Em maio de 2026 o Vaticano publicava o relatório do grupo 9 criado pelo Papa Francisco para debater as “questões controversas” (que o grupo de estudo alterou para “questões emergentes”) centradas especialmente sobre a comunidade LGBTQ [ver 7MARGENS].
O documento introduziu uma lufada de ar fresco no modo como a Igreja Católica vê e se quer relacionar com estas pessoas. Mas causou viva reação junto de setores mais conservadores do catolicismo. É com esses que o padre James Alison dialoga nesta extensa carta aberta de que hoje reproduzimos a primeira parte, dedicada aos princípios da Humanae Vitae e às suas sucessivas atualizações.
Se já ouviu falar de mim, é possível que saiba que, há cerca de 30 anos, venho manifestando publicamente o meu desacordo com o que é considerado o ensino atual da Igreja sobre o que (para economizar tempo) chamo “questões gays”.
Embora possa desaprovar, ou até mesmo desprezar, o que digo, espero que possamos concordar que eu pago um alto preço por defender as minhas posições. O meu desacordo público com o que a Autoridade eclesiástica trata como um “ensino de terceira ordem” e as consequências práticas de agir de acordo com a minha consciência em relação a esse desacordo fizeram de mim, efetivamente, uma “não-pessoa” dentro da Igreja que amo.
Embora seja padre e doutor em teologia, nos últimos 30 e poucos anos não tenho conseguido exercer um ministério público na Igreja nem ocupar um cargo de professor numa faculdade católica. Em 2015, fui formalmente demitido do estado clerical (sem que me fosse apresentada qualquer acusação ou dada qualquer explicação). Depois, em 2017, por uma graça especial do Papa Francisco, fui reconfirmado no sacerdócio e recebi o poder de pregar e de absolver. Por quaisquer que fossem as razões que o levaram a isso, o Santo Padre decidiu que a minha vocação não deveria ser simplesmente descartada, mesmo que ele não me devolvesse ao ministério público.
Suspeito que isso se deva ao facto de que tal medida colocaria qualquer Ordinário [bispo] que concordasse em incardinar-me na posição nada invejável de ter de aceitar publicamente defender-me contra a inevitável onda de ódio que inundaria a sua mesa, quando a função de um bispo inclui defender o ensinamento atual da Igreja, quer concorde pessoalmente com ele ou não.
Portanto, se acha que o estatuto de “não-pessoa” é o lugar certo para mim, dificilmente poderia discordar. Ocupar esse lugar é o resultado da minha obediência à Igreja e do exercício do meu sacerdócio. Não ser bem-vindo para participar na vida de uma Igreja local dói; passo por ondas ocasionais de tristeza e desânimo, e anseio que essa situação mude.
Mas isso não destrói a profunda alegria pela graça que me capacitou para ocupar este limbo canónico e para viver a minha vocação. Não tenho a certeza se existe alguma maneira formal pela qual eu possa ser autorizado a exercer um ministério público até que a divergência na área que abordei deixe de ser tão psicologicamente tensa para o mundo clerical quanto é atualmente.
Há um problema real

Bênçãos de homossexuais na Alemanha: “Há um problema real: ajudem-me a trazê-lo à tona, de forma a deixar claro que não se trata de malícia, astúcia, lascívia ou política de poder. Foto: Direitos reservados.
Por que começo assim? Não para reclamar, mas para mostrar que me considero pelo menos tão conservador quanto vocês, ao esperar que o ensino e o testemunho da Igreja sejam simultaneamente verdadeiros, claros e lógicos. Arrisquei o meu sustento por essa causa.
Quero convidar-vos a ter compaixão não por mim, que não preciso disso, mas por todos aqueles que se veem obrigados a defender publicamente posições que sabem ser falsas, ou que se viram forçados a defendê-las por outras razões. E também por aqueles que, de dentro desses mesmos círculos, estão a tentar fazer algo a respeito desta questão.
