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Ildo Fortes 5 Foto Clara Raimundo
O bispo Ildo Fortes no escritório da casa onde vive, no Mindelo (São Vicente, Cabo Verde). Foto © Clara Raimundo | 7MARGENS

Entrevista ao 7MARGENS (II)

Ildo Fortes, bispo do Mindelo: “Temos ricos, mas não temos uma riqueza que seja distribuída”

 

Há pobreza em Cabo Verde, embora ela nem sempre seja visível, diz o bispo do Mindelo. Nesta segunda parte de uma grande entrevista (a primeira parte pode ser lida aqui), Ildo Fortes fala ao 7MARGENS sobre desigualdades, fome, emigração, famílias divididas e alterações climáticas… e sobre o papel da Igreja na construção de uma sociedade mais justa.

 

7MARGENS – Em 2023, a propósito dos 48 anos da independência de Cabo Verde, dizia que as desigualdades sociais estavam a aumentar. O que se passa no país?

ILDO FORTES – Pelo mundo fora, e Cabo Verde não foge à regra, precisávamos muito de ter políticas sociais que pudessem favorecer uma maior justiça. Cabo Verde é um país novo, independente desde 1975. A independência foi também pensada como um caminho para um país mais próspero, com mais igualdade e mais fraternidade. É verdade que o país tem avançado: há empresários, pessoas formadas, gente ligada ao direito, ao ensino. Cabo Verde fez há muito tempo uma aposta na formação e isso é positivo… A Igreja, quando fala de opção preferencial pelos pobres, não quer manter as pessoas na pobreza! Pelo contrário: seria bom que não houvesse pobreza e que todos pudessem viver com dignidade, ter um teto, trabalho, alimento e alguma comodidade. O problema é que estas novas democracias criam ricos, mas não criam tanta riqueza. Ou então a riqueza não é distribuída.

Se me perguntarem se há ricos em Cabo Verde, [digo que] há. Há pessoas com salários muito elevados, comparáveis aos da Europa. Mas continua a haver muita gente pobre. Temos de perguntar: é esta a sociedade que queremos construir? O que é que a liberdade trouxe ao nível da justiça social?

 

7M – É uma pobreza nem sempre visível?

Quem está mais ligado aos pobres dá-se conta de que há muita pobreza. Só que em Cabo Verde temos uma cultura de pobreza envergonhada. As pessoas não fazem questão de mostrar que são pobres. Os meninos que chegam à catequese ou à escola procuram vir o mais bem apresentados possível…

Temos também uma dificuldade cultural em falar de fome. A palavra “fome” lembra os tempos em que as pessoas morriam de fome. Por isso, muitas vezes diz-se “estou fraco”. Mas quando uma criança chega à escola de manhã e fica à espera da refeição que vai comer às três ou quatro da tarde, isso é fome.

 

7M – Há fome em Cabo Verde?

Não diria fome como noutras partes do mundo, onde há pessoas a morrer de fome. Felizmente, isso não há. Mas há gente com dificuldade em ter uma refeição. Há crianças para quem a refeição quente da escola é, segundo aquilo que me dizem, a única refeição quente do dia. E às vezes temos pessoas que desmaiam durante a missa. Depois vamos ver e chegaram à igreja às dez da manhã sem terem tomado o pequeno-almoço.

 

7M – Perante esta realidade, qual deve ser o papel da Igreja?

A Igreja tem um papel muito importante em todos os tempos: ser uma voz de alerta. Esta é a linguagem teológica: temos de ser uma voz profética. Temos de anunciar a esperança, que é a nossa primeira missão, anunciar o Evangelho. Mas, se Cristo está vivo, não podemos perder a esperança e temos também de denunciar as situações de injustiça e desigualdade.

 

7M – A Igreja deve intervir também no debate político?

A Igreja tem um papel importante, que é dialogar. Há uma boa relação entre a Igreja e os políticos: encontramo-nos, visitamo-nos e vamos sempre alertando. A natureza social da Igreja é essencial: a questão do bem comum tem de ser uma prioridade. De vez em quando, se posso, deixo na mão de um político uma encíclica ou outro documento sobre estas questões… Faz parte da nossa missão.

A verdade é que uma boa parte dos nossos políticos são cristãos. E a política pode ser uma forma elevada de amar, uma forma de exercer o amor… A boa política é ter políticas que favoreçam a dignidade das pessoas e o bem das famílias e dos jovens. É criar riqueza que seja mais distribuída.

 

Não ficar pela assistência

A Cáritas do Mindelo está a fazer o levantamento das famílias afetadas. Foto Diocese do Mindelo

Técnicos da Cáritas do Mindelo fazem o levantamento de famílias com necessidade de ajuda. Foto © Diocese do Mindelo

7M – E como se traduz essa preocupação no trabalho da Igreja no terreno?

A Cáritas faz um trabalho muito importante: está presente nas paróquias e desenvolve projetos sobretudo nas ilhas rurais, ajudando muitas famílias.

