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Uma família em missão por Cabo Verde. Foto Direitos reservados
Uma família em busca das suas raízes cabo-verdianas viu as férias tornarem-se missão. Aqui com a aldeia das Fontainhas (Santo Antão) como cenário. Foto: Direitos reservados

Uma viagem que se tornou missão

Cabo Verde em família: trancinhas, cachupa e um jornal escolar

| 14/09/2026

Cinco computadores para 70 alunos. À primeira vista, a conta não parecia promissora. Na sala polivalente da Escola Padre Usera, nos arredores do Mindelo, dividimo-los em grupos e distribuímo-nos também nós: eu, o meu marido e os nossos três filhos, de 13, 10 e sete anos. Ao fim de uma semana, os alunos do 5.º e do 6.º anos tinham escolhido um nome, desenhado um logótipo, pensado secções e começado a fazer entrevistas. Estava criado o Jornal dos Useras. E o ponto alto das nossas férias em Cabo Verde tinha acontecido numa escola.

A viagem nascera de uma vontade antiga: apresentar aos nossos filhos o país de origem dos avós paternos, que mal chegaram a conhecer. A avó era de Santo Antão, o avô de São Vicente. Mas queríamos também que aquelas três semanas de férias não se esgotassem numa soma de praias, passeios e restaurantes. Foi por isso que, antes de partirmos, escrevemos ao bispo do Mindelo, Ildo Fortes, apresentando a família e aquilo que sabíamos fazer — jornalismo, informática, vontade de ajudar — e perguntando onde poderíamos ser úteis.

A resposta do bispo não se fez esperar e acabou por traçar o nosso itinerário. Em Santo Antão, a paróquia de Santo António das Pombas, no Paul, tinha montado recentemente uma sala de informática, mas precisava de alguém que ensinasse a usar os computadores. Em São Vicente, as Irmãs do Amor de Deus tinham o sonho de criar um jornal na Escola Padre Usera, que gerem, mas faltavam-lhes os computadores e formação. Conseguimos preparar em Portugal cinco portáteis para oferecer e levámo-los na bagagem sem saber bem como reagiriam os alunos nem quanto conseguiríamos fazer em tão pouco tempo.

Ainda antes de partirmos, passámos pela Consulta do Viajante, onde nos foi recomendado tomar as vacinas contra a febre tifoide e a hepatite A, que tivéssemos cuidado extremo com a água (sempre engarrafada e nada de gelo) e que nos muníssemos de repelente e probióticos. Conscientes de que em Santo Antão o acesso a cuidados médicos urgentes e a farmácias é escasso (soubemos, já lá, que havia uma única ambulância para toda a ilha…), uma das nossas mochilas viajou convertida num autêntico kit de emergência médica (ao qual, felizmente, não precisámos de recorrer).

Do aeroporto Cesária Évora seguimos de táxi para o porto do Mindelo — seis pessoas espremidas num carro de cinco lugares, com o taxista a assegurar que não havia qualquer problema e a apresentar-nos logo ali àquele que é o mote do país: no stress. Não ficámos assim tão tranquilos quando, pouco depois de entrarmos no ferry em direção a Santo Antão, começaram a distribuir sacos para o enjoo a todos os passageiros. Mas, uma vez mais, não havia motivo para stress: o Canal de São Vicente acolheu-nos com um mar calmo e dócil e, em menos de uma hora, desembarcávamos em Porto Novo. À aridez vulcânica de São Vicente sucediam-se as montanhas e os vales cultivados de Santo Antão.

A vista a partir do barco à chegada à ilha de Santo Antão. Foto Clara Raimundo

A vista do barco à chegada a Santo Antão. À aridez vulcânica de São Vicente sucediam-se as montanhas e vales cultivados. Foto © Clara Raimundo

Mudança de planos

Para chegar até à Cidade das Pombas, a cerca de 30 quilómetros, apanhámos uma hiace, nome pelo qual são conhecidas as carrinhas Toyota que asseguram boa parte do transporte coletivo na ilha. E leia-se mesmo iáce, não aieice, como costumamos dizer em Portugal. Partem quando enchem; pelo caminho, voltam a parar para receber quem faz sinal junto à estrada. Se parece já não haver lugar, há quase sempre maneira de apertar um pouco e levar mais alguém. Como não têm horário estipulado, também nunca chegam atrasadas.

