
Uma pessoa sem-abrigo em Roma: “Que nos impede de prestar atenção aos mais pobres ou de os escutar? Não será que ainda está muito arreigada a ideia de que os pobres o são porque o querem ser, pois trabalho não falta, preferindo eles viver de subsídios?” Foto © António Marujo/7MARGENS
A história do mundo está repleta de gente que pelas suas convicções ideológicas ou outro tipo de motivações sofreram provações de toda a espécie e muitíssimos até se deixaram matar por se colocarem do lado dos mais frágeis da sociedade e de reclamarem mais justiça e solidariedade. Muitos desses fizeram-no em nome da sua fé; entre eles, está um número incontável de cristãos católicos. O testemunho de alguns tornou-se universalmente conhecido, mas a maioria permaneceu e permanece no anonimato.
Que o combate por um mundo mais humano, inevitavelmente, acarreta desafios, por vezes dolorosos, isso nos recorda o Papa Francisco, na Mensagem para o Dia Mundial dos Pobres, ao constatar que «Deus não poupa as provações a quem pratica o bem. E porquê? Não o faz para nos humilhar, mas para tornar firme a nossa fé n’Ele». Na verdade, não é por se colocar toda a confiança em Deus que se fica imune a qualquer tipo de adversidade. Todavia, reconhecendo essas fragilidades, a fé ajuda a uma maior predisposição para acolher as dos outros e de fazer suas as causas deles. Por isso, quem crê no Deus de Jesus Cristo não deve senão estar do lado das pessoas em situação de pobreza ou de qualquer outra forma de exclusão social e colocar-se na linha da frente, em tudo o que contribua para a erradicação da pobreza.
Infelizmente, nem sempre é assim: em vez de se combater a pobreza, luta-se contra os pobres. Quem professa a fé cristã, repito, tem responsabilidades acrescidas, porque é impelido a ver o próprio Cristo em quem tem fome, está nu, na cadeia ou doente… (cfr. Mt 25, 31-46). Por isso, esta obrigação de ver o pobre como sacramento de Cristo acarreta deveres que se traduzem no modo de olhar, acolher, proteger e defender o pobre e o marginalizado e, ainda, o tipo de narrativa que se tem, quando se fala dos pobres ou com eles.
Sem dúvida que a fé se alimenta, também, do cumprimento dos demais mandamentos e da vivência dos sacramentos, em particular da eucaristia. Quem nela participa é convidado a reconhecer as suas fragilidades; a escutar, meditar e interiorizar a Palavra do Senhor; a partilhar dos seus bens, segundo as suas possibilidades, fazendo deles uma oferenda a Deus; a alimentar-se do “Pão dos fortes”, para que fortalecidos por este Pão, que é o próprio Cristo, possa reconhecer e amar a pessoa do pobre. Diz-se, por isso, que a eucaristia é “sacramento de caridade”. A este propósito e retomando o exemplo de Tobite, Francisco atesta que «no período da provação, descobre a própria pobreza, que o torna capaz de reconhecer os pobres. É fiel à Lei de Deus e observa os mandamentos, mas para ele isto não basta. A solicitude operosa para com os pobres torna-se-lhe possível, porque experimentou a pobreza na própria pele.».
A cultura predominante não facilita esta atitude de nos metermos na pele dos pobres. O Papa Francisco descreve algumas das dificuldades do nosso tempo: «Vivemos um momento histórico que não favorece a atenção aos mais pobres. O volume sonoro do apelo ao bem-estar é cada vez mais alto, enquanto se põe o silenciador relativamente às vozes de quem vive na pobreza. (…) A realidade virtual sobrepõe-se à vida real, e acontece cada vez mais facilmente confundirem se os dois mundos. Os pobres tornam-se imagens que até podem comover por alguns momentos, mas quando os encontramos em carne e osso pela estrada, sobrevêm o fastídio e a marginalização. A pressa, companheira diária da vida, impede de parar, socorrer e cuidar do outro.»
Este trecho deve fazer-nos pensar. Que nos impede de prestar atenção aos mais pobres ou de os escutar? Não será que ainda está muito arreigada a ideia de que a pobreza é uma fatalidade? Que os pobres o são porque o querem ser, pois trabalho não falta, preferindo eles viver de subsídios? Que há pobres que trabalham, mas gastam mal o que ganham? Ou será que os recursos materiais, nomeadamente os financeiros, estão mal distribuídos? Que é desigual o acesso às oportunidades de uma vida melhor? Que se instalou a “cultura do meritismo”, deixando para trás os mais frágeis?…
Só conhecendo, em profundidade, as causas que estão na origem de cada situação de pobreza se pode responder, com realismo, as estas questões e a outras que possam surgir, ao ler esta reflexão. Isso pede Francisco ao afirmar: «Somos chamados a ir ao encontro de todo o pobre e de todo o tipo de pobreza, sacudindo de nós mesmos a indiferença e a naturalidade com que defendemos um bem-estar ilusório.». O Papa dirige-se a cada um de nós que, como cristãos, não podemos ficar indiferentes a um flagelo que atinge, no nosso país, cerca de 20% dos nossos conterrâneos e, se não fossem os apoios sociais que o Estado concede, esta percentagem chegaria aos 48%. Também não podemos embarcar em apelos ao consumo de bens, perfeitamente desnecessários, adquiridos na convicção de que os mesmos nos podem trazer pedações de felicidade. É que o consumismo colabora para a desigualdade na distribuição dos rendimentos financeiros disponíveis.
A compaixão é o antídoto da indiferença e sem ela não é possível tornar-se próximo de quem vive em situação de pobreza. A solidariedade é outra das virtudes que, sem se sobrepor à justiça social, se deve ter em conta. Este apelo é feito por Francisco a cada um de nós, mas também se pode aplicar às comunidades cristãs no que respeita ao apelo de «ir ao encontro de todo o pobre e de todo o tipo de pobreza». A este propósito o Papa recorda, ainda, que a parábola do bom samaritano não é uma «história do passado; desafia o presente de cada um de nós. Delegar a outros é fácil; oferecer dinheiro para que outros pratiquem a caridade é um gesto generoso; envolver-se pessoalmente é a vocação de todo o cristão.».
É, de facto, um grande desafio. Em tempos idos, foi muito bem assumido pelas Conferências Vicentinas mas, agora, infelizmente pela idade já avançada de muitos dos seus membros, esta obrigação torna-se cada vez mais residual. O rejuvenescimento da Pastoral Social ao nível dos seus membros e dos seus métodos é incontornável. Há que criar estratégias de motivação e de envolvimento dos chamados “católicos praticantes” para que se consiga ir ao encontro do pobre e das novas formas de pobrezas. Sugiro que nos grupos vicentinos, cáritas paroquiais ou outros grupos relacionados com a pastoral social se faça essa reflexão.
Se alguém, individualmente, quiser partilhar a sua reflexão com o 7MARGENS, responderei a dúvidas ou críticas e, como já disse, no texto anterior, farei chegar as sugestões às instâncias próprias.










