“Não haverá quem me saiba ensinar a rezar?”
“Quero ser a maior artista que me seja possível, sob a batuta de Deus”
(Flannery O’Connor)

Flannery O’Connor. Foto direitos Reservados
Durante este segundo prolongado confinamento retirei da estante, para reler, o livro Um Diário de Preces, de Flannery O’Connor (Relógio d’Água, 2014). Talvez porque me sentia inquieta com a oração que queria que fosse diária, talvez porque precisava de alguma inspiração e me sentia num limbo habitado por uma certa acédia, talvez porque acompanhava uma amiga doente que há dias nos deixou e que me pedia que rezasse com ela aquando das frequentes visitas.
Flannery O’Connor foi uma escritora norte-americana (1925-1964), falecida aos 31 anos de lúpus, doença degenerativa precocemente diagnosticada (aos 12 anos) e que, depois de lhe terem sido dados cinco anos de vida, Flannery conseguiu, com uma vontade indomável, prolongar por mais 10 anos. Católica convicta, viveu em Savannah, na Geórgia, no sul protestante e conservador. Escreveu sobretudo sobre a decadência do sul da América. Fez uma licenciatura em Inglês e Sociologia e uma pós-graduação através de um writer’s workshop (oficina de escrita) na Universidade de Iowa. Escreveu 32 contos e dois romances.
Paralelamente à atividade de escritora, Flannery O’Connor dedicou-se também, na sua quinta em Andalusia (Milledgville), à criação de aves, nomeadamente pavões, e à pintura. Nesta quinta viveu uma vida de eremita, relacionando-se com o mundo sobretudo por via epistolar. Os seus anos mais criativos foram entre 1945 e 1960.
Postumamente foi publicado o seu Diário de Preces, revelando uma abordagem mística e não racional, numa profunda e não convencional busca de Deus.
Profunda conhecedora de teologia, Flannery O’Connor estudou Tomás de Aquino e Romano Guardini. Conhecia escritores católicos como George Bernanos e Léon Bloy. Lê também Kafka. Num excelente prefácio ao Diário de Preces, Pedro Mexia afirma que O’Connor não queria converter católicos, mas dirigia-se a protestantes ou a agnósticos: “um escritor católico sério se preocupa acima de tudo com a observação, a especificidade, a credibilidade, a verdade, não ignorando aquilo que parece superficial e estereotipado (…). Aquilo que o escritor católico não deve fazer é separar a natureza da Graça, o facto evidente do seu significado enigmático” (pp. 10-11).
O Diário de Preces foi escrito durante a juventude de Flannery, ao longo do ano em que frequentou a Universidade de Iowa mas, como afirmei, apenas foi postumamente publicado. Segundo Mexia “trata-se de monólogo em diálogo, um diário em forma de oração, oração em forma de diário, forma híbrida e em interrogação constante” (p. 11). Cerca de 24 entradas conduzem-nos à inquieta busca de Deus de O’Connor.
Deus é relação

Flannery O’Connor com Robie Macauley e Arthur Koestler, em Outubro de 1947. Foto © Charles Cameron Macauley/Wikimedia Commons.
Ouso comparar Flannery O’Connor a Etty Hillesum na sua inquietação de Deus: “Não Te conheço, meu Deus, eu própria Te encubro (…) Oh, meu Deus, por favor, desanuvia a minha mente (…) ajuda-me a entrar no mais fundo das coisas e a descobrir onde Tu estás”. “Temo, oh, Senhor, perder a minha fé” (p. 19). Para Flannery Deus é relação: “Não quero ter medo da exclusão, quero amar a pertença” (p. 20). Mas uma relação que não é linear, antes eivada de profundas inquietações e interrogações: “Temo, oh, Senhor, perder a minha fé. A minha mente não é forte. Deixa-se seduzir por todo o tipo de charlatanice intelectual” (p. 19). Assim pede a Deus: “Por favor deixa que os princípios cristãos impregnem a minha escrita”. Inquieta, desabafa: “Não quero estar condenada à mediocridade nos meus sentimentos em relação a Cristo. Quero sentir. Quero amar. Acolhe-me, meu Senhor, e encaminha-me na direção que deverei tomar. Minha Senhora do Perpétuo Socorro, ora por mim!” (p. 45). Diz algo de muito profundo: “Mesmo ao orarmos, és Tu que tens de orar em nós. Gostava de escrever uma prece bonita mas falta-me a matéria prima” (p. 21).