O sol já se tinha posto quando, depois de um caminho de curvas e contracurvas junto ao mar, chegámos ao nosso primeiro destino. De imediato, fomos envolvidos pela morabeza — aquela palavra que define a arte cabo-verdiana de bem receber. A antiga casa do padre tinha sido preparada por um grupo de paroquianas para nos acolher e no frigorífico havia cachupa e bolo. Mas o pároco, padre Ezequiel, pedia-nos desculpa: é que, quando falara com o bispo, não se tinha apercebido de que iríamos viajar na semana antes da Páscoa e agora, como toda a comunidade estava mobilizada para as celebrações religiosas, não seria viável darmos as formações que estavam previstas. Havia, no entanto, muito trabalho a fazer na preparação dessas celebrações e toda a ajuda era bem-vinda. E foi assim que, sem stress, o plano mudou: trocámos as aulas de informática por limpezas e arrumações da igreja, ensaios do coro, uma recriação da Última Ceia e atividades com as crianças da creche paroquial.

Atividade na escola paroquial de Santo António das Pombas, Santo Antão, Cabo Verde. Foto Clara Raimundo

Trocámos as aulas de informática por limpezas e arrumações da igreja, ensaios do coro, uma recriação da Última Ceia e atividades com as crianças da creche paroquial. Foto © Clara Raimundo

Nos tempos livres, íamos descobrindo o resto da ilha. Ali bem perto, a cinco minutos de hiace, as piscinas naturais da Sinagoga fizeram as delícias dos miúdos. Entre rochas negras e água azul-turquesa, passámos ali vários fins de tarde, a mergulhar e a explorar as pequenas poças onde, na maré baixa, se escondem peixes coloridos e outras criaturas marinhas.

Piscinas naturais da Sinagoga, em São Vicente (Cabo Verde). Foto Clara Raimundo

As piscinas naturais da Sinagoga fizeram as delícias dos miúdos Foto © Clara Raimundo

Alguns quilómetros à frente, na cidade da Ribeira Grande, deixámo-nos surpreender pelos murais de arte urbana que dão cor às fachadas e subimos até à estátua de Nossa Senhora do Rosário, de onde se avista todo o vale. Mas foi à mesa que tivemos uma das experiências mais memoráveis: a cachupa feita em lume de lenha no restaurante da Sónia, Criôlinha. Sem dúvida, uma das melhores que provámos durante a viagem.

Antes da despedida, um dos colaboradores da paróquia, o simpático Edgar, fez questão de nos levar a conhecer alguns dos lugares mais bonitos da ilha. A bordo da sua carrinha de caixa aberta — também há muitas destas a servir de táxi coletivo em Santo Antão — visitámos a Ponta do Sol e caminhámos junto ao mar pela pista de asfalto do antigo Aeródromo Agostinho Neto, desativado depois de um acidente aéreo ocorrido num dia de nevoeiro cerrado. Seguimos depois para Fontainhas, uma aldeia empoleirada num desfiladeiro, entre casas de fachadas garridas. Numa delas, com a porta aberta, um morador tocava e cantava morna, oferecendo um pequeno concerto para quem quisesse parar a ouvi-lo. Terminámos o périplo no vale do Paul, conhecido como o jardim de Cabo Verde, onde Edgar ia apontando, visivelmente orgulhoso, os socalcos com plantações de banana, café, mandioca, inhame e cana-de-açúcar, esta última usada na produção do tradicional grogue da ilha.

Junto à estátua de Nossa Senhora do Rosário, na Ribeira Grande (Santo Antão, Cabo Verde). Foto © Clara Raimundo

Junto à estátua de Nossa Senhora do Rosário, de onde se avista todo o vale da Ribeira Grande. Foto © Clara Raimundo

Foi também ele que nos levou de volta para Porto Novo, onde iríamos apanhar o ferry para regressar a São Vicente. O padre Ezequiel fez questão de nos acompanhar e sugeriu que, desta vez, fôssemos pelo interior da ilha. Tomámos a mítica Estrada da Corda e vivemos a paisagem de Santo Antão por inteiro: a passagem pelo Delgadinho, com os seus desfiladeiros vertiginosos de ambos os lados, deixou-nos na memória uma das paisagens mais bonitas e avassaladoras de Cabo Verde.

 

Rede fraca, amizades fortes

De volta ao Mindelo, esperavam-nos as irmãs Laurinda, Albertina, Rosário, Zuleica e Serafina. Cinco freiras da Congregação das Religiosas do Amor de Deus, a quem foi confiada a missão de gerir uma escola na encruzilhada de bairros periféricos humildes: Pedreira, Fonte Francês e Fonte Cónego.

