O Escutismo é um jogo… Mas é um jogo que se joga a sério!
Sou escuteiro há 45 anos, por isso escrevo isto de dentro: tudo é vivido como jogo – a patrulha, as atividades, os conselhos, o desenvolvimento pessoal, a liderança – mas ninguém confunde jogo com superficialidade. Pelo contrário: é precisamente através do jogo que se aprende a responsabilidade, a escuta, o serviço e a pertença.
Talvez por isso, quando hoje a Igreja fala de sinodalidade, muitos escuteiros reconhecem qualquer coisa de familiar.
Já em 2015, na comemoração do cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos, o Papa Francisco disse-o sem rodeios:
“O mundo, em que vivemos e que somos chamados a amar e servir mesmo nas suas contradições, exige da Igreja o reforço das sinergias em todas as áreas da sua missão. O caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio.”
Ora, este Caminho da Sinodalidade é, para os escuteiros, um modo de viver já experimentado no terreno e totalmente embebido no seu Método. O paradoxo surge quando algumas comunidades parecem “brincar” à sinodalidade, sem nunca entrarem verdadeiramente no “jogo”.
No escutismo, o jogo não é fingimento. É método. Joga-se para aprender a escutar os outros, a assumir responsabilidades reais, a decidir em conjunto, a aceitar a autoridade como serviço – e a errar, corrigir e recomeçar, sempre que for preciso.
Para quem não sabe… Um Agrupamento organiza-se em secções, que agregam os escuteiros de acordo com as suas idades: a Alcateia reúne as crianças dos 6 aos 10 anos, a Expedição os jovens até aos 14, a Comunidade os que têm até aos 18, e o Clã os jovens adultos entre os 18 e os 22. Em cada uma destas secções, os elementos dividem-se em pequenos grupos, de acordo com o que chamamos o Sistema de Patrulhas. Nas patrulhas é eleito um Guia e são atribuídas responsabilidades a cada elemento: nomeia-se o Sub-guia e nomeiam-se elementos para cargos como tesoureiro, secretário, guarda-material, socorrista ou animador. A cada um uma responsabilidade de acordo com a sua maturidade e autonomia. Da mesma forma, os voluntários adultos são distribuídos pelas secções para orientar os escuteiros na aplicação do Método Escutista, promovendo o seu crescimento e formação.
A liderança forma-se servindo

Escuteiros celebram Dia Nacional do Escutismo 2023. Foto © CNE
A organização do Agrupamento replica o modelo das patrulhas e dos Conselhos a uma escala diferente… mas o modelo é sempre o mesmo: uma patrulha tem o seu Guia, o Sub-guia, o tesoureiro, o secretário… a Direção do Agrupamento tem o seu Guia no Chefe de Agrupamento, o Sub-guia no Chefe Adjunto, o tesoureiro e o secretário… As responsabilidades são delegadas e cada elemento tem as suas.
Os Conselhos de Guias, as Reuniões de Patrulha e tantos outros momentos da vida de um escuteiro não são apenas momentos decorativos. Neles planeiam-se as atividades – os acampamentos, os raides de orientação – identificando-se oportunidades concretas para o desenvolvimento de novas competências, conhecimentos e atitudes.
Nesses momentos, a palavra de cada um, do mais novo ao mais velho, conta. O líder tem a responsabilidade de decidir, mas fá-lo depois de escutar os outros. A liderança forma-se servindo. Nada disto é simbólico – e tem consequências muito reais na dinâmica e na atividade do grupo.
É fácil reconhecer neste Método aquilo que o Papa Francisco descreve quando fala de sinodalidade: um estilo de vida eclesial, feito de escuta mútua, discernimento comunitário e abertura ao Espírito Santo. Aos fiéis da Diocese de Roma, a 18 de setembro de 2021, avisava precisamente contra a tentação de reduzir tudo a vocabulário:
“O tema da sinodalidade não é […] uma moda, um slogan ou um novo termo a ser usado ou instrumentalizado nos nossos encontros.”
