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A capital do Sudão, que não tinha conhecido a guerra desde a sua conquista por Mohamed Ahmed Al Mahdi em 1885, tornou-se o principal teatro de guerra entre as Forças de Apoio Rápido e as Forças Aéreas do Sudão. Foto: Direitos reservados.

Conflito já fez seis milhões de deslocados

Guerra no Sudão: um véu de silêncio cúmplice

A capital do Sudão, que não tinha conhecido a guerra desde a sua conquista por Mohamed Ahmed Al Mahdi em 1885, tornou-se o principal teatro de guerra entre as Forças de Apoio Rápido e as Forças Aéreas do Sudão. Foto: Direitos reservados.

Cartum, a capital do Sudão, que não tinha conhecido a guerra desde a sua conquista por Mohamed Ahmed Al Mahdi em 1885, tornou-se o principal teatro de guerra entre as Forças de Apoio Rápido e as Forças Aéreas do Sudão. Foto: Direitos reservados.

 

No final de Março, havia um certo optimismo na cidade de Cartum, pois parecia que os diversos actores envolvidos nas negociações que deveriam reorientar o processo de transição democrática estavam maduros. Na verdade, tinha sido anunciado que o dia 1 de Abril era a data para a assinatura do acordo que deveria orientar o processo; o dia 6 de Abril, para a assinatura do texto constitucional transitório; e o dia 11 de Abril, para a apresentação do novo governo civil de transição.

 

Tensão crescente

Nas ruas de Cartum já havia quem afirmasse que os líderes do movimento islamita se tinham reunido com a cúpula do exército para bloquear o processo e que se poderia esperar um golpe de Estado.

Ao mesmo tempo, os media locais noticiavam a deslocação de 60 mil soldados das Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês) para o seu acampamento militar em Soba, o seu posicionamento ao redor da base das Forças Aéreas do Sudão (SAF, na sigla em inglês), em Méroe, a 436 km a norte da capital, e outra concentração de tropas em El Fasher, a capital do estado do Darfur do Norte.

Os mesmos meios de comunicação começaram a noticiar algumas discrepâncias entre as SAF e as RSF no que dizia respeito ao processo de integração das segundas nas primeiras para formar um exército único. As SAF defenderam que o processo deveria culminar numa liderança única para as forças armadas, que deveria corporizada pelo actual chefe do exército, Abdel Fatah Al-Burhan, enquanto as RSF propunham um civil como autoridade última e comando supremo das forças armadas. Na verdade, as RSF veiculavam há alguns meses a narrativa de que o exército regular, as SAF, representava o regresso ao antigo regime islâmico e opunham-se à transição, enquanto se apresentavam como a garantia de sucesso do processo democrático. Embora a sua posição não pareça muito credível uma vez que Hameidti, líder das RSF, apoiou Burhan, líder das SAF, no auto-golpe de Estado de Outubro de 2021 que suprimiu a figura do primeiro-ministro e bloqueou o acesso à presidência do Conselho Soberano de Transição da sua componente civil.

Foi precisamente este discurso que lhes pareceu justificar um golpe de Estado que deporia Abdel Fatah Al-Burhan. Segundo o jornalista Osman Mirghani, as RSF e alguns civis da plataforma do Comité Central para a Mudança e a Liberdade tinham até preparada a lista de ministros para o novo governo.

 

Como ter dois exércitos no mesmo país

A capital do Sudão, que não tinha conhecido a guerra desde a sua conquista por Mohamed Ahmed Al Mahdi em 1885, tornou-se o principal teatro de guerra entre as Forças de Apoio Rápido e as Forças Aéreas do Sudão. Foto: Direitos reservados.

As Forças de Apoio Rápido (RSF) destruíram estações de abastecimento de água e electricidade, saquearam casas, universidades, ministérios, escolas, bancos, lojas, violaram centenas de mulheres, raptaram e não hesitaram em liquidar os cidadãos que se lhes opusessem. Foto: Direitos reservados.

