AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

A covid rouba-nos humanidade

| 07/07/2021

Foto Misericórdia de Bragança - covid-19; Idosos

Podemos perder alguma saúde, alguma economia, mas que não se perca a dignidade de cada um e a humanidade que deve presidir às relações sociais, em especial para com os mais fracos e vulneráveis. Foto ©  Misericórdia de Bragança.

 

A pandemia tem-nos afectado a todos de diversas maneiras, mas não há dúvida de que são as crianças e adolescentes, os doentes e os idosos os que pagam a maior factura.

Não são apenas os confinamentos que introduzem factores de perturbação na vida e desenvolvimento das crianças e adolescentes, que vão perdendo competências sociais, físicas e cognitivas todos os dias. Também os doentes hospitalizados deixaram de poder contar com o apoio de humanização prestado pelos corpos de voluntariado na saúde.

Os mais de seis mil voluntários que prestam serviço nos hospitais de todo o país – batas amarelas – ficaram impedidos de entrar naquelas unidades de saúde por serem considerados grupo de risco, uma vez que são maioritariamente cidadãos reformados e com mais de 65 anos. Deste modo, os doentes não-covid perderam a oportunidade de contar com algum tipo de acompanhamento não profissional.

Segundo o testemunho de um voluntário: “Há muitos doentes pura e simplesmente abandonados à sua sorte nos hospitais, sem atenção, sem carinho, sem aquele elo fundamental de humanidade que faz toda a diferença para quem está em situação de doença grave, muitas vezes só, ou com a família distante. E a culpa não é dos profissionais de saúde – médicos, enfermeiros, assistentes operacionais –, que não têm mãos a medir.” Perdeu-se assim um elo vital para os doentes não-covid e receia-se que o futuro deste tipo de voluntariado possa mesmo estar comprometido.

Desde o apoio humano prestado aos doentes nas enfermarias, no trato personalizado, na disponibilização de revistas para ler, no suporte dado aos profissionais, no café com leite e bolachas oferecido aos utentes nas consultas externas, os quais muitas vezes saem de casa de madrugada e sem nada no estômago, à atenção e apoio dados aos doentes em tratamento ambulatório, mormente nos serviços oncológicos, a função do voluntariado hospitalar é um contributo social e humanitário importantíssimo num Serviço Nacional de Saúde com défice crónico de profissionais.

Compreende-se a preocupação em proteger estes cidadãos de contágio viral da covid-19, mas a decisão não teve em conta as necessidades dos doentes. Imagino até que parte destes voluntários ou suas famílias terão receado o quadro pandémico e tomado a decisão de suspender a sua actividade, pelo menos temporariamente.

Coisa idêntica estará a suceder com as universidades seniores um pouco por todo o país. Tais espaços de socialização, de desenvolvimento físico, emocional, social e cognitivo, foram praticamente suspensos e apenas uma ínfima parte dos alunos terão aderido a aulas online, uma vez que a vertente essencial deste tipo de actividade passa pelas relações interpessoais nas aulas mas também em passeios, visitas e viagens de estudo e convívios.

Estamos, portanto, perante não apenas um tempo novo que tem vindo a destruir o que de bom se conseguiu ao longo das últimas décadas, mas também face a uma situação que contribui para que os indivíduos vivam vidas mais solitárias, vulneráveis e susceptíveis de distúrbios emocionais, que agravará decerto o panorama da saúde mental das populações mais idosas. A falta de estímulos e desafios, o peso da solidão e a ausência de calor humano apresentarão uma factura pesada.

Quando se estuda a história dos núcleos humanos entende-se que do clã se passou à família multigeracional, que incluía filhos, pais e avós, e desta à bigeracional, composta por pais e filhos, sendo que agora os avós vivem sozinhos e os filhos cada vez mais afastados dos pais, já para não falar na progressiva desestruturação familiar, causa de tantas famílias disfuncionais. E não nos iludamos com os amigos virtuais, tipo Facebook, que não respondem às necessidades sociais intrínsecas ao ser humano.

Podemos perder alguma saúde, alguma economia, mas que não se perca a dignidade de cada um e a humanidade que deve presidir às relações sociais, em especial para com os mais fracos e vulneráveis.

Espero bem que, passada esta onda pandémica, a aproximação social regresse em força, pois se os apertos de mão, beijos e abraços fazem tanta falta, são ainda um garante desta nossa humanidade partilhada, a qual, apesar de todas as dificuldades e conflitos potenciais em qualquer universo colectivo, constitui uma expressão visível e genuína da condição humana.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Telmo Ferraz (1925-2026), cem anos a espalhar profecia

Padre da Obra da Rua morreu

Telmo Ferraz (1925-2026), cem anos a espalhar profecia novidade

O padre Telmo Ferraz, da Obra da Rua, celebra cem anos de vida e missão. Membro do clero da Diocese de Bragança-Miranda, nasceu no Mogadouro a 25 de novembro de 1925 e começou cedo o seu sacerdócio de rebeldia e compromisso social. Denunciava a tragédia humanitária provocada pelas condições péssimas em que viviam quantos davam a vida na construção de barragens naquele Trás-os-Montes longínquo e abandonado dos anos 1950. [Texto de Tony Neves]

Logo ao sair da água, viu os céus rasgarem-se …

[Arquipélago Jerusalém]

Logo ao sair da água, viu os céus rasgarem-se … novidade

Acordamos e consultamos as notícias e fica a impressão que o mundo está muito desarrumado e que somos impotentes para o modificar; que pouco podemos fazer contra a ideologia  trumpista, putinista e xijinpinguista – que mistura consumismo e força bruta: preciso de poder comprar o que quero e, se não puder comprar, posso tomá-lo à força. A propaganda alcança o seu fim quando já dispensamos o propagandista e passamos nós próprios a repeti-la. [Texto de Mendo Castro Henriques].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.