O pequeno livro A Lentidão, de Milan Kundera, orbita em torno da seguinte proposição ou, na expressão do autor, “equação da matemática existencial”: “o grau de lentidão é diretamente proporcional à intensidade da memória; o grau de velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento.”

Misto de ensaio e ficção, o livro procura mostrar-nos que a arte da vida requer uma sábia modelação do tempo. Tal como na melodia, a beleza dos momentos e das histórias requer uma construção paciente, baseada numa cadência própria, sem pressas nem precipitações. A pressa e a velocidade equivalem à superficialidade, a qual não deixa rasto na memória; já a lentidão permite a profundidade, a revelação plena do ser e do significado, a edificação de pedaços de beleza existencial que imprimem marcas indeléveis nas histórias das pessoas.
A própria ideia de uma história, com efeito, pressupõe uma cadência em que cada momento tem o seu lugar próprio e oportuno (aqui se subentende o conceito grego de kairos, tempo oportuno). É aliás desta forma que Kundera constrói neste livro as suas pequenas histórias, prosaicas na aparência, mas cheias de significado, especialmente porque nos revelam um ritmo e uma cadência no contar que nos agarram e transportam. Exprimem elas mesmas essa sábia lentidão, necessária à revelação plena dos significados e sentidos. Necessária à construção de harmonias existenciais, dinâmicas de significação que dão sentido à vida.
O nosso tempo, diz Kundera, está viciado na velocidade. Esta é como que uma forma de “ascese laica”, que permite ao ser humano esquecer-se, por momentos, dos seus limites e problemas, do seu vazio interior, e sentir-se como que todo-poderoso. Mas este vício só cava mais fundo esse vazio. Quase nada daquilo que é essencial é hoje vivido com a necessária demora: um encontro, uma conversa, um amor, uma reflexão, etc. Habituámo-nos a viver e a sentir pela rama, sem profundidade, sem levar as coisas até à plenitude da sua verdade e significação. Queremos viver tudo rapidamente, freneticamente, como se assim os momentos não pudessem escapar-nos; mas é precisamente assim que eles nos escapam mais rapidamente, não deixando rasto na memória. Consomem-se como fósforos, mas não incendeiam nem aquecem o coração. Não é de consumir o tempo que precisamos, mas de consumá-lo.
Kundera ilustra este vínculo entre velocidade e memória com um outro exemplo muito simples, mas revelador: abrandamos o passo quando queremos recordar algo, mas estugamo-lo quando queremos esquecer, como se fugíssemos de uma má memória. Aqueles que estão imersos nas suas próprias (boas) recordações, têm os passos e os gestos lentos, como se revivessem e saboreassem o vivido. É, pois, preciso tempo para construir memórias, mas também para recordar, e ambos, viver e recordar são essenciais para viver autenticamente e com sentido.
Este é um livro que, paradoxalmente, se lê de um fôlego e com grande prazer.
Ruben Azevedo é professor e autor dos livros Essência da Vida, Enigma – Noemas em torno do Mistério do Ser e do Existir e What saves us?: Selected writings on Absolute, Consciousness, Freedom, Meaning.
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