A vista da escola padre Usera, nos arredores do Mindelo. Foto Clara Raimundo

Um aluno mostra a um dos nossos filhos a vista a partir de uma janela da Escola Padre Usera, localizada na encruzilhada de bairros periféricos humildes: Pedreira, Fonte Francês e Fonte Cónego. Foto © Clara Raimundo

Ficámos alojados na casa delas, mesmo colada à escola, onde os nossos filhos aprenderam desde logo uma lição de desapego. Não havia água quente para tomar banho — na grande maioria das casas destes bairros não existe sistema de água quente canalizada —, a loiça e a roupa tinham de ser lavadas à mão (máquinas de lavar loiça, ali, são um luxo, e a de lavar roupa já estava tão velhinha que só funcionava quando queria), a internet era frágil e intermitente e, às vezes, nem a televisão apanhava sinal. A desconexão digital deu lugar a divertidos serões partilhados com as irmãs, a jogar Parchis e Ouril, o jogo de tabuleiro mais popular de Cabo Verde, jogado numa caixa de madeira com 12 covas e 48 sementes.

De manhã, o desafio era transformar 70 crianças — algumas delas nunca tinham tocado num teclado ou num rato — e cinco computadores, com uma ligação à internet frágil, numa redação. Mas era incrível a atenção com que nos ouviam falar do trabalho dos jornalistas, do perigo das fake news e das possibilidades e riscos da inteligência artificial. Em conjunto, decidiram o nome do jornal, desenharam vários logótipos e votaram para escolher o melhor, definiram a periodicidade e o que queriam contar, distribuíram funções e aprenderam edição de texto e de imagem e paginação.

Com os alunos da Escola Padre Usera (São Vicente, Cabo Verde). Foto Clara RaimundoOs alunos da Escola Padre Usera, divididos por grupos, a preparar a primeira edição do seu jornal escolar com a nossa ajuda. Foto © Clara Raimundo

À tarde, quase sempre havia tempo para passear pelo Mindelo: uma ida à praia da Laginha, com o Monte Cara a desenhar ao fundo a sua silhueta inconfundível; um jogo de futebol ou de basquete combinado com as crianças da escola no campo do centro da cidade; um passeio pela Praça Estrela, onde os miúdos encontraram as camisolas da seleção cabo-verdiana que passaram a usar orgulhosamente; ou uma visita ao núcleo museológico dedicado a Cesária Évora e à casa onde viveu. Tivemos a sorte de ali ser recebidos pelo filho da cantora, com quem acabámos a falar de Lisboa e, inevitavelmente, do Benfica.

Praia da Laginha. Foto Clara Raimundo

Uma ida à praia da Laginha, com o Monte Cara a desenhar ao fundo a sua silhueta inconfundível. Foto © Clara Raimundo

Os lanches iam alternando entre a gelataria Cremositos, onde o sabor de kamoka, feito a partir de farinha de milho torrado, se tornou um dos favoritos, a padaria Pãozinha Quente, de um português apaixonado por São Vicente, onde nos esperavam pães recheados com coco ou chocolate, e o Café Mindelo, onde descobrimos um leite-creme de que ainda hoje temos saudades.

De volta a casa, a amizade com as irmãs crescia também à mesa. E foi com elas que aprendemos a cozinhar o cuscuz cabo-verdiano, uma espécie de bolo feito à base de farinha de milho ou de mandioca, temperada com canela, açúcar e, por vezes, cacau. A mistura é colocada num vaso de barro perfurado chamado binde, que se tapa e coloca sobre uma panela de água a ferver. Em dez minutos, desenforma-se e saboreia-se ainda quente, simples, com manteiga ou doce de papaia. Um ritual que já replicámos na nossa cozinha em Portugal para recordar o sabor da morabeza.

A aprender a cozinhar cuscus cabp-verdiano. Foto Clara Raimundo

A aprender a cozinhar cuscus cabp-verdiano. Foto Clara Raimundo

Num dos dias, aproveitando um feriado municipal em que a escola estava fechada, desafiámos as irmãs a ir connosco à praia da Baía das Gatas. Para nossa surpresa, apesar de viverem ali há anos e de a praia ficar a cerca de 10 quilómetros, algumas nunca se tinham banhado naquelas águas.

Todos juntos, quase enchemos a hiace que nos levou até lá, e valeu mesmo a pena a viagem. A Baía das Gatas é uma grande piscina natural, de água límpida e quase sem ondas, protegida pela enseada. Passámos ali o dia, entre mergulhos e conversas, enquanto os miúdos não se cansavam de saltar do pontão — o trampolinão, como lhe chamam por ali.