Em resposta ao Relatório do Sínodo do Grupo 9, alguns de vós demonstraram indignação diante do que consideram uma desonestidade, ao introduzir subtilmente a normalização da homossexualidade, contrariando o ensinamento constante da Igreja.
O mesmo parece ter levado alguns de vós a odiar o Papa Francisco ou a condenar a “confusão criada nas mentes dos fiéis” pelos sinais evidentes que ele deu. Alguns de vós estais indignados com o facto de que o depoimento sobre o Outreach, prestado por uma das testemunhas escolhidas de entre as muitas contribuições recebidas, tenha sido divulgado num relatório semioficial. Isto apesar de saberdes que o Outreach é um grupo católico cujo objetivo declarado é apoiar os católicos gays e lésbicas que buscam viver uma vida de continência e celibato, em conformidade com o ensino atual do magistério.
Alguns de vós, sabendo tão bem quanto eu da alta percentagem de homens gays no clero em geral, e no Vaticano em particular, optais por ver tudo isto como uma espécie de conspiração sodomítica progressista para subverter o ensino da Igreja.
Naturalmente, não estou a pedir que me vejam como um aliado. Estou a implorar que façam algo um pouco diferente: demonstrem um pouco de empatia por todos os envolvidos na reflexão sobre este assunto: papas, cardeais, bispos, teólogos e testemunhas envolvidos no Grupo de Estudo 9, no Outreach e aqueles que foram influenciados por eles de uma forma ou de outra, bem como outros católicos em geral.
Há um problema real aqui, não simplesmente de ideologia ou fibra moral: se amam genuinamente a Igreja que temos, em vez daquela que acham que deveríamos ter, por favor, ajudem-me a trazer à tona qual é esse problema real, de forma a deixar claro que não se trata de malícia, astúcia, lascívia ou política de poder.
A surpresa de Paulo VI

“Paulo VI considerava ser sua missão preservar a ideia de que o ato sexual entre cônjuges de sexos diferentes, aberto à procriação, é algo bom. E que qualquer outro ato sexual é uma versão ruim dessa coisa boa.” Foto: Direitos reservados.
Por uma questão de conveniência, e para não ocupar muito do vosso tempo indo muito longe na história, proponho que comecemos pelo período em torno do documento Humanae Vitae, [encíclica] do Papa Paulo VI. Como sabem, o Papa Paulo VI considerava ser sua missão preservar o que é, na verdade, o único ensinamento – ou norma central – sobre o sexo que a Igreja Católica possui. Trata-se da ideia de que o ato sexual entre cônjuges de sexos diferentes, aberto à procriação, é algo bom. E que qualquer outro ato sexual é, em maior ou menor grau, uma versão ruim – por ser defeituosa – dessa coisa boa.
Essa norma já tinha sido elaborada na época da morte de Clemente de Alexandria, em 215 d.C., e tornou-se o ensinamento tradicional da Igreja, recebendo um respaldo mais firme de Tomás de Aquino, no século XIII. O Papa Paulo estava sob pressão de muitas pessoas, incluindo a grande maioria dos membros da comissão que ele havia nomeado para estudar o assunto, para que deixasse de ser indispensável que a função amorosa ou “unitiva” do ato sexual fosse acompanhada pela função de gerar filhos ou “procriativa”.
Por outras palavras: a maioria dos membros da comissão, todos católicos devotos, não acreditava que todo o ato sexual tivesse de estar aberto à possibilidade de procriação para ser considerado bom. No entanto, em 1968, o Papa disse-lhes que estavam errados: para evitar o pecado, todo o ato sexual deve estar aberto, pelo menos potencialmente, a alcançar a indispensável finalidade da procriação.
O Papa Paulo VI ficou, segundo todos os relatos, profundamente chocado quando se tornou claro que a grande maioria dos fiéis católicos com experiência direta sobre o assunto em questão não aceitava o seu ensinamento, e que várias conferências episcopais se esforçaram por amenizar a consternação provocada entre os fiéis, sublinhando a importância da consciência de cada um.
