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Livro de António de Abreu Freire

Jesus, o Cristo: uma biografia?

| 02/07/2026

 

Já em 1926, Rudolf Bultmann havia declarado que era impossível, dada a natureza das fontes disponíveis, escrever uma biografia de Jesus. Isso não o impediu de escrever um ensaio que reconstituiu o essencial sobre o Jesus histórico, nem abrandou, nos anos seguintes, os muitos estudos sobre o mesmo tema.

Apesar disso, Bultmann tinha razão. Quem pretenda escrever uma biografia sobre Jesus, no sentido de uma reconstituição exata e cronológica dos seus elementos biográficos fundamentais, bem como a identificação dos elementos constitutivos da sua personalidade não terá decerto sucesso. As fontes são demasiado fragmentárias e abundam nelas os elementos lendários. O seu objetivo nunca foi de carácter historiográfico. Foram escritas com a finalidade de afirmar a fé em Jesus, o Cristo, o crucificado-ressuscitado, cuja vida estaria orientada para a redenção da humanidade. Os elementos históricos que lá se encontram são indiscerníveis dos elementos ficcionais.

É isto mesmo que António de Abreu Freire refere no seu volumoso trabalho intitulado “Jesus, o Cristo. A biografia de um homem” (editorial Contraponto, 2026). Ao longo do texto, transparece simultaneamente o seu constante interesse pela pessoa de Jesus e o seu ceticismo a respeito da utopia que a fé na sua ação salvífica e no seu estatuto transcendente revela. O próprio subtítulo é disso testemunho eloquente.

O livro corresponde, segundo palavras do autor, à “postura profana de um livre pensador” (p. 500). Não deixa, por isso, de repetir que, dado o estado das fontes que até nós chegaram, onde se misturam o plano teológico-ficcional e o factual, os resultados de uma investigação histórica sobre Jesus ou são parcos ou dão azo a teses altamente polémicas e certamente não evidentes do ponto de vista da exclusiva pesquisa historiográfica.

Seja como for, este livro tem um mérito que o destaca dos restantes: não tendo sido elaborado por um perito em estudos bíblicos, está escrito num português magistralmente cuidado e esteticamente literário e revela um pesquisador extremamente bem informado a respeito da matéria sobre a qual se debruça. Em suma: vale a pena lê-lo pelo puro prazer da sua narrativa poética e, ao mesmo tempo, precisa.

Nota-se obviamente o apreço do autor pela personagem histórica retratada. Ainda que recuse comprometer-se com o dogma cristão, revela particular estima pela mensagem jesuânica (diferente da mensagem central veiculada pelos evangelhos e pela igreja sobre Jesus), bem como pelo seu ativismo humanizador.

É claro desde o princípio que Jesus não tem para o autor nenhum significado especialmente transcendente. Longe de ser Deus, Jesus revela toda a sua humanidade no seu destino trágico. A divinização do mestre foi um processo continuado, alheio à visão do Jesus histórico sobre si próprio, que iniciou nas comunidades cristãs primitivas, teve o seu desenvolvimento na redação dos escritos do Novo Testamento até à definição dogmática dos primeiros concílios ecuménicos, três ou quatro séculos depois da morte do profeta galileu.

Interessante e desmistificador é o motivo imediato e determinante da prisão e morte de Jesus. Para o autor, não se tratou propriamente do conteúdo da sua pregação ou da sua atividade taumatúrgica ou ainda dos vários conflitos com fariseus, escribas ou saduceus a respeito da interpretação da Torah, mas apenas da intervenção de Jesus no templo, pouco antes da celebração da Páscoa, que degenerou em violência aberta para lá da intenção do profeta. Essa intervenção violenta mexeu com os interesses diretos das classes privilegiadas dado o fluxo financeiro que as celebrações no templo ofereciam.

Estamos, portanto, perante um relato cético, de uma lucidez racional avassaladora a respeito das interpretações que as igrejas nascentes faziam acerca de Jesus bem como da própria visão apocalítica do Mestre. É de salientar ainda a profusa e bem informada descrição do contexto religioso e cultural do tempo, bem como dos seus antecedentes.

