
Narendra Modi em reunião de trabalho sobre as ondas de calor na Índia, na semana passada. Este será o seu terceiro mandato consecutivo como primeiro-ministro. Foto reproduzida a partir da conta de X de Narendra Modi
O partido Indian National Congress, de oposição ao primeiro-ministro Narendra Modi, conseguiu impedir que este conquistasse a maioria absoluta, numas eleições em que, ao longo das últimas sete semanas, votaram mais de 640 milhões de pessoas. Vários líderes católicos indianos vieram já manifestar o seu contentamento face aos resultados.
“Estou satisfeito por a democracia estar a prosperar na Índia. Isso mostra que o país é vibrante e que as pessoas têm consciência política e estão a votar corretamente”, afirmou o cardeal Oswald Gracias ao Crux.
Narendra Modi permanecerá primeiro-ministro, naquele que será o seu terceiro mandato consecutivo, porém, sem uma maioria no parlamento indiano, para a qual seria necessário ter conquistado pelo menos 272 lugares. Vai, assim, depender do apoio dos parceiros de coligação. Muitos indianos temiam que uma vitória absoluta da magnitude que Modi pretendia lhe pudesse dar o poder de alterar a constituição indiana, liberal e democrática, e de lançar as bases de uma Rashtra (nação) hindu de extrema-direita, na qual as minorias religiosas seriam privadas de direitos e os povos indígenas não teriam direitos sobre os seus recursos naturais.
Porém, o Indian National Congress, encabeçado por Rahul Gandhi, teve um resultado surpreendentemente positivo, quando as sondagens pré-eleitorais indiciavam o contrário. A sua campanha de dois anos consistiu em longas marchas por toda a Índia, nas quais desafiou Modi em todas as aldeias e cidades, chamando a atenção para os capitalistas amigos do primeiro-ministro, o seu desprezo pela Constituição e pelo Estado de direito e o seu desrespeito pelas liberdades civis e pelos direitos humanos. É de salientar que a Índia é o país do mundo com o maior número de presos políticos e outros detidos nas suas cadeias, muitos dos quais muçulmanos e dalits.
“Qualquer que seja o governo que chegue ao poder, a Igreja irá certamente cooperar”, referiu Gracias. “O que nos alegra é o facto de todo o processo ter decorrido de forma tão pacífica e ordeira. Mostra que também haverá uma oposição saudável. Penso que isto é bom para o país, bom para a democracia e bom para o futuro”, mencionou o cardeal. “O nosso povo está a tornar-se politicamente consciente e atento às necessidades do país para garantir um governo bom e limpo. Congratulo-me com o facto de a afluência às urnas ter sido bastante boa – embora pudesse ter sido melhor – e de as pessoas terem levado as eleições a sério”, acrescentou Gracias.
Num país altamente religioso, onde quase 80% da população professa a crença hindu, 15% a muçulmana e 2,3% a cristã, a liderança política tem sido marcada, desde 2014, por um partido com fortes ligações ao Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), uma organização militante nacionalista hindu. As minorias religiosas têm, por sua vez, chamado recorrentemente a atenção internacional para o aumento da discriminação e violência desde que o partido de Modi assumiu o poder, uma realidade que o 7MARGENS tem acompanhado.
“Este resultado eleitoral é um testemunho eloquente do facto de o eleitorado indiano ter optado por uma oposição mais forte que reforçaria o processo e as instituições democráticas”, disse o padre Babu Joseph, antigo porta-voz da Conferência Episcopal da Índia. “Havia uma forte perceção entre uma parte considerável da sociedade de que a Índia, sob o regime anterior, estava a caminhar para a autocracia e para um governo maioritário, que agora foi posto em segundo plano”, referiu Joseph. “A Igreja continuará o seu ministério de estar ao serviço do país e de servir o país e as pessoas de todas as religiões. Esta tem sido a política da Igreja e continuará a sê-lo. Continuaremos a estar no centro das atenções. Continuaremos a estar na corrente principal do serviço”, concluiu o cardeal.