E explicava porquê:
“A palavra ‘sínodo’ contém tudo o que nos serve para compreender: ‘caminhar juntos’. O livro dos Atos é a história de um caminho […]. Este percurso narra a história em que caminham juntos a Palavra de Deus e as pessoas que àquela Palavra dedicam atenção e fé. A Palavra de Deus caminha connosco. Todos são protagonistas, ninguém pode ser considerado um mero figurante. Isto deve ser bem compreendido: todos são protagonistas. O protagonista já não é o Papa, o cardeal vigário, os bispos auxiliares; não: somos todos protagonistas […].”
No escutismo, joga-se a sinodalidade com regras claras, com intenção, com objetivos pedagógicos definidos e com compromisso verdadeiro.
Quando a paróquia “brinca” à sinodalidade

“O tema da sinodalidade não é […] uma moda, um slogan ou um novo termo a ser usado ou instrumentalizado nos nossos encontros.” Foto © Grupo VITA
Em maio de 2023, num encontro com a Conferência Episcopal Italiana para o Caminho Sinodal, o Papa Francisco exortava os bispos italianos a prosseguir esse caminho com coragem e determinação, deixando três recomendações:
Continuai a caminhar: “[…] A vida cristã é um caminho. […] Humildade, abnegação e bem-aventurança. Uma Igreja sinodal é tal porque tem consciência de que caminha na história em companhia do Ressuscitado, preocupada não tanto em salvaguardar-se a si mesma e aos seus interesses, como em servir o Evangelho em estilo de gratuidade e cuidado, cultivando a liberdade e a criatividade próprias de quem dá testemunho da alegria do amor de Deus, mantendo-se enraizado no essencial. Uma Igreja sobrecarregada de estruturas, burocracia e formalismo terá dificuldade em caminhar na história, ao ritmo do Espírito; ficará parada e não conseguirá ir ao encontro dos homens e mulheres do nosso tempo.”
Fazer Igreja juntos: “está sempre à espreita a tentação de separar alguns ‘atores qualificados’ que desenvolvem a ação pastoral, enquanto o resto do povo fiel permanece ‘meramente recetivo às suas ações’ (Evangelii Gaudium, 120). […] A Igreja é o Povo santo e fiel de Deus e nele, ‘em virtude do Batismo recebido, cada membro […] tornou-se discípulo missionário’ (ibid.). Esta consciência deve fazer crescer cada vez mais um estilo de corresponsabilidade eclesial: cada batizado é chamado a participar ativamente na vida e missão da Igreja, a partir da especificidade da própria vocação, […] para o bem de todos. Precisamos de comunidades cristãs em que o espaço seja alargado, onde todos possam sentir-se em casa, onde as estruturas e os meios pastorais favoreçam não tanto a criação de pequenos grupos, como a alegria de se sentir corresponsáveis.”
Ser Igreja aberta: “Redescobrir-se corresponsáveis na Igreja não significa implementar lógicas mundanas de distribuição dos poderes, mas cultivar o desejo de reconhecer o outro na riqueza dos seus carismas e singularidade. Desta forma, podem encontrar um lugar quantos ainda lutam para ver reconhecida a sua presença na Igreja, quantos não têm voz, aqueles cujas vozes são abafadas, ou até silenciadas ou ignoradas, que se sentem inadequados, talvez porque têm percursos de vida difíceis ou complexos. […] a Igreja deve deixar transparecer o coração de Deus: um coração aberto a todos e para todos.”
Quando a participação termina na audição

“Há Conselhos Pastorais que se reúnem com regularidade, ouvem-se os presentes, registam-se propostas em ata…, mas as conclusões finais já estavam tomadas desde o início.” Foto: Conselho Pastoral Diocesano, reunido de 8 a 10 junho 2024. © Igreja Acores/CR
Contudo, quem confronta esta exortação com a vida concreta de muitas paróquias encontra, com frequência, um contraste incómodo.
Há Conselhos Pastorais que se reúnem com regularidade, ouvem-se os presentes, registam-se propostas em ata…, mas as conclusões finais já estavam tomadas desde o início… Ao contrário do Conselho de Guias, onde a palavra do mais novo tem peso real na decisão e a escuta antecede a decisão.
Há processos de escuta sinodal em que se preenchem questionários, se organizam grupos de partilha, se envia um relatório à diocese… e cuja síntese ninguém na paróquia volta a abrir. No escutismo, o que se decide num Conselho tem consequência direta na próxima atividade; na paróquia, o que se escuta num processo sinodal pode não ter consequência nenhuma na vida seguinte da comunidade.