 

As RSF eram milícias conhecidas como “janjawid” que operaram no Darfur ao serviço de Omar Al-Bashir, Presidente do Sudão entre 1989 e 2019, em operações de limpeza étnica contra as tribos negras da região. Esta foi a acusação pela qual o Tribunal Penal Internacional, em Haia, condenou o Presidente deposto. Antes da sua queda, Al-Bashir dotou as RSF de entidade jurídica como parte integrante do exército para operações ordinárias e parte dos serviços secretos para operações extraordinárias com competência especial para o controlo de fronteiras.

Quando o exército depôs Omar Al-Bashir devido à pressão popular (Revolução de 2019), as RSF também “traíram” o seu mentor e envolveram-se no novo governo de transição. O seu líder, Mohamed Hamdan Dagalo “Hameidti”, foi nomeado vice-presidente do Conselho Militar de Transição, o órgão equivalente à Presidência da República, que deveria liderar o processo de transição. Nessa altura, as RSF tinham “apenas” 20 mil soldados, mas já controlavam várias minas de ouro no Darfur e no Kordofan Ocidental.

O Governo civil liderado pelo primeiro-ministro Abdallah Hamdok, que surgiu como resultado do início do processo de transição em Agosto de 2019, iniciou uma reforma dos serviços secretos. Estes foram responsáveis por torturas e crimes inconcebíveis no novo Sudão que se queria construir. Tratava-se de redefinir o seu papel e limitá-lo ao fornecimento de informações ao Governo, como em qualquer Estado moderno.

O general Abdel-Fatah al-Burhan confiou às RSF a operação de desmantelamento dos antigos serviços secretos. As RSF aproveitaram a oportunidade para ocupar os apartamentos, edifícios e infra-estruturas onde anteriormente funcionavam os serviços secretos e incorporaram alguns dos seus membros na sua própria estrutura.

O líder das RSF, Hameidti, também foi responsável pelas negociações com diferentes partes no conflito no Sudão e representou o país em diversas visitas internacionais, incluindo uma visita a Putin em Moscovo, a 9 de Fevereiro de 2022, com um avião cheio de barras de ouro, conforme relatado pelo New York Times. A sua dimensão internacional, já não limitada à região de Darfur, o seu poder e a sua ambição tornavam-se cada vez mais evidentes. A exploração de minas de ouro sob seu controlo e outras actividades das empresas registadas em nome de outros membros da sua família, e a permissividade do general Burhan permitiram-lhe aumentar o seu ordenado e o tamanho do seu exército, que chegaria aos 100 mil soldados.

 

A criatura volta-se contra o criador

A assinatura do acordo de referência no Sudão não ocorreu. O conflito armado começou em dois cenários: em Soba, ao sul de Cartum, e na base militar de Méroe, local estratégico para o exército sudanês. Foto: Direitos reservados.

A assinatura do acordo de referência no Sudão não ocorreu. O conflito armado começou em dois cenários: em Soba, ao sul de Cartum, e na base militar de Méroe, local estratégico para o exército sudanês. Foto: Direitos reservados.

O general Abdel-Fatah al-Burhan foi responsável pelo treino militar dos soldados de Hameidti no Darfur no início do século. Juntos, enviaram tropas para o Iémen para combater os Hutis em nome dos governos financiadores da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, estando sediadas neste último país as contas bancárias das empresas de Hameidti e dos seus familiares. Juntos orquestraram o auto-golpe de Outubro de 2021 que expulsou a componente civil do governo de transição, curiosamente quando se preparava a entrega de Omar Al-Bashir ao Tribunal Penal Internacional.

