O Papa Leão XIV apelou, esta quarta-feira, 12 de agosto, a que os religiosos e as religiosas se sintam “chamados a tornarem-se especialistas em sinodalidade devido às oportunidades oferecidas pela vida comunitária para pô-la em prática”. Ao mesmo tempo uma freira senegalesa, preocupada com o retrocesso democrático em vários estados do continente, analisa os contributos que as práticas de sinodalidade podem oferecer ao campo político.
Esta ponte entre o processo sinodal da Igreja Católica e o mundo político foi objeto de um artigo que a irmã Anne-Béatrice Faye, diretora da Instituição da Imaculada Conceição em Dakar e fundadora de uma Escola de Sinodalidade naquela cidade, publicou em junho último na revista francófona Lumen Vitae. Seguimos aqui uma desenvolvida recensão que foi publicada no site da União do Clero Senegalês.
Intitulado Les implications politiques de la synodalité dans l’Afrique francophone, examina as implicações políticas da sinodalidade em países do Sahel e da África Ocidental, marcados por golpes de Estado, divisões étnicas e um preocupante retrocesso democrático. Em causa está a situação em países como o Burkina Faso, Mali, Níger, Guiné-Conacri e Togo, caraterizada por projetos políticos orientados para a manutenção do poder e o curto prazo, em vez de um compromisso ideológico compartilhado ou de um projeto político de longo prazo.
Apesar dos “ventos da democracia que varreram o continente nos últimos quinze anos”, a autora nota feridas e impasses para os quais a sinodalidade poderia “entrar em cena, não como um substituto político, mas como uma cultura alternativa”.
Sinodalidade como “cultura política alternativa”

Irmã Anne Béatrice Faye ‘propõe “a escuta mútua, a responsabilidade compartilhada, o diálogo e o discernimento comum”, enviando os interessados para a leitura do Documento Final do 16º Sínodo dos Bispos, que, segundo salienta, “fornece o arcabouço normativo” que pode ser transposto para o campo político.’ Foto © site da União do Clero Senegalês
Qual é essa cultura? Anne-Béatrice Faye propõe “a escuta mútua, a responsabilidade compartilhada, o diálogo e o discernimento comum”, enviando os interessados para a leitura do Documento Final do 16º Sínodo dos Bispos, que, segundo salienta, “fornece o arcabouço normativo” que pode ser transposto para o campo político.
“Essa cultura – afirma a recensão do artigo – desafia as práticas usuais de governança africana, marcadas pela centralização do poder e pela personalização da liderança”, que deveriam dar lugar a “outra forma de conceber o poder, não como dominação por elites, mas como serviço orientado para o bem comum, fundamentado na escuta mútua, na participação e na corresponsabilidade”.
Para a religiosa e investigadora isso não seria suficiente, precisando do contributo das tradições africanas articuladas com as exigências modernas da democracia participativa.
Ora, segundo ela, a sinodalidade “introduz uma lógica de transformação a partir de baixo, enraizada nas realidades locais”, que valoriza a mediação, a discussão e o discernimento comunitário, direcionando-os para uma governança ética renovada. Algo – acentua Faye – que vem sendo posto em prática na Escola de Sinodalidade de Dakar, que dirige desde 2023.
Uma última parte do artigo incide sobre o estilo de liderança inerente à sinodalidade – “servidora e de uma governança partilhada, que coloca as necessidades dos outros no centro da tomada de decisões, em vez de interesses pessoais ou objetivos de curto prazo”. Para a autora, essa é uma disposição que as mulheres incorporam com particular acuidade: “As mulheres ensinam-nos a deixar a posição confortável daqueles que oferecem hospitalidade e a deixarmo-nos acolher na vida daqueles que, em nossos caminhos de humanidade, são nossos companheiros”.
Todos os cristãos são construtores de uma Igreja Sinodal
Pode dizer-se que esta proposta, que parte de uma experiência de sinodalidade, é uma concretização do que o Papa pediu esta semana, numa mensagem vídeo que dirigiu à assembleia anual da Conferência de Liderança das Religiosas (LCWR), que decorreu em Orlando, EUA, e que assinalou o 70º aniversário da organização.
Acentuando que “todos os cristãos são chamados a ser construtores da comunhão de Cristo, que se concretiza numa Igreja sinodal onde cada pessoa coopera na mesma missão, segundo seu próprio carisma e ministério”, Leão XIV frisou que, em particular, os membros da vida religiosa são chamados a tornarem-se “especialistas em sinodalidade”, quer porque a podem praticar na vida em comunidade quer pela forma como as congregações se organizam. Nessa linha, o Pontífice congratulou-se com o facto de a conferência ter seguido um método sinodal de “escuta, partilha e discernimento, com abertura e vontade de compreender o que os outros têm a dizer”.
“Espero, portanto, que, através deste formato de diálogo fraterno e recetivo, vocês possam discernir o que o Espírito Santo vos diz sobre o presente e o futuro da vida consagrada nas nações onde servem”, observou o Papa.










