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Comédia Aulegrafia de Jorge Ferreira de Vasconcelos

Três peças de teatro clássico pelo Facebook para falar da guerra, do outro e do amor

| 22/11/2020

Comédia Aulegrafia. Jorge Ferreira de Vasconcelos. Teatro Maizum

Os actores Guilherme Barroso e Carlos Malvarez na leitura encenada da Comédia Aulegrafia, de Jorge Ferreira de Vasconcelos, em 2019, na Livraria/Galeria Sá da Costa. Foto © Pedro Soares.

 

Crime e traição, política e religião, europeus e otomanos, farsas e absurdos, ganância e corrupção, peste e guerra. E, no fim de tudo, o poder do amor em três peças teatrais que o Teatro Maizum leva à cena nesta semana, através da sua página na rede Facebook – ou seja, podendo cada pessoa vê-la a partir de sua casa.

A primeira obra a ser representada é o Auto de Dom Luís e dos Turcos (ou Auto dos Cativos) será já nesta segunda-feira, 23, a partir das 19h (tal como as outras duas peças). Com a acção situada em Castela e depois na Turquia, conta a história de um fidalgo português, D. Luís e da sua enamorada Dona Clara, donzela castelhana prometida por seu pai a um outro fidalgo. Neste quadro, os dois decidem fugir de barco, mas uma tempestade leva-os até à Turquia, onde são feitos cativos, embora bem tratados pelo velho turco e o príncipe seu filho, que se enamoram ambos da linda cristiana. Iniciada em tom de comédia, o auto acaba de forma trágica, mas mostrando a mudança que se opera na visão do outro, do estrangeiro, do diferente.

A questão do modo como se olha o outro também se verifica no Auto de Vicente Anes Joeira, que será representado e transmitido na quarta, 25. Nesta obra, Negro, mestre de medicina, embora parodiado pelo modo como fala português, já não tem estatuto de escravo ou alforriado. A história, entretanto, situa-se no contexto de um casal que parte para Santiago, deixando a filha ao cuidado do criado, que entretanto está apaixonado por ela. “Uma história de amor inadiável, uma farsa plena de momentos absurdos e desconcertantes como a própria vida”, sintetiza Silvina Pereira, encenadora do Maizum e responsável pela direcção do projecto.

O Auto das Padeiras, chamado da Fome, alegoria que adverte para a ganância, corrupção e ausência de justiça causadoras da fome, da peste e da guerra, será representado e transmitido na sexta, 27. Em meados do século XVI, Lisboa exulta de riqueza e soberba mas a Fome, figura “mui magra e toda vestida de preto” lembra “o drama vivido pelo povo, fustigado pela ‘peste, fome e guerra’ e como este é vítima da ganância, especulação, açambarcamento, suborno e corrupção, assim como pela ausência de justiça”, resume a sinopse. Não se poupam críticas contundentes aos oficiais da cidade, aos corruptos e às más práticas mercantis. No final, o povo é salvo pela acção da Virgem Maria que por amor resgata pessoas e bens essenciais à dignidade da vida humana.

Esta 5ª edição de Clássicos em Cena, que o Teatro Maizum vem promovendo, pretende levar à cena a dramaturgia clássica portuguesa e “chamar a atenção sobre a riqueza, singularidade e até inovação deste corpus teatral, quer enquanto património e herança cultural, quer como lugar de reflexão sobre as grandes questões intemporais inerentes à condição humana”, diz Silvina Pereira. “Esta prática e visão cénica tem vindo a demonstrar que o teatro português do século XVI é “digno e merecedor de ser levado aos palcos e de ombrear com o teatro europeu dessa época.”

O teatro Maizum tem representado e lido autores como Sá de Miranda, Jorge Ferreira de Vasconcelos, António Ferreira, Gil Vicente, Luís de Camões, António Ribeiro Chiado, João de Escovar, António Prestes ou textos de autores anónimos.

Os três textos representados esta semana serão seguidos de debates sobre cada um dos textos, com a participação de diversos especialistas portugueses e brasileiros. Os debates serão sempre às 20h.

O grupo de teatro Maizum no final da leitura encenada da Comédia Aulegrafia, de Jorge Ferreira de Vasconcelos, em 2019, na Livraria/Galeria Sá da Costa. Foto © Pedro Soares.

 

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