O’Connor afirma, numa bela sequência, que as preces devem “ser compostas de adoração, de contrição, de agradecimento e de súplica. Mas mais uma vez inquieta-se: “eu gostava de perceber o que consigo fazer com cada um destes elementos sem escrever uma exegese” (p. 22). Exemplificarei como Flannery encara cada uma desses elementos presentes na oração:
Adoração
Flannery revela-se uma apaixonada por Deus, uma radical: “Oh, Senhor, peço-te, faz com que eu Te deseje. Seria para mim a maior das beatitudes. Não apenas desejar-te quando penso em Ti, mas sim, desejar-Te constantemente, pensar em Ti constantemente, sentir esse desejo a pulsar dentro de mim, senti-lo como um cancro dentro de mim” (p. 46).
Na sua visão absoluta espera pela contemplação face a face: “Concede-me a graça de aguardar com impaciência o momento em que Te verei cara a cara e de não precisar de outro senão esse para Te adorar” (p. 22). Consciente de que “a proximidade a que me refiro virá depois da morte, talvez” (p. 27). Aqui, não posso deixar de lembrar a “Sétima Morada” de Teresa de Ávila, quando descreve a sua fusão com Deus.
Reafirma o seu desejo de santidade através do seu trabalho de escritora: “Ajuda-me a incorporar na minha obra aquilo que é mais do que natural – ajuda-me a amar a minha obra (…). Se tiver de trabalhar arduamente para a criar, meu bom Deus, pois que seja como se eu estivesse ao Teu serviço. …Gostava de ser santa de um modo inteligente” (p. 31).
Contrição

Capa do livro Diário de Preces, na edição portuguesa, de Flannery O’Connor
O’ Connor tem uma consciência aguda da existência do pecado no mundo. Para ela, não pode existir Deus sem o pecado: “se não existe pecado neste mundo, não existe Deus no céu” (p. 38). Mais uma vez luta com esta dimensão tão importante da oração: “Em mim a contrição é, em grande medida, imperfeita. Não sei se alguma vez me arrependi de um pecado por, ao cometê-lo, Te ter ofendido. Mas para aceder a outro género de contrição, é necessário possuir sabedoria, uma fé extraordinária. No fim de contas tudo se reduz à graça (…). Trata-se de pedir a Deus que nos ajude a arrependermo-nos de O ter ofendido (p. 24)
Assume as suas limitações diárias face à imagem de si própria: “Todos os dias faço muitos, muitos, demasiados comentários cruéis acerca das pessoas. Faço-os porque me dão um ar espirituoso. Por favor ajuda-me a compreender na prática como isto é reles. (…) Por favor ajuda-me a deixar de ser assim egoísta, porque Te amo, meu bom Deus. (…) Por favor ajuda-me a cumprir a Tua Palavra, oh, Senhor” (p. 32).
Reconhece a sua própria escuridão: Tenho medo das mãos insidiosas, oh, Senhor, que buscam às apalpadelas as trevas da minha alma. Por favor sê a minha sentinela contra elas. Por favor sê a barreira no alto do desfiladeiro” (p. 21).
Agradecimento
Dar graças é uma dimensão fundamental da oração, antes mesmo da súplica: “Meu bom Deus. Fico abismada ante a porção de coisas pelas quais devo sentir gratidão, em termos materiais; e, em termos espirituais, tenho a oportunidade de ser ainda mais feliz” (p.19).
Agradece a Deus mesmo em horas de vazio: “Meu bom Deus, esta noite não foi decepcionante porque me deste uma boa história Não me deixes pensar que eu fui alguma vez mais do que um mero instrumento da Tua história, assim como a máquina de escrever foi o meu” (p. 25).
