
“A Bélgica é um país de liberdades e de contrastes. Não é um Estado laico, como a França ou como Portugal.” Foto: Papa Francisco durante o encontro com as autoridades civis na Bélgica (Vatican Media)
É sempre um honra para um país com tradições católicas, como a Bélgica, receber, tal como aconteceu de 27 a 29 de setembro, a visita do Chefe da Igreja Católica, o Sumo Pontífice, o Papa Francisco.
Também João Paul II veio visitar a Bélgica em 1995, proclamando a beatificação de um padre belga que consagrou a sua vida ao lado dos leprosos, na ilha de Molokai, o père Damien. Foi depois canonizado a 11 de outubro de 2009 pelo Papa Bento XVI, cerimónia que muito orgulhou a comunidade da Flandres.
A Bélgica é um país de liberdades e de contrastes. Não é um Estado laico, como a França ou como Portugal. É um Estado que aceita e subsidia o culto e as religiões e reconhece as seguintes religiões: judaica, católica, protestante, muçulmana, ortodoxa e até mesmo a laicidade, encarregando-se o Ministério da Justiça de pagar os salários aos ministros do culto.
Se é verdade que a religião impregnou fortemente a sociedade belga, a ponto de haver ainda instituições apelidadas de cristãs, como uma confederação sindical (Confédération des Syndicats Chrétiens), uma caixa de previdência (Mutualité Chrétienne), uma universidade católica (Université Catholique de Louvain), dezenas de institutos superiores de ensino, centenas de escolas católicas primárias e secundárias, e, até há bem pouco tempo, um partido social-cristão, na verdade, a Bélgica tornou-se uma sociedade bastante secularizada, pois não foi difícil adotar leis que legalizaram o casamento de homossexuais, a eutanásia e a autorização de interrupção da gravidez, sob certas condições. Mesmo se 60% dos belgas se confessam católicos, menos de 3% de pessoas frequentam as igrejas aos domingos.
Chegado à Bélgica, o Papa quis receber as vítimas de abusos sexuais nas instalações da Nunciatura Apostólica. Tudo foi feito para proteger o anonimato das vítimas que chegaram ao interior do edifício em carros com vidros opacos e longe dos jornalistas. O essencial das vítimas foi terem ficado com um sentimento de que o Papa as ouviu verdadeiramente.

“O essencial das vítimas foi terem ficado com um sentimento de que o Papa as ouviu verdadeiramente.” Foto: Papa Francisco encontra-se com vítimas de abusos (Vatican Media)
O que marca as visitas do Papa Francisco são as suas atitudes de Pastor que vão ao encontro dos que mais sofrem. No dia 28 de manhã tomou o pequeno almoço na igreja paroquial de Saint Gilles, partilhando um croissant e um café com pessoas sem abrigo, que esta paróquia tem acolhido ao longo de alguns anos. Alguns que ali se encontravam vieram de longe, atravessaram o mediterrâneo e passaram por Lampedusa. Um camaronês contou ao Papa que rezava e cantava sempre à Virgem Maria. A sua voz ecoou durante alguns segundos com o seu canto predileto, confiando sempre na sua Mãe do céu que o levou a bom porto.
Este é um Papa que ouve, que se emociona e que aprecia momentos simples e espontâneos, como o que partilhou com idosos, também refugiados, num lar gerido pelas “Irmãzinhas dos Pobres” que se ocupam dos mais carenciados, numa zona pobre da cidade de Bruxelas.
Ainda no dia 28 de setembro, o Papa encontrou-se com os responsáveis da igreja católica: bispos, padres, diáconos, religiosos e animadores pastorais na grande Basílica de Koekelberg. Perante uma sociedade belga que se secularizou fortemente, o Papa referiu que é necessário uma profunda renovação, porque tornámo-nos minoritários e temos de viver um cristianismo de testemunho. A comunidade dos crentes não é uma comunidade de privilegiados, mas uma comunidade de salvos por Deus.
O encontro com o Povo de Deus teve lugar no dia 29 de setembro, no Estádio Rei Balduíno, onde assistiram à missa perto de 40 mil pessoas. Foi a apoteose da sua viagem. Entrou no estádio como uma autêntica vedeta. O carro deu algumas voltas ao estádio. Notava-se um certo cansaço, mas levantava o braço direito, outra vez o braço esquerdo ou mesmo as duas mãos em sinal de agradecimento e os jovens vestidos com as cores do Vaticano, branca e amarela, aplaudiram-no até mesmo em espanhol, gritando: Viva el Papa Francisco! Foi quase um ambiente de uma mini JMJ!
