
Imagem divulgada pela UCA News de padres de Ernakulam-Angalamy numa celebração em que desafiaram a autoridade de Roma e ordem do Sínodo da Igreja Siro-Malabar de se voltarem para o altar durante a oração eucarística da missa. Foto: Direitos reservados/UCA News.
Quatro jovens padres católicos da arquieparquia (equivalente a arquidiocese) de Ernakulam-Angamaly, no estado de Kerala, na parte sul da Índia, foram esta terça-feira, 22, transferidos para outro local, depois de se terem recusado a seguir as decisões do Sínodo quanto ao modo de celebrar a liturgia da missa, passando por cima do ultimato que havia sido dado na última semana pelo enviado do Papa, o arcebispo Cyril Vasil, SJ.
Os padres em causa exerciam funções ministeriais no Seminário Menor do Sagrado Coração de Jesus, em Kochi. Tendo-lhes sido perguntado se iriam seguir o novo ritual da missa aprovado pelo Sínodo da Igreja Siro-Malabar e homologado pelo Papa Francisco, responderam negativamente, razão pela qual tiveram de abandonar o trabalho que exerciam, sem que lhes tivessem sido, entretanto, atribuídas novas funções. A informação foi prestada por um responsável da Igreja, citadas pelo jornal Hindustan Times.
A disputa joga-se, aparentemente, em torno da posição durante a missa do presbítero que a ela preside. Recorde-se que a Igreja Siro-Malabar é sui juris, podendo tomar decisões que são depois submetidas a Roma. Neste caso, na deliberação tomada em 2021 pelo Sínodo desta Igreja, optou-se por uma conciliação entre a forma antiga de celebrar, com o presidente virado para oriente, e a solução saída do Vaticano II, em que ele preside sempre virado para o povo. Assim, a liturgia da palavra e a parte final passaram a ser viradas para o povo e desde o ofertório até à ação de graças com o presidente de costas. A esmagadora maioria dos padres desta diocese preferem celebrar toda a Eucaristia voltados para a assembleia.
A decisão não foi bem recebida, especialmente na principal diocese da Igreja Siro-Malabar, a arquieparquia de Ernakulam-Angamaly, que é também a maior de todas, calculando-se que tenha mais de meio milhão de fiéis. Das suas 328 paróquias, não chegou à dezena o número das que seguiram a decisão do Sínodo e as resistências, nos últimos anos, levaram a cenas em que a própria polícia chegou a ser chamada.
O enviado papal, que é um conhecedor das especificidades da Igreja Siro-Malabar, terá atuado recorrendo sobretudo a argumentos de autoridade e de unidade, como reconhecem vários observadores credenciados da região, citados numa reportagem do site católico The Pillar.
“Quereis continuar a ser sacerdotes da Igreja Católica — a Igreja conduzida pelo divino mestre Jesus Cristo que confiou a São Pedro e aos seus sucessores o direito de desatar e atar, de encorajar os irmãos na fé, de ensinar e de governar?”, perguntou Vasil aos padres da arquieparquia na última passada, na sequência de várias reuniões que tinha tido nos dias anteriores.
“Nunca poderá haver uma bênção de Deus para a desobediência à Sua vontade, por muito que se tente encobrir com frases piedosas e até com orações. Nunca haverá a bênção de Deus para o protesto ilegal e a rebelião”, disse o enviado papal, anunciando a inevitabilidade de sanções canónicas, se continuasse a desautorização do Sínodo e do Papa.
Carta dura contestada
No dia 17 de agosto, o enviado escreveu uma dura carta aos padres dando-lhes um prazo até ao dia 20, domingo, para adotarem a decisão do Sínodo.
No último domingo, porém, centenas de manifestantes bloquearam a celebração da Santa Qurbana na Catedral de Santa Maria, em Ernakulam, e os protestos por toda a arquieparquia reiteraram a desobediência. Cópias da carta de Cyril Vasil chegaram a ser queimadas junto à catedral.
O enviado do Papa começou a ser contestado, mal foi conhecida a notícia da sua nomeação, em julho último. Temia-se que, por ter estudado em Roma com o atual administrador apostólico de Ernakulam-Angamaly, nomeado pelo Papa, em 2022, com a tarefa de aplicar a reforma sinodal, indiciasse a posição do próprio enviado papal.
Tudo indica que o arcebispo Vasil regressa a Roma, levando consigo um impasse, que poderá ter-se mesmo agravado. A UCA News, instituição católica asiática de difusão de notícias, não hesita em considerar que a situação ficou pior do que estava.
As penalizações aplicadas esta terça-feira a quatro padres incidiram sobre responsáveis de um seminário e, a manterem-se as coisas no ponto em questão, dificilmente demoverão os responsáveis das paróquias. Pelo contrário: informações de última hora, veiculadas pelo jornal The New Indian Express, relatam que alguns padres contestatários foram recebidos na sede da Igreja Siro-Malabar para um diálogo com Cyril Vasil, mas recusaram-se a abandonar a sala, no final da reunião, declarando-se em greve de fome. Acabariam por ser retirados pela polícia, chamada por funcionários da instituição, que invocaram que os padres estavam a perturbar o normal funcionamento do espaço.
Quando a notícia desta ação policial foi difundida, um outro grupo invadiu o seminário menor e quis forçar o reitor a demitir-se, considerando-o “pau mandado” do administrador apostólico, o qual, por sua vez, estaria a interferir no campo judicial, dado que haviam interposto uma ação questionando a autoridade do enviado papal, que o tribunal estaria a analisar.