Há jovens convidados a “dar a sua opinião” numa sessão de auscultação, sem que isso lhes abra lugar em alguma estrutura com poder de decisão. Num Agrupamento, cada elemento de patrulha tem um cargo real – tesoureiro, secretário, guarda-material – com a responsabilidade que lhe é própria; na paróquia, é frequente que a participação dos jovens termine na sessão onde foram ouvidos.
E há paróquias que adotaram o vocabulário sinodal – ‘caminho sinodal’, ‘corresponsabilidade’, ‘Igreja em saída’ – sem que isso tenha mudado quem decide o quê. A linguagem renovou-se; a estrutura de poder ficou igual.
Escutar “por obrigação” não é escutar. Participar sem corresponsabilidade não é caminhar juntos.
Há comunidades que dizem praticar a sinodalidade, mas que se recusam a entrar verdadeiramente no jogo – porque jogar a sério implica o risco da escuta, da mudança e da perda de controlo.
Posto isto, um agrupamento de escuteiros inserido numa paróquia acaba por ser, muitas vezes sem o querer, uma provocação silenciosa: mostra que é possível confiar e dar voz aos jovens; revela que a autoridade não se perde quando se escuta; prova que a participação não gera caos nem desordem, mas pertença e progresso; demonstra que a missão e o propósito nascem de comunidades vivas.
O desafio de “caminhar juntos” implica, antes de tudo, uma conversão de atitude por parte dos pastores. No mesmo encontro com a Diocese de Roma, em 2021, o Papa Francisco foi muito concreto sobre o que isso significa:
“Nós pastores caminhamos com o povo, às vezes à frente, outras no meio, e outras atrás. […] Pastores misturados, mas pastores, não rebanho: o rebanho sabe que somos pastores […]. Na frente para indicar o caminho, no meio para sentir o que as pessoas sentem, e atrás para ajudar aqueles que estão um pouco atrás e para deixar que o povo veja com o seu intuito onde estão as melhores relvas.”
O escutismo católico pretende tornar real esta imagem: o chefe de escuteiros deve conduzir, acompanhar e aprender com o caminho. É a mesma autoridade de que Francisco falava em 2015:
“A única autoridade é a autoridade do serviço, […] segundo as palavras do Mestre: ‘Sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores, e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. Não seja assim entre vós. Pelo contrário, quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo; e quem no meio de vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo’ (Mt 20, 25-27).”
Entretanto, o tempo das intenções já passou. O Papa Leão XIV tem sido claro ao afirmar que a sinodalidade entrou numa nova fase: a da implementação concreta nas Igrejas locais, e que já não basta falar dela: é preciso vivê-la de forma estável, sobretudo nas estruturas ordinárias da Igreja. Aos bispos italianos, a 17 de junho de 2025, pediu-lhes exatamente isto:
“Que a sinodalidade se torne uma mentalidade, no coração, nos processos de tomada de decisões e nos modos de agir. […] Olhem para o amanhã com serenidade e não tenham medo de escolhas corajosas! Ninguém vos pode impedir de estar próximos do povo, de partilhar a vida, de caminhar com os últimos, de servir os pobres.”
Neste sentido, o escutismo oferece à paróquia um critério simples: ou a sinodalidade muda a forma como decidimos, lideramos e servimos, ou não passa de encenação.
Jogar a sério ou não jogar de todo: o jogo escutista ensina algo essencial à Igreja: há jogos que não são para jogar a fingir.
A sinodalidade é assim: ou se entra verdadeiramente no jogo – com escuta real, discernimento honesto e decisões partilhadas –, ou mais vale reconhecer que ainda não estamos prontos.
Porque no escutismo, como na Igreja, o jogo é coisa séria… concluo com a última mensagem que Baden-Powell escreveu aos escuteiros, já perto do fim da vida: “Procurai deixar o mundo um pouco melhor de que o encontrastes”. Talvez seja isso, no fundo, que a sinodalidade nos pede.
Diogo Assunção é Licenciado em Engenharia Informática e frequentou o MBA pela Universidade Nova de Lisboa. Dedica-se à gestão de projetos em Portugal e no estrangeiro. É Dirigente do Corpo Nacional de Escutas no Agrupamento 39 de Santa Isabel em Lisboa.
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.