Embora seja difícil obter estatísticas precisas, quase 60 anos depois, entre a população católica, algo entre 80 e 90 por cento não aceita o ensino nem o pratica. Após os primeiros anos da tentativa de João Paulo II de revigorar o disposto pelo Papa Paulo VI, tanto por meio dos seus escritos quanto por meio daqueles que nomeou como bispos, a questão foi gradualmente perdendo importância.
Tanto o Papa Bento XVI quanto o Papa Francisco mantiveram uma postura bastante discreta, e provavelmente há muitos jovens católicos, mesmo em culturas altamente legalistas como a do catolicismo norte-americano, que simplesmente desconhecem o preceito.
Ninguém liga ao preceito

“Um quadro de significado em declínio, aliado às mudanças na mentalidade que considerava natural a posse masculina dos corpos femininos, garantiu a má receção do ensinamento. Foto © Andriy Yavorivskyi/Photos
Na maioria dos lugares onde o emprego depende da aprovação de instituições católicas, não há qualquer tentativa de fiscalizar a questão. Católicos heterossexuais que não são casados, ou que são divorciados, raramente, ou nunca, são demitidos caso se descubra que estão namorando. Menos ainda a questão da abstinência de casais em relação ao uso de meios artificiais de contraceção (algo invisível para qualquer pessoa fora do casal) é levantada como um obstáculo à admissão num emprego, ou para que os seus filhos sejam batizados, confirmados, ou tenham permissão para estudar em escolas católicas.
Padres que ouvem muito mais confissões de pessoas heterossexuais do que eu, dirão que os seus penitentes casados raramente mencionam o assunto, e eles, os padres, são relutantes em levantá-lo, para não afastar as pessoas da confissão, tornando mais difícil para elas virem em busca de reconciliação quando sobrecarregadas por pecados que realmente lhes importam.
É justo mencionar que, na esteira da Humanae Vitae, surgiram vários grupos fundados para ajudar os casais católicos que desejavam seguir o ensinamento a fazê-lo. Ao seguirem este ou aquele método de planear a sua intimidade, eles conseguiram seguir à risca o ensinamento, reduzindo ao mínimo a possibilidade de conceção resultante do ato sexual, sem excluí-la completamente.
Houve também tentativas de revestir a obediência ao disposto com uma linguagem que soasse menos aristotélica, como a que é proposta pela “Teologia do Corpo” de João Paulo II. Os grupos que colocavam isso em prática tinham, necessariamente, maior influência do que o seu número justificava, já que eles e os bispos que os apoiavam podiam ganhar prestígio ao demonstrar sua lealdade ao Papa numa questão particularmente cara ao seu coração.
No entanto, a grande maioria dos fiéis simplesmente deixou de pensar sobre as suas relações, os seus corpos e as suas famílias com as ferramentas intelectuais que Paulo VI havia utilizado para formular o seu julgamento. E não o fizeram por imoralidade, fraqueza de fé, frivolidade, ou por serem vítimas de um secularismo desenfreado. Fizeram-no porque o mundo linguístico, biológico, psicológico e moral que conduziu a esse julgamento não fazia sentido para eles.
E isso foi, em grande parte, resultado da normalização dos avanços surpreendentes na ginecologia, em particular, e na medicina moderna, em geral, desde as descobertas [relativas aos] ovários em 1858.
A determinação do Papa Paulo VI, em 1968, de se ater a definições cujo pano de fundo no século III era a biologia reprodutiva proposta por Aristóteles – a melhor da sua época – não ultrapassou os limites de um quadro de significado em declínio. Isto, somado às mudanças de longo prazo naquela mentalidade cultural que considerava natural a posse masculina dos corpos femininos, garantiu a má receção do ensinamento.
Homossexuais: o mesmo princípio

Fórum de Cristãos LGBTI+: “O problema é que uma pequena minoria de católicos se sente atraída, emocional e eroticamente, por pessoas do mesmo sexo. Foto © European Forum of LGBTI+ Christian Groups.
