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Trago comigo (12)

Fazer do mundo uma casa

| 03/09/2026

 

Neste período que para muitos é de férias, convidamos os leitores e colaboradores do 7MARGENS a escrever sobre uma música, um livro, um disco, um filme ou uma obra de arte que tenha marcado, de forma especial, um dos seus verões.

Publicamos a seguir o décimo segundo texto dessa rubrica, que intitulamos “Trago comigo”, remetendo para a ideia de alguma coisa pessoalmente significativa que cada qual guarda na sua memória. 

 

Alguns livros que lemos (não muitos) nunca os acabamos de ler. Explico-me: existem livros que foram escritos, porque lhes presidiu uma questão universal; não por tratarem dos inumeráveis saberes que a Humanidade foi acumulando ao longo do silêncio da sua história, mas tão-só por tocarem, se dedicarem à «profundidade humana», que em si mesma já é reencontro e celebração de palavras que «cuidam e amparam».

Ora, o livro Humano, más humano – Una antropología de la herida infinita, do filósofo catalão Josep Maria Esquirol, é precisamente o livro que tive o privilégio de ler, logo em 2021, ano da sua primeira edição, mas ao qual regresso, não posso dizer todos os dias, mas todas as semanas… A sua imprescindibilidade resulta de estar construído a partir da seguinte premissa: «Ser humano não significa ir mais além do humano, mas sim reforçar o humano, mergulhar no mais humano», porque «amar é o primordial infinitivo da vida. E não há nada mais radical que este verbo» [1].

No seu Manifesto pela leitura (Bertrand, 2020), Irene Vallejo [2] escreveu: «Patronio negava-se a dar conselhos ao conde Lucanor, mas contava-lhe sábias fábulas para iluminar o seu caminho». Acauteladas as devidas distâncias, culturais e simbólicas, permito-me perfilhar a “iluminação”, para qualificar a reflexão e o raciocínio de Josep Maria Esquirol na concepção deste livro, logo expressa no primeiro capítulo assim de frente, e que prefiro manter no vigor do timbre do original: «Qué paradoja más triste: aspirar e y confiar en llegar más allá de lo humano y quedarnos cortos en humanidad!».

O alento de que me aprovisiono de cada vez que me achego a este livro é o desafio lançado pelo filósofo, que não descai para a deriva das ostentações filosóficas [3], preferindo o concrecto que do  «acercamiento a la esencia de la vida humana» – de novo em castelhano, porque a primeira palavra em português não exprime a mesma densidade.

Ao longo de toda a sua escrita, Esquirol não prescinde deste «acercamiento»: só nele a Humanidade se reconhecerá “semelhante”, porque nas semelhanças identificaremos as nossas debilidades comuns…

Não é enfado, desânimo ou mesmo indiferença, diante do Mal e dos males que com ele nos inflige. Nada disso. A reflexão tem uma incumbência de nos fazer reavaliar os caminhos, das indecisões e das cobardias – «em momentos de grande desorientação, urge o esforço por centrar-se no mais nuclear, e por fazer bem».

No percurso encontramos sempre uma intenção de proposta, não um caminho messiânico, mas uma terapêutica vinculação com o que nos passa ao lado: «Uma civilização mais humana conduz a fazer do mundo uma casa, em vez de sair de casa para dominar o mundo».

Sabemos que habitualmente é o contrário… Sabemos que «há um par de séculos vivemos sob a insistente retórica do progresso e, contudo, as vítimas não deixaram de se amontoar escandalosamente nas valetas». Sim, sabemos que isto parece estar a acentuar, a progredir sob uma nuvem de indiferença (ou de hábito?).

Mas o que “trago comigo”, de cada vez que me abeiro das palavras de Esquirol, é a esperança compassiva e não o domínio do mundo, «porque alma é o nome dado à capacidade de sentir e de sofrer e, por isso mesmo, de pensar e de lutar».

 

[1] Josep Maria Esquirol, Humano, más humano – Una antropología de la herida infinita; ACANTILADO, Espanha, 2021; pp. 9; 29.
[2] Doutorada em Filologia Clássica nas universidades de Saragoça e Florença, ficou mais conhecida entre nós pelo seu livro O Infinito num junco – A invenção do livro na Antiguidade e o nascer da sede de leitura, (Bertrand Editora, 2020), que além de tratar da história do livro, enquanto artefacto, é igualmente «o relato do seu nascimento, da sua evolução e das suas muitas formas ao longo de mais de 30 séculos», conforme informação editorial.  
[3] Escreve o autor, a determinado momento: «uma filosofia sem luxo sabe, basicamente duas coisas. Primeira: que pouco é muito. Segunda: que deve estar ao serviço do actuar e do orientar-se. Que a reflexão sobre a vida deve intensificar a vida. E que a reflexão sobre o mal deve contribuir a combate-lo» (pág.18)

 

Mário Robalo é jornalista

 

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