No decorrer da celebração da missa, o Papa Francisco declarou a beatificação da espanhola Ana de Jesus, nascida em Medina del Campo e contemporânea de Santa Teresa de Ávila. Fundou vários mosteiros de carmelitas na Bélgica, em Mons, Lovaina e Bruxelas, onde faleceu em 1621.
Um dos motivos pelos quais o Papa visitou a Bélgica foi para dar início às comemorações dos 600 anos da fundação da Universidade Católica de Lovaina, a universidade da contrarreforma, que formou milhares de dirigentes no mundo inteiro e que é bem cotada no ranking internacional.

“O Papa foi muito bem recebido na Universidade de língua flamenga. Na universidade francófona, estava previsto a leitura de uma carta elaborada pelos jovens ao longo de vários meses que se apoiava numa reflexão sobre a encíclica ecológica do Papa, a Laudato Si”. Foto: Encontro com os estudantes universitários na Universidade Católica de Lovaina (Vatican Media)
O Papa foi muito bem recebido na Universidade de língua flamenga. Na universidade francófona, estava previsto a leitura de uma carta elaborada pelos jovens ao longo de vários meses que se apoiava numa reflexão sobre a encíclica ecológica do Papa, a Laudato Si, na qual agradeceram ao Pontífice a sua contribuição nas questões de transição ecológica, mas questionaram-no acerca do lugar da mulher: Caro Papa Francisco, disseram, as mulheres são as grandes ausentes desta encíclica. O lugar da mulher não se encontra nesta encíclica.
Como bom jesuíta, o Papa ouviu e agradeceu as interpelações feitas e evocou uma conceção clássica da mulher na antropologia católica, afirmando que a dignidade da mulher é absoluta porque está na origem do acontecimento salvífico. Foi através do “sim” de Maria que Deus, em pessoa, veio ao mundo. A mulher é acolhimento fecundo, é cuidado, é dedicação vital.
Apesar do Papa ter sido ovacionado por mais de 4 mil pessoas, a Reitora da Universidade, Françoise Smets, no fim, quis manifestar o desacordo com as afirmações do Papa, distribuindo um comunicado de desaprovação e de divergência que considerou determinista e redutora, com a qual a Universidade Católica de Lovaina tem de exprimir o seu descordo.
Este gesto saiu dos trâmites protocolares e o Vaticano considerou-o amoral, um termo um pouco diplomático para dizer que não foi apreciado.
O Papa visitou, a título privado, o túmulo do Rei Balduíno, falecido em 1993, por quem tem muita admiração, visto ter tido a coragem de não promulgar a lei de legalização do aborto aprovada pelo Parlamento belga, invocando um problema de consciência, o que o obrigou a abdicar de reinar durante 36 horas, astúcia jurídica encontrada à pressa pelos constitucionalistas.
Aliás, o Papa afirmou empenhar-se na beatificação deste Rei, que se opôs à legalização do aborto.
No avião de regresso ao Vaticano, a propósito do tema do aborto, o Papa teve uma frase um pouco dura para com os médicos que, no exercício das suas funções, praticam o aborto, apelidando-os de assassinos contratados, (tueurs à gages) o que está a provocar uma grande polémica em todos os meios da sociedade, e afirmam que o Papa foi longe demais.
Um dos primeiros a reagir foi o Padre Gabriel Ringlet, antigo Vice-Reitor da Universidade Católica de Lovaina, escritor e capelão no meio hospitalar, que se indignou contra as afirmações do papa, dizendo que não só eram insuportáveis, mas também injuriosas para com os médicos que estão atentos ao real sofrimento das mulheres e que, além disso, exercem a sua profissão num quadro totalmente legal.
Os médicos que praticam este género de atos no quadro das suas funções, tiveram palavras duras para com o Papa Francisco.
Também André Wénin, teólogo, biblista, antigo decano da Universidade Católica de Lovaina e Professor convidado da Universidade Gregoriana de Roma afirmou, num artigo de opinião no jornal de tendência católica, La Libre Belgique de 01/10/2024, que quando as mulheres, a braços com gravidezes indesejadas e muitas vezes em grande aflição, desejam pôr-lhes termo, a Igreja, através da sua hierarquia, nega-lhes a liberdade e o direito de escolherem em consciência, confiando apenas no primado da vida biológica, que é sacrossanta a seus olhos. Agindo assim, a Igreja, com a sua teologia purista, conserva mecanismos que favoreceram aberrações e conduziram a erros desastrosos.
Joaquim Tenreira Martins é diplomado em Teologia pelo ISET-Lisboa, Licenciado em Direito e em Ciências Políticas pela Universidade de Lovaina, é autor de vários livros e trabalhou no Serviço Social e Jurídico da Embaixada de Portugal em Bruxelas.









