
As ondas sucessivas de novas variantes de covid-19 e os avisos de que as pandemias futuras são cada vez mais prováveis ajudaram a compor uma atmosfera generalizada de incerteza. Foto © Unicef/Fouad Choufany.
Morremos mais cedo, somos menos instruídos e temos menos rendimentos. Pela primeira vez desde que foi criado, há 32 anos, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) diminuiu por dois anos consecutivos (2020 e 2021), e voltou aos níveis de 2016, revertendo grande parte do progresso em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, revela o relatório das Nações Unidas divulgado esta quinta-feira, 8 de setembro.
O cenário é explicado por diversos “eventos que causam grandes perturbações globais”, cuja lista é encabeçada pela pandemia de covid-19 e pela invasão russa na Ucrânia. “América Latina, Caribe, África Subsaariana e Sul da Ásia foram particularmente atingidos”, mas mais de 90% dos países registaram um declínio na pontuação de IDH em 2020 ou 2021 e mais de 40% caíram nos dois últimos anos.
No ranking de IDH, liderado pela Suíça, Noruega e Islândia, Portugal surge em 38ª lugar, mantendo a posição dos dois últimos anos, entre 191 territórios.
O coordenador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Achim Steiner, sublinha que as crises de custo de vida e energia levaram a tentativas de “soluções rápidas”, como subsidiar combustíveis fósseis. No entanto, essas “táticas de socorro imediato” estão a atrasar as mudanças sistémicas de longo prazo que devem ser feitas.
As ondas sucessivas de novas variantes de covid-19 e os avisos de que as pandemias futuras são cada vez mais prováveis ajudaram a compor uma atmosfera generalizada de incerteza. Mas os autores do relatório alertam que a convulsão global da pandemia “não é nada comparada ao que o mundo experimentaria se ocorresse um colapso na biodiversidade e as sociedades se vissem a ter que resolver o desafio de cultivar alimentos em escala, sem insetos polinizadores”.
Segundo o relatório, pela primeira vez na história, as ameaças existenciais criadas pelos humanos são maiores do que as de desastres naturais. Ainda assim, de acordo com Steiner, a análise contida neste documento pode ajudar a traçar um novo rumo para a atual incerteza global. “Há uma janela estreita para reiniciar os sistemas e garantir um futuro baseado em ações climáticas decisivas e novas oportunidades para todos”, afirma.
Para o autor do documento, Pedro Conceição, é necessário “dobrar o desenvolvimento humano e olhar além da melhoria da riqueza ou da saúde das pessoas” de modo a conseguirmos “navegar na incerteza”,
Na opinião do economista português que coordenou o relatório, embora esses pontos continuem a ser importantes, também é necessário “proteger o planeta e fornecer às pessoas as ferramentas necessárias para se sentirem mais seguras, recuperar o controlo sobre as suas vidas e ter esperança no futuro”.









