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P. Jardim Gonçalves

A morte a um mês dos 93 anos

Agostinho Jardim Gonçalves (1932-2024): uma vida cheia, muitas memórias por contar

| 22/12/2024

P. Jardim Gonçalves

Padre Jardim Gonçalves. Foto reproduzida de uma reportagem da RTP-Madeira sobre a doação de 7500 livros seus à Biblioteca Municipal de Machico.

Desde há tempos estava a trabalhar em documentação do antigo patriarca de Lisboa, José Policarpo, de quem foi chefe de gabinete, e admitia, em conversa com o 7MARGENS, fazer daqui a algum tempo uma entrevista mais longa sobre as suas próprias memórias. Ambos os projectos ficaram por concretizar, mas ainda doou mais de 7600 livros dos que compunham a sua biblioteca ao Machico, onde iniciou a sua vida de presbítero. O padre Agostinho Jardim Gonçalves morreu na noite deste domingo, num hospital de Lisboa, a um mês de completar 93 anos, soube o 7MARGENS junto de várias fontes.

Nascido a 27 de Janeiro de 1932, na freguesia de Santa Maria Maior (Funchal, Madeira), Agostinho José Luís de Jardim Gonçalves era filho de Agostinho Carlos Gonçalves e de Maria Bernardete Estevão Jardim Gonçalves, professora e directora do Colégio Júlio Dinis. Tinha três irmãos, entre os quais Jorge Jardim Gonçalves, que viria a ser presidente do Banco Comercial Português, antecessor do Millenium.

O jovem Agostinho entrou para o Seminário da diocese em 1943. Foi ordenado em 22 de Setembro de 1956, tendo começado por trabalhar em Machico. Chegou a leccionar também no Liceu Jaime Moniz, no Funchal, e mais tarde voltaria a exercer funções de professor no Instituto Superior de Estudos Teológicos, escola fundada em Lisboa por várias ordens religiosas para o ensino da Teologia.

Ainda no Funchal, chegou a ser chefe de redacção do Jornal da Madeira, antes de migrar para o continente em 1960, e para o estrangeiro, depois, exercendo vários cargos internacionais. Esse período é recordado por três antigos responsáveis dos movimentos católicos operários, num texto publicado há três anos, na página da Base-FUT (Frente Unitária de Trabalhadores): Fernando Abreu, que foi secretário-geral adjunto da Acção Católica Portuguesa, vice-presidente da LOC (Liga Operária Católica, hoje Movimento de Trabalhadores Cristãos) e primeiro coordenador nacional da BASE-FUT; João Paulo Branco foi coordenador da BASE-FUT e era vogal do conselho de administração do Centro Europeu para os Assuntos dos Trabalhadores; e Brandão Guedes, dirigente nacional da BASE-FUT.

Escreviam eles nesse texto:

“[Jardim Gonçalves teve] uma longa vida que, em parte duradoura e significativa foi dedicada com alma e coração à causa da promoção e dignificação dos trabalhadores no exercício da missão de assistente nacional e internacional dos movimentos operários cristãos.

Entre outras actividades eclesiais e sociais que abaixo abordaremos o padre Jardim foi pároco de Alfornelos (Amadora), responsável do Secretariado de Comunicação Social do Patriarcado por nomeação do cardeal-patriarca de Lisboa, dom José Policarpo, responsável pelo Sector América Latina do CCFD [Comité Católico contra a Fome e pelo Desenvolvimento, da sigla francesa], fundador e presidente da Oikos – Cooperação e Desenvolvimento [no final da década de 1980] e membro da Comissão Nacional de Apoio aos Presos Políticos no tempo da ditadura fascista.

Com a Revolução do 25 de Abril um sector importante dos católicos oposicionistas [viu] nele um futuro bispo de uma hierarquia católica renovada.

Este padre, verdadeiramente singular e solidário, acompanhou todo o processo da criação do Centro de Cultura Operária (CCO), enquanto organismo para a formação social, cívica e sindical dos militantes trabalhadores dos movimentos operários da Acção Católica, a criação do grupo BASE, na clandestinidade, e esteve no plenário fundador da BASE-FUT em novembro de 1974, na Costa de Caparica.

Mais tarde viria mesmo a ser o presidente da assembleia geral do Centro de Formação e Tempos Livres (CFTL), um projecto para o qual deu um importante e significativo contributo.

 

A miséria do povo marcou a sua vida para sempre

Pobreza, sem-abrigo, Roma

Uma pessoa na condição de sem-abrigo: a “degradante situação social de miséria” de muitas pessoas levou Jardim Gonçalves a envolver-se na promoção da dignidade social e laboral. Foto © António Marujo/7MARGENS

Ordenado [presbítero], em 22 de Setembro de 1956, pelo bispo do Funchal (Madeira) foi colocado na paróquia do Machico, à data, conhecida como a localidade mais pobre da ilha. Filho de uma família com o estatuto do que, hoje, poderíamos classificar de classe média alta, deparou-se com a degradante situação social de miséria da maioria dos habitantes, cujo injusto e imerecido sofrimento, que, como afirma, marcou, profunda e indelevelmente, a sua vida de padre e cidadão.

Em Agosto de 1957, sendo pretensão do seu bispo proceder à remodelação do caduco Jornal da Madeira, órgão da diocese, foi nomeado seu chefe de redacção e, no curto espaço de tempo em que exerceu tal função, iniciou uma notável alteração de conteúdos, como reconhecido pelo padre Tomás Paquete que, em 1960, o substituiu.

