Neste período que para muitos é de férias, convidamos os leitores e colaboradores do 7MARGENS a escrever sobre uma música, um livro, um disco, um filme ou uma obra de arte que tenha marcado, de forma especial, um dos seus verões.
Publicamos a seguir o primeiro texto dessa rubrica, que intitulamos “Trago comigo”, remetendo para a ideia de alguma coisa pessoalmente significativa que cada qual guarda na sua memória. E ficamos a aguardar receber muitos mais em setemargens@setemargens.com.
Uma antologia de textos literários sobre burros seria o livro adequado para levar para férias, por elas preverem uma passagem pela aldeia de Atenor, Miranda do Douro, onde pretendo ir saudar a Dulcineia, a burra da Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino (AEPGA) que, há anos, apadrinho [1].
Nessa obra, reencontraria, desde logo, com certeza, o extraordinário Platero, que Juan Ramón Jiménez nos deu a conhecer em Platero e eu [2]. Nem todos os burros têm direito a um nome na ficção e na poesia, circunstância que, todavia, não os torna menos memoráveis.

Dulcineia. Foto: Direitos reservados
Pelas páginas de uma tal antologia, andariam os burros que Francis Jammes desejaria ter tido como derradeira companhia. “Meu Deus, faz com que, com estes burros, eu chegue junto a Ti”, pediu o poeta num dos versos da Oração para ir para o paraíso com os burros [3].
O burro anónimo mais famoso da História também entraria nesse livro, levado por um poema de Mary Oliver [4]:
A POETA PENSA NO BURRO
Nos arredores de Jerusalém
o burro aguardava.
Não especialmente corajoso, nem cheio de compreensão,
ali ficou e esperou.
Como os cavalos, lançados para o prado,
saltam com alegria!
Como as pombas, libertadas das suas gaiolas,
esvoaçam, salpicadas de sol.
Mas o burro, amarrado a uma árvore como sempre, esperou.
Depois deixou que o levassem.
Depois deixou que o estrangeiro o montasse.
Nunca tinha visto tamanha multidão!
E pergunto-me se imaginaria o que estava para acontecer.
E, contudo, ele era o que sempre fora: pequeno, escuro, obediente.
Espero que, no fim, se sentisse corajoso.
Espero que, no fim, amasse o homem que o montava suavemente,
enquanto levantava um casco empoeirado e avançava, como era seu dever.

Detalhe da exposição Sidónio Muralha – Caminhada insubmissa, que esteve patente no Museu do Neo-Realismo de Vila Franca de Xira, entre 15 de Abril e 22 de Outubro de 2023, com a curadoria de Violante F. Magalhães e José Raimundo Noras. Foto © Eduardo Jorge Madureira
Uma colectânea de burros na literatura permitiria, talvez, reparar esse erro clamoroso que é usar depreciativamente o termo asinino, chamando burros a gente que tão longe está de apresentar as qualidades destes estimáveis animais. Bem os defende Mutimati Barnabé João, pseudónimo de António Quadros, nesse livro singular que é Eu, O Povo [5] – o poema que dá o título ao livro foi cantado por José Afonso.
O BURRO
Vejam o burro, Camaradas
Esta zebra pequena vestida de lama bonita fofa
Tem quatro pernas de andar aos saltinhos
Duas orelhas ouvidouras de ouvir tudo bem
Dois olhos espertos cheios até às lágrimas de paciência
O nariz do focinho muito fresco e macio.
O burro é o burro. Camaradas?
Quem diz que é burro e despreza este companheiro?
Quem quiser ofender-me não me chame de burro
Quem quiser ofender-me não seja tão amável
Quem quiser ofender-me inventa outra palavra
Porque chamar-me burro lembra-me burro mesmo
E não posso magoar-me com simpatia.
Não estou a defender o amigo útil somente
Não estou a pensar bem deste que faz o meu esforço e puxa
Não penso que ele me ouve tudo e puxa mais forte assim.
Há coisas deste companheiro para pensar melhor e espalhar.
Falo agora somente só da simpatia.
Não estando disponível uma recolha de textos literários sobre burros, contentar-me-ei em levar para os dias no campo uma antologia poética sobre pássaros concebida por João Vasco Rodrigues. Como escreve o organizador de Decidi falar de pássaros [6] na nota introdutória, o pássaro não é, nesta obra, “um apetrecho artificioso”; ele assume “as rédeas de imagens verdadeiramente poéticas, atrevidas, íntimas e curiosas”.

A capa do livro, uma antologia poética sobre pássaros concebida por João Vasco Rodrigues.
Apesar de ter no smartphone uma aplicação que identifica os pássaros pelo canto, preferirei ficar a conhecê-los através dos versos de mais de uma centena de poetas; uns, conhecidos, outros, não. Como as aves. Aprenderei, com Wallace Stevens, os “Treze modos de contemplar um melro”; ficarei a saber, com Rainer Maria Rilke, que “Onde as aves mergulham não é o espaço íntimo” e, com Emily Dickinson, que “‘Esperança’ é a coisa com penas”; meditarei sobre o “Argumentum Ornithologicum”, de Jorge Luis Borges. E não esquecerei o apelo do poeta palestiniano Marwan Makhoul:
PARA QUE EU ESCREVA POESIA QUE NÃO SEJA POLÍTICA
Para que eu escreva poesia que não seja política,
devo ouvir os pássaros,
e para ouvir os pássaros,
os aviões de guerra devem estar em silêncio.
Notas:
[1] É possível apadrinhar um burro aqui.
[2] Livros do Brasil, 1984.
[3] Prière pour aller au paradis avec les ânes. Gallimard, 2002
[4] Devotions. The selected poems of Mary Oliver. Penguin, 2017
[5] Eu, o Povo. Edição da FRELIMO, 1975
[6] Língua Morta, 2025