Agora, observem o que isso significa na prática: a grande maioria dos fiéis católicos não aceita, nem na teoria nem na prática, que um ato sexual que não esteja aberto à possibilidade de procriação seja, simplesmente por esse facto, um “ato intrinsecamente mau por carecer de sua finalidade indispensável”.
Eles sabem que as relações sexuais entre casais sem finalidade procriativa podem ser algo perfeitamente bom. E, quando não são boas, é muito raro que seja a falta de abertura à procriação que tenha prejudicado o ato: na maioria das vezes é alguma forma de violência emocional ou física, incompetência ou falta de delicadeza que o tornou uma versão imperfeita de si mesmo.
Esta não aceitação da obrigatoriedade da finalidade indispensável do ato não é, de facto, punida de forma alguma, nem a obediência ou desobediência de um casal é visível de alguma forma, exceto quando deliberadamente expressa pelo próprio casal em questão. E a autoridade eclesiástica acostumou-se completamente a essa situação.
Quando um ensinamento permanece no papel, não é transmitido entre várias gerações de famílias e não é fiscalizado nem mesmo onde as autoridades conservadoras da Igreja têm o poder de o fazer, então, de facto, o ensinamento é o que a Igreja faz, não o que um documento diz.
Felizmente, e em parte porque a desobediência no que diz respeito ao “ato sexual intrinsecamente mau, privado de sua finalidade indispensável” é invisível e não é fiscalizada, há muito bom discurso católico sobre o casamento: a preparação para ele, a procriação, a companhia, a vida compartilhada, a dinâmica familiar.
Fora das faculdades de teologia moral, rigorosamente fiscalizadas, desenvolveu-se uma grande quantidade de discurso ricamente católico sobre o que poderíamos chamar de “vida do casal heterossexual”, porque as pessoas conseguem falar sobre essas coisas graças à sua experiência, com a ajuda de romances, filmes, canções e psicologia.
Elas conseguem encontrar o seu caminho para compreender como viver o sacramento do matrimónio por meio do significado adquirido ao longo da jornada e compartilhado com os outros por meio do testemunho, filtrando gradualmente as coisas que não são de Deus e assimilando – e florescendo por meio delas – aquelas que são. Aprendendo com o tempo.
É aqui que começa a surgir, para a autoridade eclesiástica, o verdadeiro problema ao qual me referi no começo. Pois há, é claro, uma pequena minoria de católicos que se sente orientada principalmente, emocional e eroticamente, para pessoas do mesmo sexo. Portanto, vale a pena comparar como a autoridade eclesiástica procurou lidar connosco a partir de 1968, pois tanto nos casos da maioria quanto nos da minoria, a autoridade eclesiástica está a lidar exatamente com base no mesmo princípio.
Obviamente condenável

“A autoridade eclesiástica sabia que, se a condição fosse neutra ou até mesmo positiva, então os atos não poderiam ser intrinsecamente maus.” Foto © Robert V. Ruggiero / Unsplash
O padre Gustave Martelet SJ teria dito a Paulo VI, enquanto este refletia sobre qual posição adotar ao redigir a Humanae Vitae, que, caso permitisse que a ligação entre as funções unitiva e procriativa do ato sexual fosse rompida, ele privaria a Igreja de qualquer razão lógica para se opor aos atos homossexuais.
E é exatamente esse o caso, pois, seguindo a mesma lógica, um ato sexual entre pessoas do mesmo sexo constitui “um ato intrinsecamente mau, por não estar aberto à sua finalidade indispensável”. A única diferença entre ele e seu equivalente heterossexual é que nenhuma barreira à finalidade indispensável do ato (algum método artificial de contraceção) é deliberadamente interposta: porque nenhuma é necessária. O uso de preservativo, por exemplo, entre homens gays é uma escolha profilática, nunca contracetiva.