Temos uma tradição que é o Domingo do Quilo: uma vez por mês, as pessoas levam alimentos não perecíveis para a paróquia e depois a Cáritas organiza cabazes para famílias que passam por maiores necessidades.

Mas a Cáritas procura não ficar apenas pela assistência. Temos várias famílias apoiadas ao nível da habitação: ajudar a ter um teto, uma casa de banho, renovar ou reconstruir uma casa… Há também projetos para ajudar a ter cisternas para armazenar água, apoiar a agricultura e preparar terrenos. Em Santo Antão, por exemplo, há trabalho de preparação dos terrenos e depois, em parceria com o Ministério da Agricultura, sistemas de irrigação gota a gota. A ideia é proporcionar subsistência às famílias e ver se podem tornar-se autónomas.

Temos ainda formação em áreas como culinária, costura e outras atividades, para que as pessoas possam ter a sua pequena economia ou a sua pequena empresa. Porque a Cáritas tem esta perspetiva: assistir aquilo que é necessário no momento, mas ajudar as famílias a tornarem-se autónomas e a não dependerem para sempre das nossas instituições.

 

7M – A seca e as condições climáticas agravam também o problema social?

Sim. Há um êxodo tremendo das zonas rurais para as cidades e uma busca da emigração. Se uma pessoa trabalha a terra e chove num ano, mas depois pode estar dois, três ou quatro anos sem chover, não pode esperar pela agricultura para viver. A nossa agricultura é muito de subsistência e de sequeiro. As pessoas abandonam os campos, mas também não é fácil produzir nas ilhas montanhosas, com acessos difíceis. Há localidades onde é preciso andar horas a pé ou de mula… E depois, como se faz escoar o produto?

Com o êxodo rural, as pessoas chegam à cidade à espera de encontrar trabalho e muitas vezes não encontram. Passam a viver em situações precárias. Há muita gente com uma habitação pouco digna.

Nas ilhas turísticas, como o Sal e a Boa Vista, temos hotéis e resorts de cinco estrelas, mas também uma avalanche de pessoas que vêm à procura de trabalho. Não há casas suficientes para essas pessoas e muitas acabam em bairros precários.

Quando as pessoas vivem sem dignidade, sem espaço, e quando as crianças passam muito tempo sozinhas porque os pais estão a trabalhar, surgem problemas sociais.

 

Famílias divididas pela emigração

Criança à porta de casa num bairro periférico do Mindelo. Foto Clara Raimundo

Criança à porta de casa num bairro periférico do Mindelo. Foto © Clara Raimundo | 7MARGENS

7M – Essa situação fragiliza as famílias?

A nossa estrutura familiar é muito frágil, embora em Cabo Verde tenhamos um conceito de família talvez mais alargado do que noutras paragens. Uma família não é necessariamente apenas pai, mãe e filhos. Pode ser a avó com os netos, uma mãe solteira com o filho, os tios que adotaram os sobrinhos… Isso vem de trás e continua a ser uma forma de proteção.

Mas há situações preocupantes: muitas crianças não têm como referência próxima o pai e a mãe, há pais que emigram e deixam os filhos… Antigamente, a migração era sobretudo masculina. Hoje há também muitos casos em que um membro da família parte e depois tenta levar os restantes.

E continuamos a lutar pela descentralização. A capital concentra recursos, empresas e serviços. Quem consegue um cargo de maior responsabilidade muitas vezes tem de ir para a capital. E muitas vezes a família fica dividida. Alguns conseguem levar a família, outros mantêm um sistema de idas e vindas, outros acabam por perder-se.

 

7M – A questão económica também interfere no facto de muitos casais não chegarem a casar?

Sim. Há muitos casais que vivem juntos há muitos anos e não estão casados na Igreja. Perguntei porque é que não se casavam e percebi que muitas vezes havia uma questão social: a festa. Casar implica convidar toda a família, fazer uma grande celebração, e isso custa muito dinheiro. Muitos vão adiando e acabam por se habituar a essa situação.

A Igreja tem procurado ajudar a mudar esta mentalidade, defendendo que não é preciso fazer uma grande festa, ir a um restaurante… Pode fazer-se no salão da paróquia! Houve uma altura em que eu próprio consegui vestidos de noiva para oferecer e também conseguimos fatos para homens. É preciso ajudar as pessoas a perceber que não precisam de gastar aquilo que não têm para celebrar o casamento.

 

7M – Perante os problemas sociais, a maior parte dos jovens pensa em emigrar?

Temos realidades diferentes: em algumas ilhas, o jovem está quase só à espera que chegue a sua vez de emigrar. Muitos familiares já estão no estrangeiro e cria-se a mentalidade de que viver é emigrar. Isso pode gerar um certo descomprometimento: fica-se à espera, em vez de se procurar criar uma atividade ou um negócio.

Temos depois jovens que se formaram e conseguiram entrar no mercado de trabalho. É bom ver pessoas que foram criando pequenos negócios e empresas.

