
Papa na missa final na Bélgica. Foto © Vatican Media
Desafiado a comentar os bombardeamentos no Líbano, que provocaram a morte do líder do Hezbollah, mas também de muitos civis, o Papa Francisco defendeu este domingo — no voo de regresso a Roma, depois da visita apostólica ao Luxemburgo e à Bélgica — que toda a defesa desproporcional é imoral.
“A defesa deve ser sempre proporcional ao ataque”, notou Francisco. “Quando há algo desproporcional, vê-se uma tendência dominadora que vai além da moralidade. Um país [Israel] que com a força faz essas coisas — falo de qualquer país —, que faz essas coisas num modo assim “superlativo”, são ações imorais. Também na guerra há uma moralidade a preservar. A guerra é imoral, mas as regras de guerra implicam alguma moralidade. Mas quando isso não é feito, vê-se o “sangue ruim”, como dizemos na Argentina”, completou o Papa, citado pela Vatican News.
Já no final da missa, celebrada no Estádio Rei Balduíno, que encerrou este domingo a sua viagem à Bélgica, Francisco tinha apelado a um cessar-fogo imediato no Médio Oriente, assumindo a sua preocupação com o agravamento da guerra no Líbano. “Muitas, demasiadas pessoas continuam a morrer dia após dia no Médio Oriente. Rezemos pelas vítimas, pelas suas famílias, rezemos pela paz. Apelo a todas as partes para que cessem imediatamente o fogo no Líbano, em Gaza, no resto da Palestina, em Israel. Libertem os reféns e permitam a ajuda humanitária.”
Israel tem levado a cabo, desde a última segunda-feira, uma campanha de bombardeamentos contra o movimento xiita Hezbollah, no sul e no leste do Líbano, tendo morto o seu líder, Hassan Nasrallah.
Falando aos cerca de 35 mil participantes na celebração, o Papa Francisco disse “acompanhar, com tristeza e muita preocupação, o alargamento e a intensificação do conflito no Líbano”.
“O Líbano é uma mensagem, mas neste momento é uma mensagem martirizada. E esta guerra tem efeitos devastadores sobre a população”, advertiu.
Polémica sobre o papel da mulher

Papa no voo de regresso a Roma, depois da visita à Bélgica. Foto © Vatican Media
No voo de regresso a Roma, o Papa foi confrontado com uma carta aberta crítica das suas afirmações no encontro com estudantes, doutorandos e professores da Universidade Católica de Lovaina (UCLouvain), realizado no sábado.
Segundo o relato do jornal belga Le Soir, a carta dirigida a Francisco notava que os universitários “queriam iniciar um diálogo com o Sumo Pontífice, expressando as suas preocupações, sobre a defesa do ambiente, as desigualdades face às alterações climáticas, as ‘raízes filosóficas’ mas também o lugar das mulheres na Igreja e na sociedade”.
“Atualmente, na Bélgica, existem duas vezes mais mulheres do que homens em situações de pobreza individual. Qual o lugar das mulheres num plano de luta pela justiça social, caro Papa Francisco?”, questiona,. “Como acontece frequentemente na história da Igreja, as mulheres tornaram-se invisíveis. Invisibilizadas nas suas experiências, as mulheres também têm sido invisíveis nas suas contribuições intelectuais”, insistem os signatários.
Na UCLouvain, o Papa disse que “o que caracteriza a mulher, o que é feminino, não é determinado por consensos ou ideologias. E a dignidade é garantida por uma lei originária, não escrita no papel, mas na carne”. E acrescentou: “A cultura cristã desenvolve de forma sempre renovada, em diferentes contextos, a vocação e a missão do homem e da mulher e do seu ser mútuo, em comunhão. Não uns contra os outros, em reivindicações opostas, mas uns pelos outros.” E acrescentou ainda que “a mulher é acolhimento fecundo, cuidado, devoção vital”.
Esta passagem fez soar as críticas na UCLouvain. Na carta é sublinhada “a sua incompreensão e desaprovação da posição expressa pelo Papa Francisco em relação ao lugar da mulher na Igreja e na sociedade. Uma posição determinista e redutora da qual a UCLouvain só pode discordar”.
Aos jornalistas, o Papa rejeitou as críticas. “Eu falo sempre da dignidade da mulher e disse uma coisa que não posso dizer dos homens: a Igreja é mulher, é a esposa de Jesus. Masculinizar a Igreja, masculinizar as mulheres não é humano, não é cristão”, indicou, retomando a reflexão que apresentou em Lovaina.
Francisco rejeitou a ideia de “conservadorismo” nas suas posições, apontando o dedo a um “feminismo exagerado, em que se pretende que a mulher seja masculinizada, não funciona.
“Uma coisa é o machismo que não funciona, uma coisa é o feminismo que não funciona. O que funciona é a Igreja mulher, que é maior do que o ministério sacerdotal. E às vezes não se pensa nisso”, indicou, citado pela agência Vatican News, através da Ecclesia.