As irmãs do Amor de Deus na parai da Baía das Gatas. Foto Clara Raimundo

As irmãs do Amor de Deus (da esq. para a dta.: Rosário, Zuleica, Laurinda, Serafina e Albertina) na praia da Baía das Gatas. Foto © Clara Raimundo

 

Mergulhos na praia da Baía das Gatas. Foto Clara Raimundo

Um dos muitos mergulhos a partir do trampolinão. Foto © Clara Raimundo

Mais tarde, quando o sistema de pagamentos eletrónicos falhou no único restaurante aberto, resolvemos o problema à maneira cabo-verdiana: metade da conta em escudos, a outra metade em euros, sem qualquer sobressalto.

 

Fugir das tartarugas e querer voltar

Já sem as irmãs, fomos conhecer a Praia de São Pedro, uma vila piscatória onde os pescadores encontraram nas tartarugas uma nova forma de sustento. Um jovem local explicou-nos que, com a diminuição do peixe e as dificuldades crescentes da pesca tradicional, começaram a usar as suas embarcações para levar turistas a observar as tartarugas que se fixaram na baía. “Deus viu o sofrimento dos pescadores e enviou uma família de tartarugas-marinhas para ajudar as famílias”, contou-nos ele à maneira de uma parábola.

Foi com nervoso miudinho que entrámos no barco nas horas de sol alto e, depois de vencermos as ondas da rebentação, saltámos para a água com máscaras e coletes de snorkeling. As tartarugas, habituadas às sardinhas levadas pelas embarcações, aproximaram-se tanto que o verdadeiro desafio era afastarmo-nos delas para cumprir a única regra que nos tinham imposto: não lhes tocar.

O barco que nos levou até às tartarugas, em São Vicente. Foto Clara Raimundo

O barco que nos levou até às tartarugas, na Praia de São Pedro. Foto © Clara Raimundo

 

Com as tartarugas, na Praia de Sâo Pedro. Foto Clara Raimundo

As tartarugas, habituadas às sardinhas levadas pelas embarcações, aproximaram-se tanto que o verdadeiro desafio era afastarmo-nos delas. Foto © Clara Raimundo

De regresso ao Mindelo, estava na hora da despedida. Os dois miúdos mais velhos decidiram levar uma recordação de Cabo Verde que não cabia na mala. Ao verem tantas crianças na escola de cabelo entrançado — alguns faziam as tranças uns aos outros nos intervalos —, tinham ficado com vontade de experimentar também. Uma das professoras indicou-nos a mãe de uma aluna, cabeleireira, e levou-nos até ao salão improvisado no hall de entrada da casa dela. Duas horas depois, saíram de lá com o cabelo entrançado, orgulhosos da semelhança com os amigos cabo-verdianos e decididos a conservar as trancinhas até ao regresso à escola em Portugal.

Um cabeleireiro improvisado nos arredores do Mindelo, Cabo Verde. Foto Clara Raimundo

A entrançar o cabelo, em casa da mãe de uma das alunas da escola. Foto © Clara Raimundo

Também não podíamos partir sem tirar a foto da praxe, tendo como pano de fundo o rosto de Cesária Évora esculpido pelo artista português Vhils num dos edifícios que saúdam quem chega à cidade pela marginal. E sem um último jantar com sabores de Cabo Verde, desta vez na Casa da Morna, onde há sempre música ao vivo. Só no final descobrimos que o pianista que nos acompanhara durante o repasto tinha tocado com a própria diva dos pés descalços.

O retrato de Cesária Évora, ao anoitecer. Foto Clara Raimundo

O rosto de Cesária Évora esculpido pelo artista português Vhils num dos edifícios que saúdam quem chega à cidade pela marginal. Foto © Clara Raimundo

Entrámos no avião com a sensação de que tínhamos encontrado ali uma parte de nós próprios — e deixado também alguma coisa. O Jornal dos Useras ficou entregue aos alunos e professores. Em Santo Antão ficaram formações por dar e, na escola, há outro projeto por concretizar: criar uma biblioteca. Ainda não tínhamos aterrado em Lisboa e uma coisa já era certa: vamos ter de voltar.

Com alguns dos alunos que integraram a redação do jornal escolar. Foto: Direitos reservados

 

A capa do Jornal dos Useras projetada no quadro de uma das salas de aula da Escola Padre Usera. Foto: Direitos reservados

A capa do Jornal dos Useras projetada no quadro de uma das salas de aula da escola. Foto: Direitos reservados

Este texto foi inicialmente publicado na edição de dia 22 de agosto de 2026 do suplemento Fugas, no jornal Público

 

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