Certamente nenhum dos dois estava interessado em que o ditador deposto falasse, nem qualquer um deles poderia aceitar tranquilamente que um governo civil pudesse pôr em risco não só a sua impunidade, mas também os grandes interesses económicos que tanto o exército como a família de Hameidti administram. É também verdade que a componente civil, inicialmente unificada na sua luta contra a ditadura, se dividiu em dezenas de elementos opostos onde o interesse pelo bem comum parecia perder-se atrás de um véu de interesses particulares e de pontos de vista demasiado opostos.

Apesar de tudo isto, Hameidti vinha afirmando publicamente nos últimos meses que aquele auto-golpe tinha sido um erro. Começava a distanciar-se do seu companheiro de batalha e a falar abertamente a favor da componente civil do processo de negociações.

 

15 de abril e o início da guerra – civil?

A assinatura do acordo de referência não ocorreu. O conflito armado começou em dois cenários: em Soba, ao sul de Cartum, e na base militar de Méroe, local estratégico para o exército sudanês porque de lá poderiam partir os caças que poderiam desequilibrar os combates. As RSF não possuem força aérea. Em poucas horas, os soldados de Hameidti ocuparam o palácio presidencial, os aeroportos internacionais de Cartum e Méroe e a sede da televisão nacional e cercaram o quartel-general do exército, onde Burhan resistia ao comando das SAF e quase foi capturado e morto. O exército sudanês foi apanhado em falso. Por outro lado, os soldados das RSF, embora não tivessem passado por uma academia militar, eram mais experientes no combate corpo a corpo devido às suas recentes experiências na zona Este da Líbia, ao lado do exército de Khalifa Haftar, no Darfur e no Iémen contra os Hutis, sempre com o financiamento dos Emirados Árabes Unidos.

Em poucas horas, os soldados de Hameidti ocuparam o palácio presidencial, os aeroportos internacionais de Cartum e Méroe e a sede da televisão nacional e cercaram o quartel-general do exército. Foto: Direitos reservados.

Em poucas horas, os soldados de Hameidti ocuparam o palácio presidencial, os aeroportos internacionais de Cartum e Méroe e a sede da televisão nacional e cercaram o quartel-general do exército. Foto: Direitos reservados.

A capital do Sudão, que não tinha conhecido a guerra desde a sua conquista por Mohamed Ahmed Al Mahdi em 1885, tornou-se o principal teatro de guerra entre as RSF e as SAF.

 

E com quem estão as pessoas?

Durante a revolução, o povo sudanês saiu às ruas e arriscou as suas vidas para exigir um governo civil. As mesmas pessoas ficaram muito entusiasmadas quando Abdallah Hamdok iniciou o seu percurso como primeiro-ministro do novo governo de transição. Apenas os comités de resistência de bairro continuaram a sair às ruas para exigir justiça pelos crimes perpetrados pelas SAF e as RSF contra os manifestantes durante a revolução popular de 2019.

Quando, em Outubro de 2021, Burhan e Hameidti assumiram o controlo total do país, estes comités continuaram a protestar exigindo que ambos renunciassem e abrissem caminho para um governo completamente civil. O seu ponto fraco foi talvez a falta de uma proposta alternativa bem articulada, mas o tempo demonstrou que a sua desconfiança em relação aos dois grupos armados estava muito bem fundamentada.

Depois de testemunhar de perto como em poucos dias as RSF destruíram estações de abastecimento de água e electricidade, saquearam casas, universidades, ministérios, escolas, bancos, lojas, violaram centenas de mulheres, raptaram e não hesitaram em liquidar os cidadãos que se lhes opusessem, e mesmo odiando os militares, os jovens dos comités de resistência optariam por estes últimos em vez de pensarem num país governado pelos primeiros.

Escondida atrás de um véu de silêncio cúmplice, a guerra no Sudão espalhou-se por várias regiões do país, causou mais de seis milhões de deslocados e continua a destruir infra-estruturas, vidas, sonhos e projectos.

Mohamed Mustafa al-Kasalawi é o pseudónimo de um residente em Cartum (Sudão)

 

 

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