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"O futuro Padre Américo não procurava em Junqueiro uma doutrina que pudesse adoptar, mas uma linguagem capaz de dizer aquilo que também o inquietava." Foto: Padre Américo. DR

Literatura

Quando o Santo leu o “Herege”: Padre Américo, leitor de Guerra Junqueiro

 

Dizer que o Padre Américo escrevia bem é quase um lugar-comum que se perde na hagiografia. É costume louvar-se-lhe a obra, a santidade e, de caminho, a eficácia da prosa directa. Mas o homem que mais tarde confessaria ter feito “das lágrimas tinta de escrever” merece outra discussão: pertence ou não à História da Literatura?

A pergunta não é nova. Já nos inícios da década de 1970 se lamentava que a afirmação de que o Padre Américo fora “um dos maiores prosadores do seu tempo” tivesse ficado a pairar no ar, sem que surgisse um estudo ou uma antologia que fizesse justiça ao escritor. Falta, ainda hoje, reconhecer o “artista da palavra” que dominava a frase popular, directa, e a transformava em alta literatura.

Esse estilo não nasceu por geração espontânea. Conhece-se a resposta que ele próprio deu ao amigo José A. de Miranda, quando este lhe perguntou como tinha adquirido uma escrita tão viva e enérgica: “Lendo só Eça de Queiroz”.

‘Conhece-se a resposta que ele próprio deu ao amigo José A. de Miranda, quando este lhe perguntou como tinha adquirido uma escrita tão viva e enérgica: “Lendo só Eça de Queiroz.” ‘ Foto: Curso do padre Américo. DR

A resposta era apenas uma parte da verdade. O “jovem” Américo Monteiro de Aguiar omitiu um nome que, para a sensibilidade da época, pareceria porventura um contrassenso na biblioteca de um futuro padre: Guerra Junqueiro.

A pista estende-se a partir de Coimbra. Nas páginas de Lume Novo – a revista manuscrita dos alunos do Seminário Maior de Coimbra, estreada em Dezembro de 1926 –, a prosa de Américo de Aguiar ecoa, de forma quase magnética, o ritmo de Junqueiro. Sente-se isso em “Mansões de Paz”, mas sobretudo na cadência de “O cantador”:
“Cantar é a expressão constante, a fisionomia alegre do universo. O sibilar dos ventos, o marulhar das águas, o riso das flores, os ais do mar, o cair das folhas, – tudo é cantar. A natureza é a canção eterna! O cantador! Que lindo, como gosto deste nome!”

Lume Novo nº 1:revista manuscrita dos alunos do Seminário Maior de Coimbra. Foto: DR

Este “cantador” remete-nos para o prefácio que Junqueiro escreveu para os Versos do Cantador de Setúbal, de António Eusébio. Estaria o seminarista a imitar conscientemente o poeta de Os Simples?

Durante muito tempo, quem lia estas passagens hesitava. A aproximação a Junqueiro parecia uma conjectura ousada, talvez excessiva. A confirmação, verdadeira festa íntima de investigador, acabou por surgir: uma carta privada do próprio Américo de Aguiar, escrita em Setembro de 1925 ao seu amigo Simão Neves.

Aí, no meio de uma reflexão profunda sobre a vida terrena como preparação para a eternidade, o futuro Padre Américo desfaz qualquer dúvida com um conselho directo: “Leia Prosas Dispersas de Guerra Junqueiro.”

Não era, naturalmente, um nome neutro. Junqueiro chegara a ser, para muitos católicos portugueses, a encarnação literária da irreverência, do anticlericalismo e da blasfémia. Mas havia outro Junqueiro nas páginas de Prosas Dispersas: o escritor inquieto, atravessado por interrogações religiosas, fascinado pelo mistério, pela natureza e pelo destino humano. Um escritor que podia ser combatido por aquilo que afirmava e, simultaneamente, escutado por aquilo que procurava.

É essa ambivalência que torna a recomendação de Américo de Aguiar mais reveladora. O futuro Padre Américo não procurava em Junqueiro uma doutrina que pudesse adoptar, mas uma linguagem capaz de dizer aquilo que também o inquietava. A literatura não lhe exigia adesão; exigia atenção. E essa liberdade de leitura talvez ajude a compreender a própria liberdade da sua escrita, tão pouco preocupada em caber nas convenções literárias ou religiosas do seu tempo.

