Estamos preparados para aceitar que uma escola pública possa ser diferente, sem que tenha de pedir desculpa por isso?” É esta a pergunta que orienta a reflexão de Luís Francisco Marques neste episódio do podcast Entre o Quadro e o Mundo, que parte da experiência da Escola da Ponte – a assinalar 50 anos de existência – para discutir a diversidade de projetos pedagógicos, a autonomia das escolas e o próprio significado da igualdade de oportunidades.
Com meio século de existência, a Escola da Ponte, em Santo Tirso, desafiou formas tradicionais de organização escolar, apostando no trabalho por projetos, na participação dos alunos e numa relação diferente com o conhecimento. Mas as dificuldades que atualmente enfrenta — nomeadamente a necessidade de instalações adequadas à procura crescente e a reivindicação de um novo contrato de autonomia — levantam questões que ultrapassam a realidade desta comunidade educativa, assinala o autor do podcast.
Uma delas é a distinção entre igualdade e uniformidade. Garantir a todos os alunos o direito à educação e às mesmas oportunidades não significa, necessariamente, exigir que todas as escolas funcionem da mesma maneira, defende o também professor. Até porque “uma escola numa comunidade rural, uma escola num bairro urbano, uma escola com uma população socialmente vulnerável ou uma escola que desenvolve um projeto pedagógico singular não enfrentam necessariamente os mesmos desafios”, alerta.
Recorrendo ao pensamento de John Dewey, que concebe a escola como uma comunidade de experiência e participação democrática, e de Hannah Arendt, que sublinha a responsabilidade dos adultos pelo mundo em que introduzem os mais novos, Luís Francisco Marques questiona os limites de um sistema educativo excessivamente uniformizado.
A reflexão não passa por defender a inovação a qualquer preço, nem por transformar a Escola da Ponte num modelo a reproduzir em todo o país. Um projeto diferente deve explicar as suas opções, demonstrar resultados, reconhecer dificuldades e aceitar avaliação. Mas avaliar não pode significar verificar se todas as escolas fizeram exatamente o mesmo.
Também a autonomia é abordada nesta perspetiva: não “como um privilégio concedido a uma escola especial, nem como uma autorização para funcionar sem regras”, mas como “possibilidade de tomar decisões fundamentadas dentro de um quadro de responsabilidade pública para responder melhor às necessidades de uma comunidade”. Essa autonomia exige objetivos claros, transparência, avaliação e prestação de contas, mas também confiança nas escolas e na sua capacidade de conhecer os alunos e os territórios em que trabalham.
A pergunta que fica, conclui o episódio, é que escola pública queremos defender: uma escola que oferece a todos o mesmo caminho ou uma escola que garante a todos o direito de aprender, admitindo que podem existir caminhos diferentes? Afinal, “uma escola não tem de ser igual às outras para fazer parte da escola pública”.
Este podcast, que pretende ser um convite à reflexão num mundo cada vez mais polarizado e automático, está a ser transmitido às sextas-feiras na Rádio Regional do Centro, e é cedido pelo autor e pela RRC ao 7MARGENS.
O novo episódio pode ser ouvido na íntegra a seguir.













