
Criança num bairro arrasado por ataques aéreos israelitas. “Gaza é um imenso gueto de onde nenhum palestino pode sair.” Foto © UNICEF/Mohammad Ajjour
O fumo negro dos crematórios dos campos de concentração é agora substituído pelas gigantescas colunas de fumo das explosões das bombas, dos mísseis e rockets. Não há comboios de vítimas transportadas como animais para o matadouro porque os locais de execução são os hospitais, as escolas, as próprias casas. Não há Conselhos Judaicos a decidir as listas dos próximos condenados aos campos, nem rusgas pelas cidades porque Gaza é um imenso gueto de onde nenhum palestino pode sair.
A violência inominável com que as forças armadas israelitas têm levado a cabo o extermínio do povo palestino que habitava Gaza não tem paralelo com qualquer outra guerra contemporânea. A teoria que suporta o genocídio em curso é conhecida e há muito que foi desenvolvida nas altas esferas militares israelitas. Nunca se pensou que pudesse ser levada a cabo. Está a acontecer.
Está a acontecer todos os dias desde há quatro meses. Sem imagens. Sem jornalistas. Sem relatos. Sem sabermos. E, porém, sabemos. Não podemos esquecer. Não esqueceremos. Como não esquecemos o terror assassino das brigadas Hamas. Como não esquecemos nem esqueceremos o Holocausto, o horror da Shoah.
Sei que Israel não é isto. Durantes longos meses, multidões de centenas de milhares de pessoas ocuparam as ruas manifestando-se contra Netanyahu e os fundamentalistas seus aliados. Opuseram-se à destruição do equilíbrio de poderes típico da democracia e à vontade de conferir o poder absoluto ao Executivo. A 7 de outubro, a bestialidade terrorista do ataque do Hamas reduziu-as ao silêncio. Em que, na sua larga maioria, ainda permanecem. Mas há sinais de quererem retomar a palavra. E são também Israel.
Na Faixa de Gaza, muitos palestinos sofrem, em cima da permanente intromissão, controlo e repressão israelita, a perseguição do Hamas. E são também, e mais do que os facínoras do Hamas, palestinos de Gaza, são o povo de Gaza. Haverá futuro para quem vivia num território tão pequeno, tão oprimido e tão violentamente vivido? Não – dizem, desafiando o mundo, os fundamentalistas e os falcões israelitas que se preparam para varrer da face daquela terra os palestinos, tal e qual como, em menor escala e por outros meios, vêm concretizando, ali na Cisjordânia, há mais de seis décadas. Sim – digo eu, mesmo não sabendo todos os pormenores de como será possível, certo de que é ali, naquela faixa de território que parte dos palestinos viverão o seu futuro. Prósperos e em paz. Porque Israel pode levantar muros ao longo das fronteiras que internacionalmente lhe são reconhecidas, mas não tem o direito de gerir, controlar e oprimir o povo seu vizinho com recurso a todas as violências.
Constatações óbvias e fáceis. Que não chegam para reduzir o grau de violência, nem são garantias de paz. Que, no entanto, vale a pena sublinhar para traçar linhas que ajudem a sinalizar de forma clara e inequívoca eventuais passos que as ultrapassem.
“O processo de reconciliação é, muitas vezes, difícil – a culpa deve ser nomeada e confessada, deve adotar-se um caminho de arrependimento, de cura”, afirmava em Cracóvia a meados de setembro deste ano o teólogo católico Tomáz Halík. Podemos, à distância, nomear a culpa, as culpas. Podemos e devemos não esquecer. Não como quem requer e exige vingança, mas como quem sabe que não haverá paz sem reconciliação. Contudo, à reconciliação só se chega pela confissão da culpa. E essa só é possível aos atores. Tal como nas suas mãos reside a possibilidade de perdão e de arrependimento.