Quando em 2016 publiquei o pequeno ensaio Padre Américo: Notas Sobre o Artista da Palavra, este era precisamente um dos elos perdidos que procurei resgatar: a prova de que a obra de Junqueiro, editada em 1921, fora lida e assimilada pelo seminarista de Coimbra. O facto de Américo de Aguiar recomendar as prosas do místico e controverso Junqueiro revela não só a sua largueza de vistas, mas o modo como o seu próprio estilo se alimentava dos melhores poetas e prosadores da sua época, sem preconceitos dogmáticos.

Há, aliás, uma afinidade mais funda entre os dois escritores. Em ambos encontramos uma palavra que não se contenta em descrever a realidade: quer acordá-la. A escrita de Padre Américo tem essa mesma energia de interpelação que encontramos em Junqueiro. Há nela ritmo, exagero, ironia, exclamação, imagens inesperadas, uma espécie de oralidade que parece nascer directamente da voz. A frase não procura apenas ser entendida; procura atingir o leitor, incomodá-lo, arrancá-lo à indiferença.

“O que Américo de Aguiar terá encontrado naquelas páginas [Guerra Junqueiro] não foi apenas um repertório de palavras ou imagens, mas a possibilidade de fazer da escrita uma forma de intervenção.” Foto: Guerra Junqueiro. DR

Também por isso, a leitura de Junqueiro importa mais do que uma simples referência bibliográfica. O que Américo de Aguiar terá encontrado naquelas páginas não foi apenas um repertório de palavras ou imagens, mas a possibilidade de fazer da escrita uma forma de intervenção. Mais tarde, em O Gaiato, essa lição ganharia uma voz inteiramente própria: popular, mordaz, compassiva, por vezes desabrida, capaz de passar da graça à indignação numa única frase. Padre Américo não escreveu como Junqueiro. Mas é possível reconhecer nele alguma coisa daquela mesma confiança na força moral da palavra.

Se tivesse de apontar um elo entre os dois, seria este: a recusa de uma literatura indiferente. Em Junqueiro, a palavra podia ser combate; em Padre Américo, tornou-se também serviço. Um e outro sabiam que uma frase pode fazer mais do que ornamentar o pensamento: pode ferir a consciência, provocar uma resposta, obrigar alguém a olhar de novo.

Zacarias de Oliveira escreveu um dia que seria “conveniente, para bem das letras portuguesas”, que o Padre Américo conquistasse finalmente o lugar que merece na nossa literatura. Esse lugar não se faz apenas com a memória da sua extraordinária caridade, mas com o reconhecimento do seu génio estético. Sim, o incansável editor José da Cruz Santos tem razão: “É tempo de falar do Padre Américo.” E é tempo de o inscrever, por direito próprio, no cânone dos grandes artistas da língua portuguesa.

A pergunta com que começámos terá de ser colocada de outra maneira. Pertence o Padre Américo à História da Literatura? Mais do que pelo lugar que algum dia venha a ocupar numa história literária, importa a capacidade de nos fazer regressar à própria literatura. Ao descobrir que aquele sacerdote que fez da palavra uma arma contra a indiferença lia Guerra Junqueiro, percebemos também que as fronteiras entre o santo e o “herege”, entre a oração e a revolta, entre a literatura e a vida, são bem menos nítidas do que as classificações posteriores nos fazem crer.

Nesta terça-feira, 15 de Setembro, passam 176 anos sobre o nascimento de Guerra Junqueiro. Não deixa de ser curioso assinalar a data lembrando uma carta escrita, há pouco mais de um século, por um jovem seminarista que ainda não era Padre Américo e que, entre tantas leituras possíveis, recomendava precisamente Junqueiro. Uma das pequenas surpresas que a literatura ainda nos reserva é esta: os livros continuam a aproximar pessoas que a história, as instituições ou as nossas próprias certezas se encarregaram de separar.

Por tudo isto, vale a pena continuar a procurar. Há escritores que julgamos conhecer porque conhecemos o seu nome, a sua obra mais célebre, a imagem que deles ficou. Mas, de vez em quando, uma carta, uma página esquecida, uma recomendação feita quase à margem de tudo, abre uma passagem inesperada. Foi o que aconteceu aqui. Por detrás do Padre Américo que conhecíamos estava um leitor de Junqueiro. E, por detrás do Junqueiro que julgávamos conhecer, há ainda muitas leituras à espera de ser descobertas.

 

Henrique Manuel Pereira é professor da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa – Porto

 

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