Um Papa, ao escolher o nome quando é eleito pelos seus pares, tem certamente em mente um programa, um modelo, um exemplo que pretende seguir. Nada impede que cada um de nós possa depois debruçar-se sobre a simbologia do nome escolhido e fazer a sua própria leitura. É o caso que nos vai ocupar com o nome deste novo Papa Leão XIV que, há pouco tempo, acabou de se sentar na cátedra petrina.
Jorge Bergoglio, quando foi eleito, ao escolher o nome de Francisco, anunciava nitidamente um programa com o objetivo de trabalhar para uma igreja virada para as periferias, para os pobres, para os humildes, tal como tinha feito o “Poverello d’Assise, que queria certamente imitar.
Os biógrafos de São Francisco de Assis revelaram-nos que, apesar da aura de santo, mesmo durante a sua vida, não deixaram de existir tensões entre progressistas e conservadores. Ele próprio teve dificuldade em transmitir aos seus próprios irmãos o ideal de pobreza radical e de dedicação para com os mais humildes, pois muitos deles, sobretudo os mais instruídos, desviaram-se de seguir os seus ensinamentos, tal como desejaria e adotaram uma tradição monástica menos exigente.
Durante o seu pontificado, também o Papa Francisco esteve consciente das divisões que traiam o seu ideal inicial, o de centrar a Igreja sobre o essencial, apelando a seguir um Cristo pobre, humilde, próximo das margens que é costume deixar abandonadas.
Aqueles que seguiram de perto os preparativos do recente conclave deram-se certamente conta das diversas sensibilidades que, ouso crer, estiveram presentes de perto ou de longe na eleição do novo Papa.
Também acerca do nome que o Cardeal Robert Prevost escolheu, Leão XIV, muitos não deixarão de tecer simbologias, paralelismos, aspirações e realizações de programas para um pontificado que se augura longo, já que se trata de um Papa relativamente jovem.
Alguns pretendem encontrar na designação de Leão vontade de abertura ao mundo moderno, tal como aconteceu com o autor da “Rerum Novarum”, Leão XIII, que iniciou a doutrina social da Igreja. Outros o relacionarão com Leão I, o Grande, que foi ao encontro de Átila para o persuadir de não invadir Roma, ou de Leão X que se opôs a Lutero.
Independente do nome adotado, e já com um longo curriculum missionário integrado na ordem dos agostinianos, Leão XIV apresentou-se, quando o vimos pela primeira vez na “loggia” da Praça de São Pedro, como um “filho de Santo Agostinho”. Talvez seja nesta designação que devamos intuir o seu programa.

“Santo Agostinho foi um grande intelectual nos primeiros séculos do cristianismo. Antes de se tornar monge, padre e bispo, foi um brilhante professor e um profundo conhecedor das correntes filosóficas do seu tempo.” Pintura: Philippe de Champaigne, Santo Agostinho
Santo Agostinho foi um grande intelectual nos primeiros séculos do cristianismo. Antes de se tornar monge, padre e bispo, foi um brilhante professor e um profundo conhecedor das correntes filosóficas do seu tempo. Após a sua conversão, preocupou-se em fazer a síntese entre a filosofia antiga e a fé cristã, entre o rigor intelectual e a experiência mística. Os seus escritos não deixaram de influenciar os grandes pensadores ao longo dos tempos, crentes e não crentes. Antecipou, antes de Descartes, a experiência do “cogito”, ao escrever o livro sobre as suas “Confissões”. Trata-se de uma viagem intimista de onde parte para a análise do mundo, de Deus e de si próprio.
Percebeu bem os problemas do seu tempo. Lutou contra as divisões que assolavam a igreja nessa época, pretendeu reconciliar a razão e a fé e abriu o diálogo entre convicções opostas.
Assistiu à queda de Roma, em 410, pelas tropas de Alarico, uma cidade que se acreditava duraria sempre, mas, na verdade, Agostinho compreendeu que este desastre não era um simples acidente histórico, mas um sintoma de um mal mais profundo, no domínio espiritual e moral, como analisa no seu livro “A Cidade de Deus”.
Também hoje, dentro da Igreja, existe uma corrente de pensamento preconizada por alguns, como o Cardeal Sarah, que fustigam os perigos do Ocidente que estaria à beira de um precipício, tal como a então cidade de Roma, ao renegar as suas raízes, esquecer os seus valores fundamentais e tentar apagar o seu legado histórico. É de opinião que a Igreja envolta nesta ingenuidade arrisca-se a ser arrastada para um ambiente desastroso.
Se, em seu tempo, o Bispo de Hipona foi o testemunho luminoso perante a queda de Roma, ousamos crer que este Papa, Leão XIV, que se considera “filho de Santo Agostinho” guiará a Igreja para um rumo acolhedor e dialogante.
Joaquim Tenreira Martins é diplomado em Teologia pelo ISET-Lisboa, Licenciado em Direito e em Ciências Políticas pela Universidade de Lovaina, é autor de vários livros e trabalhou no Serviço Social e Jurídico da Embaixada de Portugal em Bruxelas.










