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[Entre Margens]

Já há água em Almada?

| 09/08/2026

 

Não sei qual tem sido o desempenho do serviço de água em Almada, mas não é disso que venho falar. Também não sei como se organizou o movimento de resposta à falta de água, mas também não é disso que venho falar.

O que me parece importante focar é um conjunto de imagens que me foi dado ver nas notícias sobre a recente crise de água naquele concelho. Sintetizo, por razões de economia: “Água é um direito”, “Queremos água na torneira”, “Queremos água, já!!”, “Água já. Chega de desculpas”.

É claro que sim, a água é um direito. É claro que sim, todos queremos água. E é bom as pessoas mobilizarem-se para terem aquilo a que têm direito.

O que parece importante observar é a gramática da relação política que estas palavras de ordem, logo do movimento social que as motivou, traduzem. Uma divisão em dois blocos: nós, os cidadãos, e eles, os políticos (neste caso ao nível municipal). Nós, as vítimas, deles, e eles, os malandros, que nos maltratam.

Nem um leve cheiro de que corresponsabilidade ou cooperação possam ter lugar. Não, nós, os dos direitos, não temos nada a fazer “com” eles, os da obrigação de nos servirem sem mais quês ou porquês.

A ideia de cooperarmos, não sei como, porque não conheço o problema em concreto, mas talvez poupando água… devia sempre fazer parte da equação.

Passados “cinquenta anos de poder autárquico”, foi aqui que chegámos. Mas não vamos ficar por aqui, pois “ela move-se”, a dinâmica social. Resta saber para onde, a caminho de que modelo de organização coletiva. E de que governabilidade.

Não podemos ignorar que, hoje, há um conjunto de forças a trabalhar no sentido de tornar a Europa inviável, ingovernável, incapaz de se sustentar. Também não podemos ignorar que a falta de água vai ser um problema crescente. Viseu, o interior algarvio e agora Almada são apenas aflorações de uma dinâmica muito mais vasta. Dentro em breve, tudo o leva a crer, será uma situação generalizada e corrente. Se mantivermos a divisão em blocos – nós e eles, nós contra eles – não haverá outra solução que… Qual?

Este é o grande problema social e político. Foi aqui que chegámos? Quando formos celebrar os “cinquenta anos de poder autárquico”, não convém (ou convém? a quem?) esquecermos que o poder local é o laboratório de proximidade do que é e do que pode ser a nossa organização social e política e de quais os valores pelos quais queremos organizar-nos.

A água é uma das nossas fragilidades estruturais e sê-lo-á cada vez mais. E não se resolve sem uma atitude de cooperação e corresponsabilização. De parte a parte. Não apenas para o problema da água, mas para os grandes e pequenos problemas da nossa vida coletiva, isto é, do nosso modo de contruir uma cidade (polis).

 

José Alves Jana é doutorado em filosofia, professor aposentado, voluntário e dirigente associativo. Contacto: jalvesjana@gmail.com

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