Amanhã, 7 de julho, o Portugal Democrático faz 70 anos que foi lançado (7 de julho 1956). Constituindo-se como um pilar de resistência ao Estado Novo, fundado por exilados portugueses no Brasil, reuniu à sua volta intelectuais e activistas de correntes diversas.
O jornal Portugal Democrático nasceu há 70 anos na cidade de São Paulo, criado por um grupo de portugueses exilados e opositores da ditadura de António de Oliveira Salazar. O primeiro número foi publicado em 7 de julho de 1956. Tornou-se o mais importante e duradouro jornal da oposição portuguesa publicado no exterior. Circulou de 1956 até 1975, tendo encerrado as suas atividades um ano após a Revolução dos Cravos, que pôs fim ao regime do Estado Novo.

Primeiro número do jornal Portugal Democrático, 7 de julho de 1956.
O Portugal Democrático foi um jornal que quis ser lugar de resistência à ditadura, como ferramenta de combate ao regime. Daí que a maior parte dos textos no Portugal Democrático sejam discursos de insurgência, gritos de repúdio, sem pudor quanto ao assumido engajamento político. No Portugal Democrático os textos publicados significavam um compromisso, numa indissimulável ligação entre jornalismo e política. Aquele jornal foi uma resistência impressa.
O Portugal Democrático funcionou, sobretudo, como um órgão da oposição democrática no exílio e frequentemente publicava notícias, documentos, manifestos, entrevistas e tomadas de posição de personalidades católicas e, em muitos dos casos, dando voz a sectores do catolicismo que atuavam em Portugal. Também por isso o jornal constitui um incontornável lugar interpretativo no contexto da oposição ao Estado Novo e da reflexão crítica sobre o papel dos católicos na sociedade portuguesa.
Houve uma centralidade reservada a iniciativas do catolicismo de vanguarda a quem o periódico atribuiu um espaço político muito significativo, acontecendo que, desde o primeiro número do jornal, se efetivaram as abordagens às questões relacionadas com os católicos e a Igreja Católica. O jornal acompanhou atentamente as tomadas de posição de bispos críticos do regime, as atividades dos movimentos católicos renovadores, os conflitos entre setores da Igreja e o Estado Novo, as perseguições ou sanções sofridas por católicos oposicionistas.
Do mesmo modo que o Portugal Democrático é uma fonte fundamental para o estudo da repercussão transformadora de movimentos e organizações católicas do Brasil na sociedade portuguesa, em particular, ao longo dos anos de 1960 e de 1970, o influxo de livros, jornais e revistas provenientes do Brasil para Portugal durante a ditadura de Salazar e Caetano, as interações com personalidades e protagonistas sociais, projetos eclesiais e intercâmbios culturais brasileiros, a inspiração e encorajamento político vindos daquele país para Portugal, e as intrínsecas implicações na incubação da “Revolução de Abril”.
Aquele jornal ajuda-nos a compreender como existiu uma vanguarda católica na sociedade portuguesa que foi direta e profundamente influenciada por uma ligação orgânica e operativa com sectores do progressismo católico no Brasil. Daqueles contextos, é possível estudar as experiências de cooperação entre sectores do catolicismo em Portugal e correntes católicas e projetos marcados por referências ao marxismo. E, por consequência, as suas interações com o germinar da revolução portuguesa de 25 de Abril de 1974.

A partir daquela fonte hemerográfica é possível perceber como determinadas dinâmicas internacionais influíram na preparação e no impulsionar dos processos revolucionários em Portugal, entre 1974 e 1975. Neste quadro, a partir do Brasil, através de exilados e emigrantes políticos portugueses, de sobremaneira, nas conexões a Portugal de determinados movimentos católicos, de congregações e institutos da Igreja Católica, o Portugal Democrático reúne elementos para uma hermenêutica da “Revolução dos Cravos”.
Podemos, pois, considerar o Portugal Democrático enquanto espaço de convergência antifascista, de articulação entre exílio e interior, e de reconfiguração das relações entre catolicismo, liberdade e democracia.
O Portugal Democrático revela-se não apenas como órgão de imprensa ou projeto político, mas também como um verdadeiro laboratório cívico e cultural, onde se agregaram contributos fundamentais para o combate à longa ditadura portuguesa e, em particular, para a problematização e reinvenção das relações entre Igreja Católica e liberdade, entre católicos e democracia, e entre catolicismo e progressismo.
O seu legado mantém-se vivo como expressão de um humanismo que uniu exilados políticos, democratas, crentes e não crentes, diferentes correntes de pensamento, num mesmo ideal de justiça e de verdade — ideal que transcende fronteiras, credos e gerações.
Edgar Silva é doutorado em História, com a tese “Vendaval de utopias”. Do catolicismo social ao compromisso político em Portugal (1965-1976). Os católicos da Revolução e o PCP e é coordenador do Partido Comunista Português – Madeira.
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