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Uma mulher fora do cenário, numa fila em Paris

| 06/02/2020

Uma mulher fora do cenário, numa fila em Paris

by | 6 Fev 20

Ultimamente, ao andar pelas ruas de Paris tenho-me visto confrontada pelos contrastes que põem em questão um princípio da doutrina social da Igreja (DSI) que sempre me questionou e que estamos longe de ver concretizado. A fotografia que ilustra este texto é exemplo disso.

Fila de clientes à porta da loja Louis Vouitton, em Parios, com uma mulher a mendigar. Foto © Clara Lito, cedida pela autora.

 

Entre os nove princípios da DSI, aquele a que me refiro e não deixa de me interpelar é o destino universal dos bens, que a constituição pastoral Gaudium et Spes, do II Concílio do Vaticano descreve deste modo: “Deus destinou a terra com tudo o que ela contém para uso de todos os homens e povos; de modo que os bens criados devem chegar equitativamente às mãos de todos, segundo a justiça, secundada pela caridade. Sejam quais forem as formas de propriedade, conforme as legítimas instituições dos povos e segundo as diferentes e mutáveis circunstâncias, deve-se sempre atender a este destino universal dos bens. Por esta razão, quem usa desses bens, não deve considerar as coisas exteriores que legitimamente possui só como próprias, mas também como comuns, no sentido de que possam beneficiar não só a si mas também aos outros” (GS 69).

Reparemos na foto: um olhar menos atento pode ver nela apenas uma fila de gente numa grande avenida, à espera não se sabe bem de quê… Também podemos reparar que é um lugar com bastantes lojas, grandes vitrines, o que nos pode levar a concluir que é uma zona sobretudo rica.

E se eu dissesse que esta é uma fila para uma das lojas de uma marca de alta costura, em Paris? Parece estranho, mas é verdade. Aqui não entram mais que dez pessoas de cada vez, por isso tantas pessoas à espera. Sim, pessoas vindas dos mais variados países do mundo esperam durante horas para entrar e gastar balúrdios em roupa e acessórios que, provavelmente, não vão ser usados mais que duas ou três vezes.

Olhemos agora com mais atenção: no fim da fila está alguém que não “faz parte” deste cenário. Ou melhor, não deveria “fazer parte”. Uma mulher, vestida de uma maneira diferente – talvez vinda de um país de leste, talvez vítima de exploração humana, talvez “recrutada” por alguma máfia – pede dinheiro a estas pessoas que nem parecem dar-se conta da sua presença…

Esta mulher também espera… espera uma vida diferente, espera ter uma casa, espera reencontrar a sua dignidade, espera poder dar melhores condições à sua família… Espera, como tantas outras pessoas que se veem obrigadas a sair dos seus países, exatamente porque os bens não estão distribuídos universalmente, de forma justa, como sonhava o Vaticano II (e tantos outros que lutaram e continuam a lutar por um mundo mais justo).

Olho para esta imagem, recordo o princípio da distribuição universal dos bens e a primeira sensação que tenho é de impotência… o que fazer? Como afrontar esta realidade? Inicialmente, depois de muitos dias a ver esta situação sempre que aqui passava, a solução que encontrei foi, muito sinceramente, encontrar outro caminho… Não é o que fazemos tantas vezes? Fingir que não vemos… Mas a verdade é que é impossível ignorar, é impossível não ver, porque este contraste existe, é real, está presente cada vez que acendemos a televisão para ver as notícias, cada vez que lemos o jornal, cada vez que saímos à rua…

É preciso ver, é preciso mudar a nossa forma de olhar e de agir, como afirma a Gaudium et spes: “quem usa desses bens, não deve considerar as coisas exteriores que legitimamente possui só como próprias, mas também como comuns”. Se olhássemos o que temos como algo comum, que não nos pertence só a nós, se olhássemos o todo do mundo e não apenas a pequena parte onde nos movemos, talvez nos deixássemos interpelar mais por este princípio, talvez o pudéssemos fazer mais realidade, a partir de pequenos gestos diários, talvez pudéssemos aprender a viver com menos, para que outros possam ter o necessário…

 

Clara Lito, aci, é religiosa das Escravas do Sagrado Coração de Jesus, responsável de pastoral no colégio das Escravas em Paris e trabalha com estudantes universitários.

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