Tem, contudo, um aspeto menos positivo: repete com abundância dados concretos, dando a impressão de um relato mais ou menos circular, num vaivém de informações que se materializam nas suas 500 páginas.

Não deixaremos de salientar uma outra pecha da obra de António Freire: ao usar frequentemente todo o material evangélico sem uma acurada distinção entre o que é histórico e o que não o é, pode provocar alguma confusão no leitor. Se a consideração historiográfica e a consequente identificação de aspetos lendários ou mitológicos transparecem algumas vezes, tal abordagem crítica escapa a muitas narrativas evangélicas usadas como material de suporte ao livro, ficando o leitor sem saber ao certo o que é e o que não é historiograficamente relevante.

“(…) o evangelho de João, o mais belo e fantasioso dos evangelhos, já escrito no final do século I ou início do II, testemunha uma teologia inovadora em relação aos restantes evangelhos e a Paulo.” Domenico Zampieri (1581–1641): São João Evangelista, National Gallery, London. Domínio público | wikimedia Commons

Ao longo da obra, vamos acompanhando a ascensão de Jesus, de rabi (mestre) e profeta a taumaturgo, de hassid (piedoso) a Messias dos judeus, de enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel a salvador do mundo e, por fim, de redentor universal a Deus encarnado. Um percurso que ainda hoje pode ser testemunhado nas antigas escrituras que a ele se referem.

Ao tentar desenhar o perfil de Jesus, o autor assinala o seguinte: “Os textos evangélicos permitem-nos traçar um vago perfil da personalidade de Jesus. (…) Diferenciava-se dos demais [hassidim] pela forte personalidade, pela capacidade de comunicação e persuasão, por um inexplicável poder mental. Seria um ativista popular, mas também um homem piedoso e um místico, animado por uma grande compaixão, procurado por evidenciar um envolvimento muito próximo com Deus, donde lhe reconheciam o poder de provocar prodígios e curas milagrosas. (…) O perfil nos evangelhos é o de um hassid poderoso, animado por uma profunda compaixão pelos doentes e excluídos da fortuna, que junta ao poder de provocar prodígios e de penetrar nas mentes dos seguidores, um profundo conhecimento da cultura e das tradições judaicas. No ambiente opressivo da colonização romana, o rabi lançava uma mensagem de revolta e de esperança.

“Para cativar a atenção dos ouvintes, ele serve-se de parábolas e de referências pertinentes aos textos mais conhecidos da Lei e dos Profetas, seduz plateias numerosas com pregações moralizantes e discursos de autoestima. Fala e convive com todas as classes da sociedade judaica, confronta-se com todas as fações ideológicas, não exclui ninguém (…). Desafia poderes e convenções, até as mais sagradas. Assume atitudes demolidoras contra o cinismo dos poderosos. Seguem-no multidões de excluídos (…).

Os ensinamentos de Jesus são tão caóticos quanto a sua generosidade e as suas virtudes” (pp. 332-334).

Concluindo: “O perfil de Jesus é uma montagem piedosa resultante do imaginário de crentes entusiasmados” (p. 351).

Neste sentido, o evangelho de João, o mais belo e fantasioso dos evangelhos, já escrito no final do século I ou início do II, testemunha uma teologia inovadora em relação aos restantes evangelhos e a Paulo. Nele a divinização de Jesus ganha forma, e não apenas aquela divinização que decorre da ressurreição, mas a atribuição a Jesus da condição de Deus filho, pré-existente ao mundo e figura claramente divina. Começa, portanto, na comunidade onde este evangelho foi produzido a deriva do cristianismo para fora da teologia judaica, que será a base da futura ortodoxia.

 

Título: Jesus, o Cristo – A Biografia de Um Homem
Autor: António de Abreu Freire
Editora: Contraponto
Nº Pags: 528

 

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.

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