AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Escritor, Luis Sepúlveda, Correntes d´Escrita 2018.

Luis Sepúlveda (1949-2020): viajar para contar

Luis Sepúlveda (1949-2020): viajar para contar

by | 4 Mai 20

Escritor, Luis Sepúlveda, Correntes d´Escrita 2018.

Luis Sepúlveda no festival Correntes d´Escrita, na Póvoa de Varzim, em 2018. Foto cedida pela Porto Editora

 

“Eu estive aqui e ninguém contará a minha história”. A frase com que Luis Sepúlveda se confrontou no campo de concentração de Bergen Belsen marcou-o. Deparou-se com ela numa extremidade do campo e muito próximo do lugar onde se erguiam os infames fornos crematórios. Na superfície áspera de uma pedra, viu que “alguém (quem?) gravou, talvez com o auxílio de uma faca ou de um prego” esse que considerou como “o mais dramático dos apelos”.

“Eu estive aqui e ninguém contará a minha história”. Explicando que terá lido uns mil livros, Luis Sepúlveda garante que nunca um texto lhe pareceu “tão duro, tão enigmático, tão belo e ao mesmo tempo tão dilacerante como aquele escrito sobre uma pedra”. O escritor diz não saber se a frase foi escrita por quem pensava “na sua saga pessoal, única e irrepetível” ou “em nome de todos aqueles que não aparecem nos noticiários, que não têm biografias, mas apenas uma esquecediça passagem pelas ruas da vida”. A dúvida acabaria por se transformar numa evidência que impôs ao escritor a necessidade de resgatar diversas pessoas do anonimato. Fê-lo narrando as suas histórias em As Rosas de Atacama.

Para a posteridade, ficarão outras personagens suas. As que se encontram nos seus livros mais famosos, como é o caso de O velho que lia romances de amor e de História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, e as que surgem em obras menos conhecidas. Se algumas personagens são ficcionais, outras são reais.

Em Últimas Notícias do Sul, livro feito em parceria com o fotógrafo Daniel Mordzinski, apresenta-nos muita gente de carne e osso. “A senhora dos milagres”, por exemplo. Perante os autores, Doña Delia Rivera de Cossio acariciou um broto seco de um ramo até que, lentamente, “ele se abriu e, como num ato de magia, ofereceu as brancas pétalas da flor branca da macieira”. Questionada sobre como tinha feito isso, a senhora quase centenária disse: “Não sei. Dizem que é um dom. O que eu toco, vive”.

Últimas Notícias do Sul, nascido de uma viagem pela Patagónia e a Terra do Fogo, apresenta-se como um livro de “notícias póstumas” de uma região que “as mudanças violentas da economia e a voracidade dos triunfadores” fizeram desaparecer. “Nada do que vimos existe agora tal como o conhecemos”.

O vasto roteiro de viagens de Luis Sepúlveda incluiu Portugal, onde, em 2016, lhe foi concedido o Prémio Eduardo Lourenço que homenageia “personalidades ou instituições com intervenção relevante no âmbito da cooperação e da cultura ibérica”. Poucos dias antes de ser internado com covid-19, de que morreria dia 16 de Abril, esteve na Póvoa de Varzim para participar no festival literário Correntes d’Escritas.

A biografia apresentada pela Porto Editora, que editou em Portugal toda a obra literária de Luis Sepúlveda, refere que o escritor, nascido em Ovalle, no Chile, a 4 de outubro de 1949, ingressou aos 15 anos na Juventude Comunista do Chile, da qual foi expulso em 1968. Recorda ainda que foi membro ativo da Unidade Popular chilena nos anos 70, teve de abandonar o país após o golpe militar de Augusto Pinochet e que viajou e trabalhou no Brasil, Uruguai, Bolívia, Paraguai e Peru. Vivia, desde 1997, em Espanha, em Gijón, com a mulher, a poetisa Carmen Yáñez.

Luis Sepúlveda vendeu mais de 18 milhões de exemplares em todo o mundo e as suas obras estão traduzidas em mais de 60 idiomas.

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]

Últimas Notícias

Últimas Notícias

São João da Cruz: poesia e mística

Ano Jubilar de São João da Cruz (9)

São João da Cruz: poesia e mística novidade

Até Dezembro decorre o ano jubilar de São João da Cruz, celebrando o terceiro centenário da canonização e os 100 anos da sua proclamação como Doutor da Igreja Católica. O jubileu tem como lema “A esperança alcança tanto quanto espera” e propõe itinerários de renovação espiritual e mística. A propósito do ano jubilar, o 7MARGENS propõe mensalmente, aos dias 13/14 (assinalando o dia da sua morte, a 14 de Dezembro de 1591), um conjunto de textos do padre carmelita e teólogo Armindo Vaz. 

Padre Telmo Ferraz

[Entre Margens]

Padre Telmo Ferraz novidade

Resumidamente, o Padre Telmo Ferraz nasceu na aldeia de Bruçó, Mogadouro, na região de Trás-os-Montes. Pertencia à Diocese de Bragança e Miranda. Ordenou-se em 1951. Foi Pároco em algumas Paróquias da Diocese, trabalhando muito afincadamente na Barragem do Picote, onde desenvolveu uma pastoral muito humanitária junto dos operários. [Texto de Serafim Falcão].

Tinha 73 anos

[Olhar de teóloga]

Tinha 73 anos novidade

Decidi que, sempre que, infelizmente, escrever sobre o suicídio de um padre, vou intitular o artigo com a idade daquele que não encontrou outra saída.
Bernard Card, da diocese de Dijon, em França, suicidou-se na casa paroquial. Ao que parece, era um padre activo, envolvido em várias atividades diocesanas e de trato fácil e próximo. [Texto de Cristina Inogés Sanz]

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.