Então, vamos dar uma olhadela na história, à medida que esse mesmo ensinamento foi evoluindo ao longo do tempo em relação a este grupo específico. Em 1975, a autoridade eclesiástica quis enfatizar suas posições sobre a ética sexual em geral e fê-lo num documento que incluiu o primeiro ensinamento público da Igreja na história a utilizar a palavra “homossexualidade”[1] . Pela simples razão de que o único ensinamento que a Igreja possuía sobre o assunto nos séculos anteriores dizia respeito a atos entre pessoas do mesmo sexo. Não havia, literalmente, nenhum ensinamento do Magistério anterior sobre “pessoas que são assim”. E, de facto, a palavra “homossexual”, o primeiro termo semicientífico a descrever “pessoas que são assim”, só foi inventada recentemente, em 1869.
No documento de 1975, a autoridade eclesiástica mostrou-se ciente dos avanços médicos e psicológicos significativos na área nos 25 anos anteriores, pois, ao reiterar o seu ensinamento sobre atos que não se prestam à sua finalidade indispensável, ela fala da “condição homossexual”, alertando que algumas pessoas estavam a tratar isso como uma realidade neutra ou até mesmo positiva.
Porquê este alerta? Porque a autoridade eclesiástica sabia que, se a “condição” fosse neutra ou até mesmo positiva, então os atos não poderiam ser intrinsecamente maus, já que a condição faria parte da ordem criada e os atos dela decorrentes teriam, portanto, uma finalidade própria como partes boas da criação – uma finalidade que, evidentemente, não incluiria a procriação. Assim, estes seriam, então, atos contingentemente bons ou maus, cuja bondade dependeria de circunstâncias bem diferentes de sua disponibilidade para a procriação.
A perceção de que gays e lésbicas “simplesmente são assim” – ou, na minha expressão pouco poética, de que somos “portadores de uma variante minoritária não patológica que ocorre regularmente na condição humana” – continuou, no entanto, a expandir-se por toda a sociedade ocidental e muito além dela, em todos os lugares onde as pessoas se acostumaram a encontrar-nos e a conhecer-nos. Incluindo, é claro, seminaristas e membros do clero que se encontravam e passavam a conhecer uns aos outros e a si mesmos.
Objetivamente desordenada

Manifestação em Estrasburgo, em Janeiro de 2013: “Perante a homofobia, Jesus grita.” Foto © Claude Truong-Ngoc/WikiCommons
Por outras palavras, a tentativa de insistir que éramos, de alguma forma, pessoas heterossexuais com defeito, cuja condição não poderia ser descrita de maneira neutra ou mesmo positiva, foi enfrentando uma dificuldade crescente. E isso levou a um problema genuíno (teórico): se a autoridade eclesiástica admitisse que “as pessoas gays e lésbicas simplesmente são assim”, então estaria a reconhecer uma categoria de seres humanos para quem a intimidade sexual não requer abertura à procriação. Seria, é claro, absurdo permitir tal intimidade para a minoria com orientação homossexual, enquanto a proibiria para a maioria com orientação heterossexual, e fazer isso efetivamente afundaria a Humanae Vitae.
A única maneira lógica, então, de “salvar” a Humanae Vitae – ou seja, tratá-la como um ensinamento ainda válido para pessoas heterossexuais, mesmo quando ficou claro que seu principal público-alvo não a aceitava – era insistir que gays e lésbicas fossem considerados heterossexuais defeituosos, cuja condição precisava ser definida a partir de sua (não) relação com o ato conjugal aberto à procriação.
Foi isso que levou à famosa frase no documento de 1986[2], que afirmava que “embora a tendência homossexual não seja, em si mesma, um pecado, é uma tendência mais ou menos forte para atos que são, em si mesmos, intrinsecamente maus e, portanto, ela (a tendência) deve ser considerada objetivamente desordenada”.
Havia vários elementos inovadores nessa formulação. O primeiro é que, ao afirmar que a tendência homossexual não é, por si só, um pecado, a autoridade eclesiástica evita a tentação neo-calvinista de considerar “a tendência homossexual” como algo absolutamente depravado. Portanto, qualquer pessoa que afirme que “a Igreja ensina que a homossexualidade é um pecado” está, sem dúvida, equivocada.
