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Sobreviventes da bomba atómica de Nagasaki, lançada a 9 de agosto de 1945, percorrendo as ruas da cidade nesse mês. Foto © National Archives at College Park, Public domain, via Wikimedia Commons.
Sobreviventes da bomba atómica de Nagasáqui, lançada a 9 de agosto de 1945, percorrendo as ruas da cidade nesse mês. Foto © National Archives at College Park, Public domain, via Wikimedia Commons.

Hiroxima e Nagasáqui

Neta de um sobrevivente da bomba atómica partilha a história da família

| 09/08/2026

Erin Tsutsui é uma aluna de 16 anos que vai para o 11.º ano na Escola Secundária Henry M. Gunn, na Califórnia. No dia 5 de agosto, visitou o Conselho Mundial de Igrejas com um grupo da League of Creative Minds (Liga das Mentes Criativas). Partilhou a história do seu avô, que sobreviveu à bomba nuclear lançada pelos Estados Unidos da América (EUA) sobre Hiroxima a 6 de agosto de 1945. Três dias depois, a 9 de agosto — assinalam-se 81 anos este domingo — os EUA lançaram uma segunda bomba sobre Nagasáqui.

Setenta mil pessoas morreram instantaneamente em Hiroxima e 40 mil em Nagasáqui. Até ao final desse ano de 1945, com as queimaduras, ferimentos e a doença aguda da radiação, o número total de mortos ultrapassou os 200 mil. O avô de Erin sobreviveu — tinha quatro anos e meio — e foi com a neta que começou a lembrar aqueles dias de horror. A jovem falou desta história ao Conselho Mundial de Igrejas, na entrevista que reproduzimos.

 

Cresceste a ouvir as histórias do teu avô. Podes falar um pouco mais da tua história e da dele?

O meu avô nasceu e cresceu em Hiroxima. Tinha quatro anos e meio quando sobreviveu à bomba atómica em Hiroxima, a 6 de agosto de 1945. Ele contou-me que, de manhã, estava a brincar lá fora, atrás de uma árvore grande, quando a bomba explodiu. Tudo à sua volta explodiu e ficaram-lhe cacos de vidro cravados na mão, que ele mesmo retirou. A mão sangrou, mas salvou-se, e na verdade, não estava assim tão longe do epicentro, mas não estava suficientemente perto para morrer instantaneamente. É um milagre que tenha sobrevivido.

A sua família também por sorte sobreviveu; a mãe e os irmãos estavam dentro de casa ou nas proximidades. O pai, na verdade, estava muito perto do epicentro, mas encontrava-se no subsolo, pelo que também conseguiu sobreviver. No entanto, creio que, talvez um ano depois, o irmão dele morreu. Penso que foi uma combinação de doença da radiação, intoxicação alimentar, inanição ou algo do género. É o que acontece em tempos de guerra.

Erin Tsutsui é uma aluna nipo-americana de 16 anos que vive na Califórnia. O avô sobreviveu à bomba de Hiroxima. Foto © Pauline Tete/WCC. Japão nuclear

Erin Tsutsui é uma aluna nipo-americana de 16 anos que vive na Califórnia. O avô sobreviveu à bomba de Hiroxima. Foto © Pauline Tete/WCC.

O meu avô lutou contra a doença da radiação durante muito tempo, pelo que não frequentou a maior parte do ensino básico. Ele conta-me histórias sobre como o professor lhe dizia que devia estudar para um teste, e ele respondia ao professor: “Acho que vou morrer de qualquer maneira.” O professor ficou muito chocado e começou a chorar. A mãe dele dizia-lhe sempre isso, especialmente porque tinha ficado tão abalada com a morte de um dos irmãos dele, que afirmava que, acontecesse o que acontecesse, iria garantir que ele sobreviveria.

Ele acabou por se tornar estudante de medicina e cirurgião oral. Conheceu a minha avó, tiveram a minha mãe e, depois, a minha mãe mudou-se para os EUA. Eu nasci nos EUA, no Michigan, antes de me mudar para a Califórnia. Sou nipo-americana e nunca morei no Japão, mas as minhas memórias favoritas são das visitas ao meu avô no Japão. Visitei-o este ano.

Acho que ele tem agora 85 anos e vive sozinho, mas parece-me que fica realmente entusiasmado com tudo o que vê. É fantástico conversar com ele, e ele está disposto a contar-me as suas histórias. Na verdade, ele não falava muito sobre a sua experiência com a minha mãe enquanto ela crescia. A minha mãe contou-me que só quando eu era criança e muito curiosa é que fiz todas essas perguntas, e foi aí que ele começou a abrir-se. Por isso, fico contente por ter contribuído para que ele se sinta à vontade para falar sobre a sua experiência.

 

Como é para ti seres nipo-americana, tendo em conta a história entre os dois países?

É muito interessante e complicado, mas quero mesmo dedicar-me a algo relacionado com as relações entre os EUA e o Japão no futuro. Acho que a amizade [entre os povos] é extremamente importante. Obviamente, durante a guerra eram inimigos, mas agora adoraria ver como os dois países que considero a minha casa podem evoluir rapidamente e manter-se ligados. Além disso, o meu avô não nutre qualquer ódio pelos EUA. Na verdade, ele gosta mesmo muito dos Estados Unidos, o que é simplesmente divertido.

 

Ele lembra-se do momento em que a bomba foi lançada, ou é algo que lhe foi contado?

Acho que ele se lembra, porque não estava propriamente ao lado da família. Ele só se lembra de estar atrás daquela árvore e do que se seguiu. Acho que todas as casas, exceto uma, ficaram completamente queimadas. Por isso, toda a gente do bairro foi para aquela única casa, e ele diz-me: “Só conseguia pensar em quando seria a minha próxima refeição”, algo do género. Acho que, por ser uma cicatriz tão profunda, ficou gravada na sua memória, mesmo quando está a dormir.

 

O que te motiva a contar esta história hoje?

Cresci desde pequena a ouvir tudo isto, e isso motivou-me. Acho que é porque sei que a guerra nuclear está no meu sangue, certo? Está na minha família, o impacto das armas nucleares. Por isso, quero fazer tudo o que puder para impedir que isso volte a acontecer e para aprender com o que o meu avô teve de passar, para que nunca mais tenhamos de passar por outra bomba nuclear.

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