
É um cinismo similar, apostado em esquecer, mascarar, branquear o terror de Gaza, que cada dia progride nos discursos dominantes, nas televisões, nas redes sociais. © WHO Homens caminham pelas ruas destruídas de Gaza
1. Foi Churchill quem escreveu, em 1933, a propósito do genocídio arménio “a História procurará em vão a palavra Arménia”. Exprimia assim a sua decepção com o Tratado de Lausanne que, ao firmar a paz com a Turquia, diplomaticamente apagara a referência a esse que foi o primeiro Holocausto do século XX. Decepção não apenas com o texto do Tratado, mas com o manto de esquecimento propositadamente vertido sobre a História em nome de cínicos interesses comerciais e geopolíticos.
É um cinismo similar, apostado em esquecer, mascarar, branquear o terror de Gaza, que cada dia progride nos discursos dominantes, nas televisões, nas redes sociais. Quando a desinformação e a manipulação não bastam, alguns governos da nossa velha Europa criminalizam o dissenso, restringem a liberdade de expressão, estimulam a censura social quando não impõem a censura tout court. Escamoteiam-se factos, manipulam-se números, controlam-se fontes. O agressor impede a presença de jornalistas nos lugares do massacre; silencia no túmulo as vozes incómodas. O objectivo é o mesmo: que em vão a História procure a palavra Gaza. Ou Palestina.
É verdade que sempre Israel soube ardilosamente alimentar em torno da sua humilhante e meticulosa política de ocupação, uma rede de ilusões, mentiras, propaganda. Fá-lo, de forma implacável e com mestria, agora que pôs em movimento um processo sistemático, planeado e feroz de limpeza étnica. Nada é poupado nessa mistificação, nem sequer a memória do Holocausto quando acusa de anti-semitas os que denunciam o caracter perverso da realização sionista e a violência extrema que transporta.
O que me dói (mas por que raio me haveria de doer alguma coisa, a mim que estou confortavelmente a milhares de quilómetros da tragédia?) é que essa mistificação obscureça as consciências, alimente a indiferença, distraia, banalize insidiosamente a progressão do mal. Sinto que, neste processo doloroso, alguma coisa se quebrou em mim, de forma definitiva e sem apelo. Tenho dificuldade em exprimi-lo. O que sinto di-lo bem melhor um grande poeta judeu assassinado pelos nazis em 1944. À sua frente estava o gueto de Varsóvia. Se fosse vivo podia bem ser que estivesse em Gaza agora, com o mesmo desespero e a mesma impotência. Escreveu Itsjok Katzenelson:
A terra surda-muda se fez cega, mas em vós, ó céus,
que tudo viram desde o alto, nada se perturbou.
Não se nublou o vosso azul vulgar e o sol continuou brilhando
hipocritamente, como sempre.
(…) E a Lua, como uma velha puta, saía cada noite em seu passeio.
(…) A morte adiantou-se com fumo, sangue e fogo
(…) Ó céus vazios, desertos como uma estepe longínqua e desolada,
em vós perdi o meu único Deus.
2. Vem isto a propósito de um incidente aparentemente minúsculo. Um texto alegrete e redondinho que o 7MARGENS publicou no passado dia 29 de Dezembro assinado por uma das suas redactoras, Clara Raimundo. A história conta-se num parágrafo: Uma carrinha, em forma de gato, percorre Israel para alegrar as crianças afectadas pela guerra. Leva-lhes livros e actividades lúdicas. Informa a autora tratar-se de uma iniciativa da “maior organização humanitária judaica e do Ministério da Educação”. Do mesmo governo, portanto, que enquanto distribui leitura e consolo a algumas crianças, outras massacra. Mas, para a articulista, isso nem detalhe chega a ser. A mensagem importante, que justifica a classificação desta história numa secção de “Boas Notícias”, é que “nestes dias difíceis, todos nós precisamos de magia que possa criar histórias, palavras e ânimo – e as crianças precisam disso mais do que ninguém.”
Fiquei, ao lê-la, estupefacto. Será possível que a articulista ignore que ali ao lado outras crianças não vislumbram magia que as salve? Ou, para sermos mais precisos, que ali ao lado, no inferno que Israel criou e alimenta, o que sobeja em feitiço escasseia em vida? O que resta são crianças assassinadas, aos milhares, em violação de todas as convenções internacionais, pelo governo que integra o referido Ministério da Educação, perante o olhar cúmplice da “maior organização humanitária judaica”, dos governos e dos media do nosso infortúnio e de quem prefere assobiar para o lado ou falar de gatos.
Sejamos honestos, para as crianças palestinianas que ainda restam (serão cada vez menos com o passar dos dias) o gato não chega. Necessitam de uma magia bem mais poderosa, fadas e duendes, poderes imensos.
Por exemplo, uma magia que traga da morte os pais. Os seus irmãos. A avó. Outra que lhe reerga a escola e devolva a vida aos colegas e à professora. Um superpoder que reconstrua os braços estilhaçados, as pernas amputadas, os olhos cegos, o rosto desfigurado, a pele ardida. Um outro que lhes traga comida, água, medicamentos, a casa que tiveram. Um ainda, muito importante, que lhes permita serem operadas com anestesia (imaginará a articulista um filho seu submetido a uma cirurgia óssea sem anestesia?) e já agora, se não for pedir de mais, um médico que ainda não tenha morrido.
Precisam de uma magia imensa que as retire da indignidade de serem tratadas como crias de animais (em rigor, crias de bestas, para usar a designação do governo israelita). Que lhes devolva o pão e a terra, a palavra e o riso, os livros e os gatos. E, já agora, o futuro.
Não. Não posso crer que a articulista ignore tudo isto. Nem que seja insensível. Faço-lhe essa justiça.
Mas não posso deixar, então, de lhe perguntar, com que prioridade escolhe uma notícia assim? Não lhe faz espécie a desproporção entre o que vivem crianças vizinhas, paredes meias? Umas, é certo, poderão nunca esquecer a marca do genocídio que seu governo conduz; outras, porém, são exterminadas, como animais acossados num inferno sem fuga. Achará mesmo que este floreado tem algum significado que não distrair do essencial? Do genocídio, quero eu dizer?
Para as crianças da Palestina, em Gaza, evidentemente, mas também para as que sucumbem numa violência lavrar, cada dia mais acesa, na Cisjordânia, esta esperançosa “boa notícia” não é boa nem esperança alguma traz. Intencionalmente ou não, é parte de um processo bem conhecido de normalização do genocídio e desvio da opinião pública que, à boleia de tanta magia boa e ternurenta, mastiga sem remorso a maçã envenenada pela bruxa má.
Infelizmente a sua publicação não é inócua. Serve uma agenda obscena. De branqueamento do agressor. De confusão. De distracção. Vende gato por lebre. Não a tolhe o pudor.
Luís Soares Barbosa é professor na Universidade do Minho e autor de Longos Dias Breve o Medo.
Nota da Direcção – O 7MARGENS discorda da leitura aqui apresentada da notícia em questão. Temos publicado vários textos nos quais fica claro que condenamos os bombardeamentos em Gaza. Entendemos obviamente que são legítimas a pluralidade de olhares sobre o conflito e a crítica ao nosso trabalho, por isso publicamos o texto. A.M.