O segundo é afirmar, pela primeira vez na história, que a tendência homossexual deve ser considerada objetivamente desordenada. Isso não significa que “objetivamente desordenada” signifique aquilo que normalmente significa na linguagem moderna (como, por exemplo, quando dizemos que “sabemos objetivamente, por meio das descobertas da ciência, que a anorexia é uma desordem patológica”). Significa que a tendência está “desviada de seu verdadeiro objeto”. O verdadeiro objeto seria um ato sexual com um cônjuge do sexo oposto, aberto à procriação.
A afirmação visa fechar a brecha relativa aos “atos intrinsecamente maus”, que havia sido aberta pela possibilidade de que gays e lésbicas “simplesmente sejam assim”. Os autores sabiam que um ato intrinsecamente mau não pode decorrer de algo que é bom; portanto, para manter o ato como intrinsecamente mau (em oposição a bom ou ruim, dependendo do contexto), precisavam redefinir a sua origem como algo desordenado, mas sem torná-la radicalmente depravada.
O terceiro elemento digno de nota é de natureza lógica: a formulação deixa claro que o ensinamento central que se procura manter é o da proibição de “atos intrinsecamente maus”, tal como para as pessoas heterossexuais. Mas também deixa claro que esse ensinamento, no caso de gays e lésbicas, só pode ser mantido se a sua tendência for considerada desordenada em relação ao seu objeto próprio. É isso que a afirmação “deve ser considerada” quer dizer.
Perdoados pelo silêncio

“A única maneira de fazer com que a Humanae Vitae se mantivesse válida era excluir a possibilidade de que qualquer ato entre pessoas do mesmo sexo pudesse ser adequadamente ordenado.” Foto D-Keine
Formalmente falando, a afirmação é a seguinte: “Como sabemos de forma absoluta e com certeza que tal ato é sempre e em todos os lugares errado, e como sabemos que atos intrinsecamente errados não podem decorrer de tendências boas, portanto deve haver algo de errado com a sua tendência para praticar o ato em questão.” Isto funciona como um silogismo perfeitamente circular. No entanto, se a tendência estiver de facto fundamentada na biologia e na psicologia humanas reais e existentes e se se revelar não patológica, então você terá acabado, ainda que sem querer, fazendo uma afirmação de verdade sobre algo que é uma afirmação baseada não na observação, mas na sua necessidade de manter intacta uma proibição.
É possível compreender por que razão os autores de língua inglesa do documento de 1986 (cujo original era em inglês, e não em latim[3] ) adotaram essa formulação. Eles estavam a lidar com bispos católicos bem-dispostos que queriam poder dizer: “Sim, sabemos que vocês, gays e lésbicas, simplesmente são assim, e são amados por Deus tal como vocês são. O nosso único ensinamento para vocês é que os vossos atos sexuais são proibidos.”
Mas isto, como qualquer pensador genuinamente católico sabe, é um disparate sem fundamento: as verdadeiras proibições morais no cristianismo precisam de corresponder a algo verdadeiro na natureza das pessoas envolvidas; elas não podem ser simplesmente: ‘Bem, vocês não devem fazer isso porque nós dizemos, ou porque Moisés diz, que não devem fazer isso.’ O cristianismo não conhece nenhuma lei moral extrínseca: era disso que tratavam os argumentos de São Paulo contra os seus confrades judeus a respeito da Lei.
Não, a única maneira de fazer com que a Humanae Vitae se mantivesse válida era excluir a possibilidade de que qualquer ato entre pessoas do mesmo sexo pudesse ser adequadamente ordenado, evitando ao mesmo tempo a solução proto-protestante de declarar uma forma específica de desejo humano como intrinsecamente depravada. Uma corda bamba excecionalmente delicada de se percorrer, e cuja caminhada incerta, sem querer, injetou uma confusão significativa na vida da Igreja.
