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O texto do Apelo de Metz é lido pelos diferentes líderes religiosos. Foto Vatican Media
A leitura do texto do Apelo de Metz foi partilhada pelos diferentes líderes religiosos. Foto © Vatican Media

Apelo de Metz

Com Leão XIV, líderes das grandes religiões assumem compromisso de união pela paz e dignidade humana

Os representantes das principais tradições religiosas presentes em França comprometeram-se esta segunda-feira, 28, na cidade de Metz, a aprofundar o diálogo entre si, a educar as novas gerações para o conhecimento mútuo e a permanecerem unidos na promoção da justiça e da paz. Num encontro inter-religioso organizado no âmbito da visita do Papa Leão XIV a França, representantes do budismo, das Igrejas católicas, ortodoxas e protestantes, do islamismo e do judaísmo apresentaram o chamado “Apelo de Metz”, a que o Papa correspondeu defendendo o diálogo, a dignidade humana e a responsabilidade das religiões na defesa da vida.

O momento teve uma forte dimensão simbólica, com o texto do Apelo de Metz a ser apresentado, não por um único representante, mas por todos os líderes religiosos presentes, que se foram sucedendo na leitura do documento. No final, todos o assinaram e entregaram-no a duas crianças, num gesto que apresentou o compromisso assumido não apenas diante delas, mas também em nome das gerações futuras.

“Somos diferentes pelas nossas convicções religiosas mas estamos unidos pela responsabilidade de servir juntos a paz no mundo e o respeito pela dignidade de toda a pessoa humana”, afirmaram os representantes religiosos no texto lido logo no início do encontro, realizado no Centro de Congressos Robert Schuman. O documento termina com três compromissos concretos: “prosseguir com assiduidade um diálogo exigente” entre as diferentes tradições; “continuar a formar as nossas jovens gerações para o conhecimento mútuo” das tradições religiosas; e “mantermo-nos juntos, inclusive na adversidade, para trabalhar na promoção da justiça e da paz”.

Partindo de um diagnóstico sobre um mundo profundamente transformado desde o encontro inter-religioso de Assis, há 40 anos, o texto aponta a crescente conflitualidade, a multiplicação das guerras e das violências, o agravamento das desigualdades, a fragilização dos equilíbrios ecológicos e as transformações tecnológicas como desafios que “nos inquietam, mas nos comprometem ainda mais”.

Perante estas mudanças, os responsáveis religiosos afirmam querer ser “sentinelas”, atentas à dignidade de cada pessoa e ao cuidado do outro, recusando a resignação perante a violência, a injustiça ou a indiferença. Defendem, por isso, uma responsabilidade particular das religiões na construção e manutenção da paz, “especialmente aqui, na Europa”, e apelam ao diálogo, à fraternidade, à reconciliação e à paz.

O Apelo de Metz sublinha também que a paz não pode ser entendida apenas como ausência de guerra. Para ser duradoura, dizem os representantes religiosos, precisa de justiça, respeito pela dignidade humana, solidariedade entre povos e gerações e atenção à preservação da “casa comum”. O documento denuncia ainda as fraturas, discriminações e lógicas de rejeição presentes nas próprias sociedades e manifesta “indignação” perante o aumento de ataques contra pessoas ou lugares de culto motivados pela origem ou pela fé.

Particularmente forte é a afirmação de que “o nome de Deus, não mais do que qualquer verdade religiosa ou tradição espiritual, pode jamais ser invocado para justificar a violência e o ódio”. Os responsáveis religiosos opõem-se igualmente ao “veneno do totalitarismo”, numa referência à memória histórica da região fronteiriça da Lorena, e defendem que o diálogo, a oração, a meditação e as diferentes formas de prática espiritual podem abrir “caminhos de paz”.

O documento apresenta ainda a dignidade de cada ser humano como ponto de encontro entre as diferentes tradições. “Acolher o outro não como uma ameaça mas como um irmão ou uma irmã em humanidade” é apresentado como um caminho para uma cultura de acolhimento e fraternidade, assente na escuta mútua, no serviço do bem comum e num diálogo que parta das experiências e práticas espirituais concretas.

No final, os representantes religiosos pedem que o “Apelo de Metz” seja uma “bússola de esperança” e recordam que “nenhuma paz duradoura se constrói sem o outro, nem contra ele”.

O texto do Apelo de Metz foi entregue a duas crianças pelo cardeal Aveline. Foto Vatican Media

No final do encontro, o Apelo de Metz, já assinado por todos os líderes religiosos, foi entregue a duas crianças. Foto © Vatican Media

Leão XIV: “O diálogo não diminui a nossa identidade”

No seu discurso logo após a leitura do apelo, Leão XIV retomou precisamente a questão do diálogo entre religiões. “Dialogar não diminui a nossa identidade, mas exprime-a com simplicidade e verdade, abrindo-nos à diferença do outro”, afirmou o Papa, citando o seu predecessor Francisco, para quem o diálogo entre pessoas de diferentes religiões tinha como objetivo “estabelecer amizade, paz e harmonia”.

Para Leão XIV, o diálogo é também uma exigência da própria condição humana e uma forma de reconhecer a alteridade não como uma ameaça, mas como uma promessa. Citando o filósofo Paul Ricœur, descreveu-o como “uma arte do encontro”, colocada no extremo oposto da agressividade e da violência.

O Papa foi particularmente direto ao falar da utilização da religião para justificar a violência. “Invocar o nome de Deus para legitimar a violência ou a opressão configura uma profanação desse nome”, afirmou. “Nada do que desfigura a dignidade humana pode reivindicar uma autêntica inspiração divina.”

Por isso, acrescentou, o discurso religioso deve exortar constantemente ao “desarmamento dos corações e das palavras”. Essa tarefa implica uma responsabilidade direta de cada tradição religiosa, enquanto guardiã da sua própria herança.

A segunda grande dimensão do discurso de Leão XIV foi a defesa da vida. Se a fecundidade das religiões se manifesta no seu serviço à paz e à fraternidade, destacou, manifesta-se também na capacidade de “proteger, acompanhar e servir a vida”.

“As religiões são guardiãs da vida; elas afirmam o seu valor sagrado”, disse o Papa, acrescentando que a sua fecundidade se demonstra na “presença amorosa junto das pessoas mais frágeis e vulneráveis”. Servir a vida significa, segundo Leão XIV, rodeá-la “de cuidados, presença e ternura, sobretudo nas provações, até ao fim”.

O Papa relacionou esta missão particularmente com as novas gerações. Àqueles que estão “abertos à transcendência”, disse, cabe oferecer “pontos de referência sólidos, em particular aos jovens”, para construir uma comunhão que respeite e valorize a dignidade de cada pessoa.

No final do encontro, Leão XIV retomou uma ideia da sua encíclica Magnifica Humanitas: “A Igreja considera todos os que procuram sinceramente a verdade, a bondade e a beleza como companheiros de caminho”. E desejou que as diferentes tradições religiosas possam ser, onde quer que estejam, “artesãos de paz e testemunhas de uma esperança que não cessa de crescer no nosso mundo”.

 

 

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