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Missa de Pentecostes ou a festa da linguagem

| 07/06/2019

Missa de Pentecostes ou a festa da linguagem

by | 7 Jun 19 | Cultura e artes - homepage, Música, Últimas

 

No próximo domingo, 9 de Junho, dia de Pentecostes, a celebração da eucaristia (11h30) na Capela do Rato, em Lisboa, contará com os Sete Lágrimas a interpretar uma vez mais a minha Missa de Pentecostes (2011). Gostaria, a este propósito, de partilhar quatro ideias-chave, essenciais à sua compreensão; para isso, incluo aqui também palavras minhas sobre esta mesma missa publicadas na revista Communio(ano XXVIII, nº2, Abril, Maio e Junho de 2011; passos assinalados entre aspas).

 

1) É uma missa para todos, crentes e não crentes, por motivos essencialmente religiosos. “Desde logo, a ideia de composição de uma missa constitui uma oportunidade para integrar o nosso presente estético musical na leitura de um texto sagrado. E esta relação temdois sentidos: procuramos testemunhar o que sentimos face ao texto, ao mesmo tempo que o texto nos interpela na capacidade que temos de estabelecer um discurso estético referente a este lugar, a este tempo em que vivemos. Por isso, este projecto é importante não apenas na vivência religiosa strictu sensu, mas também abarcando um horizonte cultural mais vasto que é o da construção social e comunitária, onde o religioso tem um lugar natural. A composição desta missa é, portanto, um projecto aberto, pensado para uma função cívica”.

 

2) É uma missa que percebe o tempo de uma forma nova; por isso, e aparentemente em contradição, alguns dos seus momentos usam textos em latim, o que nos leva à ideia de que o texto, tal como a linguagem, é visto como algo de passagem, não definitivo.“O facto de se tratar de uma missa de Pentecostes motivou a integração de uma pluralidade de linguagens musicais e, naturalmente, do ordinário comum da missa, num espaço cultural mais vasto, em que testemunhos de escritores de origens várias e épocas diversas se podem abraçar — testemunhos de várias pessoas e tempos que são revisitados como forma de melhor entendermos o tempo que é o nosso e a humanidade que somos.

Por isso, recuperei a tradição gregoriana, com o latim que lhe é próprio, procurando confrontá-la com textos poéticos, além das orações próprias da liturgia de Pentecostes. A presença do latim – neste caso, o latim ibérico, com as suas diferenças de pronúncia face ao latim italiano — foi para mim muito importante, não por motivos puramente estéticos, mas porque a partir dessa inclusão poderíamos olhar o português dos poemas e a sua mensagem de uma outra forma; para além disso, revisitar na língua latina o que usualmente dizemos em português na liturgia hoje em dia será um modo de atentarmos à própria oração sob uma outra perspectiva, pelo estranhamento (brechtiano) que esta opção constitui.

Finalmente, o facto de esta missa ser composta para uma formação com instrumentos antigos permitiu contornar uma identidade cronológica excessiva: a viola da gamba de Sofia Diniz e a tiorba de Hugo Sanches são, juntamente com o timbre dos tenores Filipe Faria e Sérgio Peixoto, identidades claramente ligadas à música antiga, e que convocadas para a interpretação de uma obra contemporânea não deixam, por isso, de poder olhar de fora essa mesma obra em que participam, a partir de um lugar que se quer resgatado do tempo e por isso mesmo capaz de abarcar a multiplicidade estética a que se propõe esta missa.”

Capa de “Vento”, a edição em disco da Missa de Pentecostes de João Madureira.

 

3) É uma missa que celebra o encontro entre as dimensões sagrada e profana da vida humana. “A primeira decisão composicional desta missa foi, sem dúvida, a inclusão de poesia portuguesa, que, plasmada sobre o ordinário comum da missa [cantado em latim], não o comprometesse formalmente, mas antes pudesse funcionar em diálogo com o mesmo. […] A missa estrutura-se de forma a que poemas de Teixeira de Pascoaes (1877-1952), de JoséAugusto Mourão (1947-2011), de Maria Gabriela Llansol (1931-2008), de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) e de Mário Cesariny (1923-2006) possam alternar, se bem que de modo não demasiadamente previsível, com momentos em que o latim é a língua cantada.” Esta assemblagede diversas proveniências textuais, que podem mudar de contexto conforme a percepção e experiência de cada ouvinte, assume-se como um testemunho de vida: nomeadamente, desengavetando o texto religioso dos seus significados mais comuns, atribuindo-lhe uma forma de expressão mais abrangente, e, por outro lado, dando a ver do texto não religioso a sua luz profundamente espiritual. Nesta óptica, a religiosidade parece-me um factor intrínseco a qualquer expressão textual que dê testemunho da tendência mais humana possível, que é a de descobrir e questionar o que nos rodeia. O humano é religioso porque se permite a questionar aquilo em que tende a acreditar.

 

4) É uma missa que festeja a música como festa da linguagem, olhando-a como um projecto em expansão e não como um produto final e absoluto. Não me refiro a uma estrutura congelada, mas a algo em permanente evolução. Esta ideia de linguagem enquanto projecto designa a incapacidade genuína de nos expressarmos tal e qual como nos sentimos: um projecto em constante evolução e mudança, a que se atribui o seu carácter transitório e elástico. É nesta demanda da linguagem que a festa acontece: festa enquanto complementaridade de sinais, sensações, questões e possíveis entendimentos para o que queremos ainda descobrir sobre a nossa própria existência. Festeja a linguagem, porque esta é a emanação possível de um sentido que nãoé imediatamente detectável. “Por isso, se questionado sobre a existência de espaço para uma ars sacra, respondo afirmativamente. E sim, uma ars sacraindependente da enorme força dos meios de entretenimento dos nossos dias. Mas também plenamente integrada na produção artística do nosso tempo. Porque o espaço religioso, tal como o entendo, é sobretudo um lugar de encontro. É um testemunho de fé, mas é também parte inextricável da produção cultural do seu tempo.”

 

João Madureira é compositor e autor da Missa de Pentecostes. 

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