Jacob tendo ficado só, alguém lutou com ele até ao romper da aurora. Vendo que não podia vencer Jacob, bateu-lhe na coxa, e a coxa de Jacob deslocou-se, quando lutava com ele. E disse-lhe: «Deixa-me partir, porque já rompe a aurora.» Jacob respondeu: «Não te deixarei partir enquanto não me abençoares.» Perguntou-lhe então: «Qual é o teu nome?» Ao que ele respondeu: «Jacob.» E o outro continuou: «O teu nome não será mais Jacob, mas Israel; porque combateste contra Deus e contra os homens e conseguiste resistir.»

“A luta de Jacob com Deus (Livro de Génesis 32, 25-33) permanece como uma das imagens mais densas e inquietantes de toda a Escritura.” Gravura de Gustave Dore, Jacob lutando com o anjo.
A luta de Jacob com Deus (Livro de Génesis 32, 25-33) permanece como uma das imagens mais densas e inquietantes de toda a Escritura. Nela, não encontramos apenas um episódio extraordinário, mas um itinerário espiritual que atravessa, de forma paradigmática, a experiência de quem se atreve a levar a sério o encontro com o divino. Jacob fica só – e é precisamente nessa solidão radical que se inaugura o combate. Não se trata de um confronto exterior, mas de uma luta que envolve o corpo, a memória, a identidade e, sobretudo, o mistério da relação com Deus.
Há, neste texto, uma tensão fundamental: por um lado, um Deus que se deixa encontrar, até ao ponto de lutar com o homem; por outro, um Deus que permanece impossível de conhecer completamente, recusando revelar plenamente o seu nome. Esta ambiguidade não é um limite do texto, mas a sua própria riqueza. A Escritura, na sua forma humana e histórica, abre-se a camadas de sentido que não se esgotam numa leitura imediata. Nela corre, como nas entrelinhas de um texto aparentemente fechado, um caudal de água-viva que só o Espírito pode dar a beber.
Lutar com Deus, neste horizonte, é também lutar com as Escrituras que O testemunham. Não por oposição ou descrença, mas por fidelidade a uma busca que recusa simplificações. As Escrituras, sendo divinas, chegam-nos mediadas pela linguagem, pela cultura e pelas categorias de quem escreveu. Daí que a sua receção implique sempre um confronto: com os nossos esquemas mentais, com os paradigmas que herdámos, com as imagens que construímos de Deus e de nós mesmos. Como Jacob, somos muitas vezes chamados a atravessar a noite de uma fé que não se contenta com respostas fáceis.
Esse combate, porém, deixa marcas. Jacob sai ferido, coxeando, sinal de que o encontro com Deus não é isento de crise nem de ruptura. Os “odres velhos” da nossa existência – certezas instaladas, leituras fechadas, seguranças identitárias – são frequentemente rasgados nesse processo. Há perdas reais: de ideias, de pertenças, por vezes até de relações. Mas é precisamente nesse despojamento que se abre espaço para uma novidade mais profunda.
O gesto central da narrativa é, contudo, outro: Jacob não desiste. “Não te deixarei partir enquanto não me abençoares.” Há aqui uma determinação que não nasce da força, mas da vulnerabilidade. É o homem ferido que persiste, que se agarra à presença de Deus mesmo quando esta se revela enigmática e exigente. E é a esse que é dado um novo nome: Israel. A identidade antiga não é simplesmente anulada; é profundamente transformada. O nome novo traduz uma história nova, uma existência marcada por aquele que luta com Deus e, paradoxalmente, recebe dele a bênção.
Talvez seja este o ponto decisivo: a fé não se esgota na adesão tranquila, mas implica um caminho de combate interior, onde a dúvida, a interrogação e até a incerteza têm lugar. Longe de serem um obstáculo, podem tornar-se o espaço onde Deus opera a sua obra mais profunda. É nesse “corpo a corpo” com o mistério que algo em nós é tocado – e transformado.
A luta com Deus – e, de modo inseparável, com as Escrituras que O testemunham – abre-nos sempre para um horizonte que ultrapassa toda a compreensão. Por mais que nos aproximemos, permanecemos diante do mistério de um Deus que nunca se deixa conhecer plenamente. E, no entanto, é esse mesmo Deus que, em Jesus Cristo, Palavra feita carne, se deixa encontrar de modo definitivo. Nele, a tensão não é anulada, mas conduzida à sua plenitude: o invisível torna-se rosto, o silêncio torna-se palavra viva, e o combate abre-se ao encontro.
Vítor Rafael é doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, investigador no Centro de História (ULisboa) e na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião.
Email: vitor.rafael@edu.ulisboa.pt
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