Súplica
Quando fala na oração de súplica, Flannery reconhece: “Eis o único dos quatro [elementos] em que sou exímia” (p. 27). “Meu bom Deus, Súplica: não é necessária qualquer graça sobrenatural para pedirmos o que desejamos, e eu pedi-te sem freio, ó Senhor (…) Mas não quero dar demasiada importância a esta vertente das minhas preces”. (p. 27). Pede, numa oração repleta de confiança em Deus, “ajuda-me a pedir-Te, oh, Senhor, aquilo que é melhor para mim, aquilo que posso ter e que, tendo, me irá ajudar a servir-Te melhor” (p. 27).
Para a jovem Flannery, pedir está intrinsecamente ligado à graça que nos é dada, independentemente de corresponder ou não ao nosso desejo mais direto: “Tu dizes, meu bom Deus, para pedirmos a graça pois nos será dada. Eu peço-a. Compreendo que não me basta pedi-la, que tenho de agir como quem a deseja” (p. 19).
Flannery tem consciência da sua doença física e das suas limitações emocionais: “Tenho medo da dor, e deduzo que a tenhamos de sofrer para alcançar a graça. Dá-me a coragem para suportar a dor e assim alcançar a graça, oh Senhor” (p. 24).
Pede, de uma forma muito clara, que Deus como que santifique o seu desejo de se tornar uma artista: “meu Deus, por favor, ajuda-me a tornar-me uma artista, por favor, faz que isso me aproxime de Ti” (p. 41).
O seu desejo é profundo, claro e incisivo: “Ajuda-me a entrar no mais fundo das coisas e a descobrir onde Tu estás” (p. 18).
E a sua súplica final, a mais importante, expressa de uma forma apaixonada: “meu Deus faz de mim uma mística, imediatamente” (p. 48).
O desejo profundo de Deus na caridade

“Se eu ao menos conseguisse conter Deus na minha mente”, escreve Flannery. E mais uma vez se pensa em Teresa de Ávila ou em Etty Hillesum (na foto). Foto: Direitos reservados
Flannery detém-se ainda na complexidade das três virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade. A fé é a virtude que lhe “causa mais sofrimento mental” e suplica: “Meu bom Deus, não quero descobrir que inventei a minha fé para satisfazer a minha fraqueza. Não quero ter criado Deus à minha própria imagem” (p. 28). Sobre a esperança afirma: “a esperança deve ser uma coisa positiva que nunca senti” (p. 30). E continua: “sou uma palerma presumida, mas talvez a coisa vaga em mim que me acalenta seja a esperança” (p. 31). Sobre a caridade inquieta-se: “Oh, Senhor, torna a minha mente atenta a este respeito[caridade]” (p. 32).
A autora exprime o seu desejo profundo de Deus na caridade, na relação: “Deus ama-nos, Deus precisa de nós. E também da minha alma. Por isso leva-a, meu bom Deus (…). Tu és a única coisa que ela deseja e deseja desejar-Te mais e mais (…). Ela [a alma] deseja que Deus que criou a Terra seja seu amante. Imediatamente.” (p. 48). A sua alma vive do desejo, é alimentada pelo desejo: “Se eu ao menos conseguisse conter Deus na minha mente. Se ao menos conseguisse pensar n’Ele e só n’Ele e em mais nada” (p. 48). Mais uma vez penso em Teresa de Ávila ou em Etty Hillesum.
Vale a pena ler este pequeno livro – pouco mais do que vinte páginas. Na sua profunda inquietude há uma frescura juvenil que enternece. Toca-me que Flannery se dirija sempre a um Deus bondoso, na modalidade tão francesa de rezar: Mon bon Dieu. Concluo voltando à primeira entrada do livro: “Meu bom Deus, não consigo amar-Te como pretendo. És o crescente esguio de uma lua que avisto, e o meu Eu é a sombra da Terra que me impede de ver a Lua inteira”. (p. 17) Não será esta a dimensão mais profunda da espiritualidade?
Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior e participante no Movimento do Graal; t.m.vasconcelos49@gmail.com










