Uma paróquia, três escolas e um hospital católicos vão permanecer encerrados por tempo indeterminado em Ihugh, no estado de Benue, na Nigéria, depois de sucessivos ataques, incêndios e ameaças terem levado a diocese de Gboko a concluir que já não podia garantir a segurança de padres, religiosos, professores, profissionais de saúde, alunos e doentes.
A decisão, anunciada pelo bispo William Amove Avenya e com efeitos imediatos, determina também a retirada de todo o pessoal diocesano das instituições atingidas. O encerramento pretende ser temporário, mas não tem prazo definido: a Igreja só regressará quando existirem garantias credíveis de segurança.
“Não podemos, em consciência, continuar a expor os nossos padres, pessoas consagradas, professores, profissionais de saúde, estudantes e doentes ao perigo”, justifica o bispo Avenya, citado pela EWTN News.
A medida abrange a Escola Secundária St. Winifred, a escola pré-primária e primária com o mesmo nome, o Hospital St. Thomas e a respetiva capelania, o Subin Mind Care Center e a Paróquia St. Winifred, todos localizados em Ihugh.
Segundo a diocese, a decisão surge depois de repetidos ataques e atos de destruição contra instituições católicas. Entre os episódios enumerados estão vários incêndios em instalações da Escola St. Winifred, assaltos à paróquia e incidentes criminosos no hospital.
A tensão não é recente. Quando o Hospital St. Thomas reabriu, em junho de 2024, membros da comunidade local terão realizado protestos contra a presença de religiosas católicas naquela instituição. Para o bispo, os acontecimentos posteriores revelam um “padrão sistemático de hostilidade e destruição” contra propriedades da Igreja.
A diocese afirma ter procurado uma solução através do diálogo com a comunidade, autoridades tradicionais, anciãos e responsáveis civis e de segurança, sem conseguir obter as condições necessárias para garantir a continuidade das instituições.
Os alunos deverão, sempre que possível, ser transferidos para outras escolas católicas da diocese, enquanto os doentes serão encaminhados para outras unidades de saúde. O prelado garantiu também que os trabalhadores afetados serão tratados “com justiça e caridade”.
Uma região marcada pela violência
O encerramento das instituições de Ihugh ocorre num contexto de insegurança persistente no chamado Middle Belt, a faixa central da Nigéria situada entre o norte, maioritariamente muçulmano, e o sul, predominantemente cristão.
O próprio bispo de Gboko tem denunciado repetidamente a situação no estado de Benue. Em junho de 2025, Avenya afirmava que a região vivia há quase duas décadas uma sucessão de mortes, ataques e deslocações forçadas, que expulsaram milhares de pessoas das suas terras e destruíram os seus meios de subsistência.
A gravidade da situação tem também suscitado preocupação das Nações Unidas. Numa comunicação enviada este ano ao Governo nigeriano, relatores especiais da ONU referiram alegações de mortes de civis, destruição de casas, igrejas, clínicas e escolas e ataques a terrenos agrícolas no Middle Belt. O documento recorda que a violência entre algumas comunidades de pastores — em grande parte fulanis muçulmanos — e agricultores sedentários — predominantemente cristãos — se agravou nos últimos anos e adquiriu crescentemente dimensões religiosas e étnicas.
Os peritos das Nações Unidas salientam, contudo, a complexidade das causas do conflito, apontando uma combinação de fatores que inclui fragilidades das forças de segurança, pressões relacionadas com as alterações climáticas, má governação e corrupção, tensões étnicas, religiosas e comunitárias, circulação de armas e, sobretudo, a persistente impunidade dos responsáveis pelos crimes.
“Sob cerco” e uma campanha
É precisamente para chamar a atenção internacional para a dimensão religiosa desta violência que a Christian Solidarity International (CSI) acaba de lançar a campanha Christians in Nigeria: Under Siege (“Cristãos na Nigéria: sob cerco”).
Uma equipa da organização cristã de defesa dos direitos humanos esteve durante duas semanas, em junho, no estado de Plateau, onde ouviu sobreviventes, jornalistas, advogados e ativistas da sociedade civil. Segundo a CSI, pelo menos 50 cristãos foram mortos naquele estado durante a permanência da equipa.
Num dos casos relatados à organização, homens armados atacaram uma aldeia e mataram 25 pessoas. Os habitantes afirmaram ter pedido ajuda a uma unidade militar situada a cerca de uma milha, mas terão recebido como resposta que o veículo disponível não tinha combustível.
A CSI denuncia ainda situações em que comunidades cristãs estarão a viver sob o controlo de grupos armados, obrigadas a pagar taxas e a pedir autorização para abandonar as aldeias. A organização atribui grande parte destes ataques a milícias formadas por fulanis e considera que está em curso uma campanha destinada a expulsar populações cristãs de algumas zonas do Middle Belt.
No início de outubro, a CSI levou as denúncias ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, pedindo uma intervenção mais firme das autoridades nigerianas e da comunidade internacional.
A organização recordou que a preocupação com a liberdade religiosa na Nigéria foi também objeto de uma visita oficial, entre 8 e 19 de junho, da relatora especial das Nações Unidas para a liberdade de religião ou crença, Nazila Ghanea.
A relatora denunciou que comunidades cristãs rurais na Nigéria estavam a ser coagidas a aceitar os chamados “acordos de paz”, pelos quais bandidos tinham permissão para se apropriar dos lucros das plantações de sua escolha e “[levar] qualquer mulher que quisessem”. O relatório final dessa missão encontra-se ainda em preparação.
“A organização Christian Solidarity International corrobora esses relatos horríveis”, disse Joel Veldkamp, diretor de Defesa Pública da CSI, ao Conselho de Direitos Humanos.
“Já passou da hora de o governo nigeriano e a comunidade internacional de direitos humanos tomarem medidas decisivas para acabar com os assassinatos na região central da Nigéria”, insistiu Veldkamp.
Em Ihugh, entretanto, o regresso da Igreja fica dependente de uma mudança concreta das condições no terreno. Avenya pede “arrependimento genuíno”, reparação dos danos e garantias duradouras de segurança, mas insiste que a decisão não representa uma rutura com a população.
“Não guardamos qualquer ressentimento contra os nossos irmãos e irmãs”, afirmou o bispo, que convocou para 23 de outubro um dia de oração e jejum pela paz e pela reconciliação.
“Do que precisamos é de paz, e isto não é pedir demasiado”, afirmara já o bispo no ano passado. “O jogo de culpas prolongou-se por demasiado tempo. É tempo de agir.”