O que quero dizer com isso? Bem, as autoridades eclesiásticas da década de 1980 parecem ter pensado que “desde que as pessoas gays não ‘saiam do armário’ nem formalizem os seus relacionamentos na esfera pública, então ninguém vai realmente notar os seus atos[4] e elas não serão discriminadas. É claro que eles terão pouquíssima, ou nenhuma, culpa subjetiva na questão, e um clero em grande parte benevolente perdoá-los-á com muita facilidade, assim como nós há séculos temos perdoado uns aos outros com facilidade nessa questão. Portanto, as pessoas gays deveriam ficar caladas, não se assumir, e a questão será tão privada quanto quase toda a desobediência conjugal heterossexual nessa esfera.”
Permanecer sob a ira

Livros sobre homossexualidade: as autoridades religiosas da década de 1980 avaliaram mal as grotescas desigualdades jurídicas impostas aos parceiros sobreviventes de casais do mesmo sexo durante os anos pré-antirretrovirais da sida. Foto © 7MARGENS.
De facto, essas autoridades de meados da década de 1980 avaliaram mal o que estava a acontecer ao seu redor: as grotescas desigualdades jurídicas impostas aos parceiros sobreviventes de casais do mesmo sexo durante os anos pré-antirretrovirais da sida significavam que a proteção jurídica formal das uniões se tornava urgentemente necessária – alguma forma de garantir direitos de visita aos parentes mais próximos, direitos de aposentadoria compartilhados, direitos do cônjuge sobrevivente e direitos de propriedade compartilhada. E a maneira mais parcimoniosa de garantir isso, assim como nas uniões heterossexuais, era – e assim foi – o casamento civil.
O que isso significava era que, se olharmos para trás, para a Humanae Vitae, surgiu, com o tempo, uma diferença real e visível entre grupos de pessoas que ignoravam alegremente o mesmo ensinamento da Igreja: a maioria heterossexual, cuja ignorância ou indiferença em relação ao ensinamento era invisível e não era fiscalizada; e a minoria gay ou lésbica, cuja ignorância ou indiferença em relação ao mesmo ensinamento da Igreja é claramente visível em todos os casais duradouros que se sentem à vontade para serem vistos juntos em público, e ainda mais se tiverem aderido ao que quer que o seu país tenha proposto para eles como forma legal de garantir os seus direitos básicos como casal.
Chegando a este ponto, gostaria de destacar por que razão essa é uma questão muito mais importante para todos nós, como Igreja, do que possa parecer.
Quando a desobediência habitual, porém invisível, exatamente ao mesmo ensinamento não traz nenhuma consequência para a grande maioria dos fiéis, mas, para uma minoria pequena, porém significativa, da população, essa mesma desobediência habitual é visível e, portanto, passível de discriminação, chegamos a uma situação de facto que nenhum cristão católico responsável – e certamente nenhum líder católico – poderia tolerar: pessoas sendo autorizadas, ou até mesmo incentivadas, a julgar negativamente os outros por fazerem exatamente o mesmo que elas mesmas fazem[5] .
Se há algo central para a vida eclesial, desde as palavras de Jesus nos Evangelhos até à correspondência de Paulo e outras Epístolas, é que julgar outras pessoas por coisas que nós mesmos fazemos é um caminho certo para permanecer sob a ira[6] .
E, é claro, a maioria das pessoas heterossexuais não tem consciência do facto de que, se elas mesmas ignoram o ensinamento, mas, mesmo assim, condenam gays e lésbicas por praticarem exatamente os mesmos atos proibidos, então foram empurradas na direção da ira pela autoridade eclesiástica.
Isso ocorre simplesmente porque essas pessoas heterossexuais podem muito bem supor que os atos entre pessoas do mesmo sexo são maus por serem atos entre pessoas do mesmo sexo (atos que, por terem um fator de “repulsa”, são bem diferentes dos seus próprios) e não porque sejam atos sexuais que não atendem à sua finalidade indispensável (atos que são moralmente idênticos aos seus próprios).
