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[Trago comigo - 7]

Comandante Tom MacWhwirr

| 20/08/2026

Neste período que para muitos é de férias, convidamos os leitores e colaboradores do 7MARGENS a escrever sobre uma música, um livro, um disco, um filme ou uma obra de arte que tenha marcado, de forma especial, um dos seus verões.

Publicamos a seguir o sétimo texto dessa rubrica, que intitulamos “Trago comigo”, remetendo para a ideia de alguma coisa pessoalmente significativa que cada qual guarda na sua memória. E ficamos a aguardar receber muitos mais em setemargens@setemargens.com.

 

No saco das leituras na areia caiu, à última da hora, uma colectânea de artigos e ensaios de Joseph Conrad (1857-1924), o melhor escritor das coisas do mar, ele mesmo marinheiro distinto, o polaco da mais elegante prosa em inglês, o inglês por escolha e vocação, como o recentemente falecido Tom Stoppard (1937-2025), nascido checo e, também ele, excelente na prosa dramatúrgica na língua de Shakespeare, como podereis observar lendo qualquer das duas peças já traduzidas para português ou revendo o Império do Sol (1987), realizado por S. Spielberg a partir de narrativa autobiográfica de John Ballard, ou, mais popular, Shakespeare in Love (1988), realizado por John Madden.

Direis: então e o Defoe de Robinson Crusoe, o Melville de Moby Dick ou a trilogia de Golding iniciada com Ritos de Passagem? Sem dúvida que podemos encontrar inúmeros exemplos de obras ficcionais com o mar por cenário e incontáveis micropaisagens (obrigado Carlos de Oliveira) humanas e sociais encerradas no bojo dos navios que delas são o chão incerto. Mas trago sempre na memória alguns títulos de Conrad, de que destaco, por hoje, o único de que fiz recensão publicada nos idos de 1989 e, de novo, recordada em Vila Real de Santo António, por meados de Julho, enquanto lia o magnífico ensaio de abertura de La Géographie et quelques explorateurs, recolha com o mesmo título editada em França, de que me ocupei com alegria enquanto escovava a palidez do corpo.

Num envelope de papel pardo, o tempo gastou o recorte.

Num envelope de papel pardo, o tempo gastou o recorte.

O texto era dedicado a Tufão, uma das obras-primas de Conrad, editado no mesmo ano pela Difel, e soava assim (algumas passagens):

[…] Quando, na infância, viajamos nos livros de Jack London e Júlio Verne, ou, um pouco mais tarde, encetamos as narrativas de H. Melville, obedecemos ao irreprimível impulso de mudar de lugar para mudar a vida. E sempre que olhamos o mar tranquilo ou a enseada acolhedora, vem-nos a imoderada alegria de poder partilhar a lenta progressão do cargueiro, a silenciosa imobilidade do veleiro ancorado.

«Escapa-nos o terror que se oculta sob as vagas e se transporta no vento. Esquecemos que, onde quer que vamos, já lá estamos. Basta-nos sonhar longínquas façanhas. Anónimos desembarques em portos distantes. Basta-nos o sal nos lábios e uma cor de sol na pele.

E no entanto, como é breve a alegria nos personagens de Conrad! Como é acessória a descrição dos lugares! Tudo se resume, na verdade, ao contacto das superfícies: a superfície líquida do oceano, a superfície sólida dos corpos, a superfície mecânica, quase antropomórfica, da embarcação.

«Do convés ao porão, os homens são presas dos incertos desígnios do mar. E se lhes falta imaginação, não atendem aos presságios: registam displicentemente as evidências.

O comandante MacWhirr é um marinheiro sem imaginação que merece a nossa confiança e admiração menos pela intrepidez característica do “lobo do mar” do que pela linearidade quase asinina das decisões que toma ou pela perplexidade que arvora perante as mais banais manifestações de loquacidade ou engenho simplesmente humanos […].

MacWhirr é a cristalização luminosa do homem que não pergunta, do homem que não vive por antecipação. Meticuloso e imperturbável, segue a rota da existência sem outra preocupação que não seja fazer coincidir o vapor que comanda com a linha traçada numa carta.[1]

Sempre gostei deste texto. E teria gostado ainda mais de ser Tom, o herói insignificante, na tempestade de que começava sair. Nele, invejoso, me projectei e, sem o saber, me protegi.

 

[1] «Tom MacWirr: um herói conradiano», diário Europeu, 23 de Março de 1989.

 

João Santos é professor

 

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