Mas há outro grupo muito preocupante: jovens que terminaram o curso e ficam um, dois, três ou quatro anos à espera. Há estágios que não são remunerados e há muitos jovens desempregados.

 

7M – Que importância assume a diáspora para o país?

A diáspora é uma riqueza enorme para Cabo Verde. Muitos cabo-verdianos que estão fora continuam ligados à terra de origem: enviam dinheiro às famílias, constroem a sua casa, regressam de férias e muitos pensam voltar quando se reformarem.

Há também associações de cabo-verdianos espalhadas por vários países que procuram apoiar projetos nas suas terras: uma escola, um doente, uma paróquia… Isso é muito positivo.

E essa ligação também existe a nível da Igreja. Somos frequentemente chamados às comunidades cabo-verdianas na Holanda, em França ou noutros países para celebrar crismas ou festas patronais. Em Roma, por exemplo, existe uma comunidade cabo-verdiana organizada há décadas. As pessoas sentem necessidade da presença dos pastores que vêm de Cabo Verde.

Os cabo-verdianos que estão no exterior são muitos. A diáspora é um potencial que poderia ajudar ainda mais aqueles que ficaram.

 

Problemas que se entrelaçam

A inscrição do célebre "Todos, todos, todos" proferido pelo Papa Francisco em Lisboa, à beira de uma estrada de Santo Antão. Foto © Clara Raimundo | 7MARGENS

A inscrição do célebre “Todos, todos, todos” proferido pelo Papa Francisco em Lisboa, à beira de uma estrada de Santo Antão. Foto © Clara Raimundo | 7MARGENS

7M – Como receberam a encíclica Laudato Si’ e a exortação Laudate Deum, do Papa Francisco?

O Papa lembrava que os países pobres não são os principais responsáveis pelo aquecimento global e pela emissão de gases. Isso acontece sobretudo com os países mais ricos. Mas quem manda no mundo são esses mesmos.

Cabo Verde não é uma grande parte do problema. Somos um país pequeno, sem grandes recursos naturais, mas somos muito vulneráveis às consequências… Por isso, temos de fazer a nossa parte. Temos de cuidar da água, das praias, dos campos, reduzir o desperdício, apostar nas energias renováveis e educar as pessoas.

Temos de perceber que é uma questão mundial, mas também de fazer aquilo que está ao nosso alcance.

 

7M – E há condições para Cabo Verde apostar mais nas energias renováveis, por exemplo?

Temos muito vento, muito sol, muita água do mar, muitas ondas. Podemos fazer uma aposta grande nas energias renováveis. Já temos energia eólica a ser injetada na rede pública, mas é pouco para aquilo que podia ser. Temos sol praticamente todo o ano e a energia solar é uma energia limpa. O problema é que os países pequenos não têm capacidade para, sozinhos, tomar todas as decisões políticas necessárias. Os pequenos estão muito dependentes das políticas dos grandes… Mas Cabo Verde tem uma consciência muito grande relativamente à água. A irrigação vai sendo feita cada vez mais gota a gota e as pessoas procuram conter o consumo.

 

7M – Não há uma consciência tão grande em relação ao lixo…

Pois não: precisamos de fazer uma educação para preservar as praias e os campos. Em Cabo Verde, ainda encontramos uma cultura de poluição e o nosso lixo precisava de ser muito melhor tratado. Infelizmente, muitas vezes é queimado.

A Igreja tem também um papel grande para educar: todos somos criação e temos de cuidar da natureza. Mas precisamos de campanhas permanentes: hoje em dia, aquilo que não se vê na televisão ou nas redes sociais, muitas vezes não funciona. Também falta responsabilidade às autoridades. Há lugares onde não há sequer caixotes do lixo, e depois as pessoas atiram o lixo para o chão.

Mas também há sinais positivos: há associações que fazem campanhas de limpeza e escolas que envolvem as crianças. Depois da tempestade do ano passado, por exemplo, vi muitas crianças a sair com sacos para limpar uma praia.

 

7M – No fundo, muitos destes problemas parecem estar ligados: pobreza, desemprego, emigração, famílias desestruturadas, desigualdade, crise climática…

Estão todos ligados. Cabo Verde sempre viveu muito dependente do exterior. Não temos água, não temos chuva suficiente, ultimamente aparecem chuvas fora de época que provocam cheias… não produzimos muitos dos bens de que precisamos. As pessoas saíram sempre e continuam a ter necessidade de sair. Mas a diáspora é uma riqueza. O desafio é conseguir que essa riqueza ajude também quem ficou.

E é preciso criar condições para que as pessoas possam permanecer nas suas ilhas, ter trabalho, ter habitação, criar uma família com dignidade.  Se não houver trabalho e se a riqueza não estiver bem distribuída, continuaremos a ter pobreza e continuaremos a ter pessoas a procurar uma vida melhor fora.

O objetivo não pode ser impedir as pessoas de emigrar. O objetivo deve ser que emigrar seja uma escolha e não uma necessidade.

 

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