Julgar o visível, ignorar o invisível

“Os gays acabaram arcando com as consequências de algo que os heterossexuais há muito tempo abandonaram sem sofrerem consequências. Foto © Sharon Mccutcheon | Unsplash
Pois a autoridade eclesiástica pode, e de facto fá-lo, fiscalizar o visível, mas contenta-se por adotar a política de “não pergunte, não conte” em relação ao invisível. Não é de admirar que o Papa Francisco estivesse tão empenhado em tentar transmitir que gays e lésbicas são iguais às pessoas heterossexuais no que diz respeito aos pecados. E não é de admirar que, por exemplo, a Conferência Episcopal dos Bispos dos Estados Unidos e os seus apoiantes litigiosos, tendo construído toda uma estratégia jurídica em torno da obtenção de isenções para a Igreja das justas leis laborais relativas a gays e lésbicas, tenham ficado tão irritados. Francisco estava a tentar salvá-los – e a todos nós – do que Paulo chama de “a ira”.
Esta é a razão fundamental pela qual gostaria de vos pedir que demonstrassem alguma compreensão para com as autoridades que vêm tentando lidar com essa questão: ao longo do tempo, a forma de pensar que levou à manutenção da Humanae Vitae como válida teve consequências gravemente discriminatórias.
Para as pessoas heterossexuais, é uma situação em que pode ser superada – o ensinamento não impediu toda uma série de outros avanços no que há de bom na vivência do sacramento do matrimónio. Na verdade, o abandono discreto da Humanae Vitae provavelmente só seria percebido nas faculdades católicas de teologia moral e entre historiadores.
Para gays e lésbicas, no entanto, a coisa muda de figura: se a forma básica de união do casal só pode ser discutida em relação à tendência objetivamente desordenada que leva a atos intrinsecamente maus, então um bem compartilhado não pode ser nem imaginado nem buscado, será apenas um mal mitigado. A reação que muitos de vós tiveram diante da aprovação da Fiducia Supplicans pelo Papa Francisco é prova de que, na prática, o princípio mata a vida.
Por outras palavras, os gays acabaram arcando com as consequências de algo que os heterossexuais há muito tempo abandonaram sem sofrerem consequências. Mesmo que vós aprecieis o tipo de raciocínio que levou à Humanae Vitae e sua maneira elegante de incluir gays e lésbicas no mesmo ensinamento, peço que considerem que as consequências não equitativas dessa lógica, ao longo do tempo, tornaram-se, de facto, uma questão ética e espiritual bastante séria por si só, arriscando graves consequências para aqueles que julgam o visível e ignoram o (muito maior) invisível. E que aqueles que estão tentando dar atenção a isto não são nem traidores nem hereges.
Obrigado por compartilharem comigo.
Vosso irmão,
James

James Alison. Foto via Wikimedia.
(A segunda parte deste texto será publicada na próxima semana: “O caminho proposto pelo Grupo 9 em relação à comunidade LGBTQ é inevitável”)
Notas
[1] Persona Humana, Declaração sobre Algumas Questões Acerca da Ética Sexual.
[2] Homosexualitatis Problema, Carta aos bispos da Igreja Católica sobre o cuidado pastoral com as pessoas homossexuais. Cf. parágrafo 3.2.
[3] Uma testemunha ocular presente numa reunião de emergência dos bispos canadianos para discutir o documento antes de seu lançamento, em novembro de 1986, contou-me como eles, por se tratar de uma conferência bilingue, solicitaram à Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) que lhes enviasse a versão em francês do documento para facilitar sua compreensão. Ao serem informados de que ainda não havia versão em francês, solicitaram o original em latim, com o mesmo objetivo. Foi-lhes dito que não havia original em latim e, assim, deduziram que o documento havia sido elaborado nos EUA.
[4] Um documento da CDF de 1992 que trata de questões relacionadas com homossexuais e o mercado de trabalho na época da eleição entre Bush pai, Perot e Clinton deixa isso bem claro: Algumas Considerações sobre a Resposta às Propostas Legislativas sobre a Não Discriminação de Pessoas Homossexuais.
[5] Cf. Romanos 2,1.
[6] Cf. Romanos 2,5.
James Alison é inglês, presbítero católico e teólogo. Este texto foi publicado inicialmente no seu blogue pessoal e é aqui reproduzido com autorização do autor.
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