Em março de 2021, foram descobertos novos fragmentos de manuscritos bíblicos que datam de 2 mil anos. Foto: Direitos reservados.
Os manuscritos mais antigos da Bíblia Hebraica, descobertos há mais de 70 anos nas costas do Mar Morto, a maior parte deles nas cavernas de Qumran, não foram escritos por uma só pessoa, defende uma equipa de investigadores da Universidade de Groningen, na Holanda.
De acordo com testes realizados com recurso a Inteligência Artificial por três investigadores da Universidade de Groningen, foram dois os escribas que intervieram na escrita de uma parte dos manuscritos do Mar Morto.
O documento em causa, conhecido como o Grande Pergaminho de Isaías, terá sido escrito por dois indivíduos cuja identidade não se conhece e que, segundo os especialistas, copiaram as palavras usando caligrafias muito semelhantes, segundo noticia a BBC.
O trabalho examinou a caligrafia do documento para compreender de que modo é que a forma de segurar uma caneta ou um estilete determina o tipo de escrita. A equipa explicou que a investigação tornou necessária a criação de um algoritmo para separar a tinta do texto do fundo, dos pergaminhos e papiros, desenvolvendo uma rede neural artificial para manter intactos os traços de tinta originais datados de há mais de dois mil anos.
Como os traços de tinta se encontram diretamente ligados a um movimento muscular específico de um indivíduo, os investigadores consideram não haver dúvidas de que são várias as pessoas que terão participado na escrita. As semelhanças no conjunto da caligrafia, que até agora justificavam a convicção de uma única autoria, permitem aventar a hipótese de os diversos escribas terem estudos comuns ou uma mesma pertença familiar.
Os investigadores, dois ligados à faculdade de Engenharia e um à de Teologia, afirmam que o artigo com os resultados dos testes feitos proporciona “novas e tangíveis evidências de que tais textos não foram copiados por um único escriba, mas por vários escribas ao mesmo tempo, procurando cada um deles replicar cuidadosamente o estilo de escrita de outro escriba”. Nessa medida, proporciona conhecimento novo sobre os processos de produção deste tipo de documentos paleográficos.
A análise específica da primeira letra do alfabeto dos idiomas semíticos, “aleph”, que aparece milhares de vezes nos pergaminhos contribuiu para detetar as diferenças caligráficas.

A análise específica da primeira letra do alfabeto dos idiomas semíticos, “aleph”, que aparece milhares de vezes nos pergaminhos contribuiu para detetar as diferenças caligráficas. Foto: Direitos reservados.
A descoberta dos manuscritos foi feita por acaso nas décadas de 1940 e 50 por pastores de cabras beduínos numa caverna na localidade de Qumran, perto do Mar Morto, onde hoje é a Cisjordânia ocupada por Israel. Crê-se que datem do século III antes de Cristo e estão escritos em hebraico, aramaico e grego.
O Pergaminho de Isaías é um dos cerca de 950 textos diferentes descobertos no local, que cobrem uma parte significativa da Bíblia hebraica. É o único entre os pergaminhos, dado que as suas 54 colunas são divididas em metades, escritas num estilo quase uniforme.