Em 1961, foi nomeado, pelo cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, Patriarca de Lisboa, assistente nacional da Juventude Operária Católica Feminina (JOCF) facto que, registe-se, teve algo de incomum, pois não consta que, antecedentemente, nenhum padre de recente ordenação e com [menos de 30 anos] tivesse sido escolhido para assistente de movimentos da Acção Católica, sendo nomeado assistente nacional da Liga Operária Católica e da Liga Operária Católica Feminina. Estes movimentos, com o seu dedicado, dotado e esclarecido acompanhamento e apoio, iniciaram nos anos 60 processos de notável renovação, nomeadamente no que concerne às metodologias formativas.

 

Renovação das metologias formativas dos militantes operários

Segundo o testemunho de vários militantes católicos, “uma renovação que, não obstante as limitações impostas pelo regime ditatorial e as decorrentes das omissões da hierarquia nacional da Igreja Católica, teve considerável impacto na acção institucional dos movimentos.

Permitiu a formação de militantes, jovens e adultos, homens e mulheres que, com base na análise das realidades da sociedade portuguesa de então se comprometeram na intervenção cívica, na luta pela defesa dos sonegados direitos dos trabalhadores e na transformação das suas estruturas representativas, dando testemunho do Evangelho e vincando a presença solidária dos trabalhadores cristãos na luta global do movimento operário pela dignificação do trabalho e dos trabalhadores.”

 

Um padre da Pastoral Operária nacional e internacional

Operários numa obra no México. Foto © Tomas Castelazo, www.tomascastelazo.com/Wikimedia Commons/CC BY-SA 4.0.

Operários numa obra no México. Foto © Tomas Castelazo, www.tomascastelazo.com/Wikimedia Commons/CC BY-SA 4.0.

Não se pode deixar de recordar que o comprometimento do padre Jardim na evangelização da classe trabalhadora e seu dinamismo empreendedor se traduziu também na ação empenhada com que se dedicou à dinamização da Pastoral Operária. Acção que teve a sua concretização na realização da III Semana de Pastoral Operária, realizada em Lisboa, de 24 a 27 de Setembro de 1967, cuidada e meticulosamente preparada através de inquéritos e de documentação enviada previamente aos futuros participantes que em número de 100 (paritariamente 50 sacerdotes e 50 leigos), em trabalho de grupos, promoveram amplas reflexões, cuja oportunidade e validade está expressa nas Conclusões Finais constantes de um Relatório de cerca de 100 páginas. Conclusões que, passados mais de 40 anos, continuam de inegável e gritante atualidade.

O labor pastoral do padre Jardim, em Portugal, como assistente dos movimentos operários cristãos, mereceu reconhecimento internacional, quando após a dissolução da FIMOC-Federação Internacional dos Movimentos Operário Cristãos, foi eleito assistente do Movimento Mundial dos Trabalhadores Cristãos-MMTC (1967/1970), e, posteriormente, ao ser reconduzido, por nomeação direta da Santa Sé, para o quadriénio 1971/1974.

Sabemos que para um padre é altamente significativo o tempo de exercício do seu ministério. Por isso mesmo queremos prestar a nossa homenagem amiga e fraterna a um homem que à sua maneira dedicou grande parte da sua vida aos trabalhadores, nunca estando verdadeiramente desligado dos problemas dos mesmos.

 

Fundador e impulsionador

Herryanne de Chaponay: o padre Jardim esteve com a aristocrata na fundação do CEDAL. Foto: Direitos reservados.

Uma das múltiplas marcas que deixou, ainda no estrangeiro, foi ter sido co-fundador, com Paulo Freire e Herryanne de Chaponay, do Centro de Estudos do Desenvolvimento da América Latina (CEDAL).

Quando regressou a Portugal, na década de 1980, Jardim Gonçalves foi um dos fundadores da Oikos, organização não-governamental dedicada às questões da cooperação e do desenvolvimento, numa altura em que, em Portugal, não abundavam organizações desse género. Apesar de aconfessional, a organização tinha no seu núcleo fundador vários católicos e protestantes destacados. Praticamente sem trabalho pastoral atribuído pela hierarquia católica e pelo cardeal-patriarca António Ribeiro, manteve-se durante mais de uma década a trabalhar com a Oikos e as organizações internacionais por onde passara e nas quais mantinha ainda algumas tarefas. Ao mesmo tempo, mantinha um profundo interesse pela vida cultural e política do país: concertos, exposições, livros e cinema faziam parte da sua vida.

É essa fase que o embaixador Francisco Seixas da Costa recorda, numa nota que publicou na sua página no Facebook: “Recordo-o muitas vezes a sorrir. Conheci-o no final dos anos 80, quando era a alma da Oikos, a organização não-governamental que tinha uma extraordinária vocação para a cooperação com África, área em que eu então trabalhava”, escreve. “Tivemos várias reuniões. As suas ideias e o seu entusiasmo pareciam inesgotáveis. Às vezes, era impaciente, incapaz de conviver com o ritmo modorrento da decisão oficial. Discutíamos sempre com grande cordialidade e daí nasceu uma muito boa relação entre nós.”

Foi o patriarca José Policarpo que “reabilitou” o padre Jardim, chamando-o para seu chefe de gabinete depois de ter sido nomeado para suceder ao cardeal Ribeiro, em 1988. Nesse lugar, Jardim Gonçalves dinamizou o Centro Cultural do Patriarcado e promoveu uma relação profissional com os jornalistas como raramente aconteceu até hoje na hierarquia católica – competente, profissional, transparente, respeitadora e próxima. Entre as iniciativas que promoveu, esteve a realização de uma série de encontros temáticos com personalidades de diferentes áreas da sociedade civil, que se destinavam a que o patriarca pudesse escutar vozes de responsáveis e técnicos de áreas como as migrações, a comunicação, a cultura, as empresas ou as finanças. E tudo isso acontecia sem barreiras políticas, religiosas ou ideológicas, com um leque de convidados muito alargado.

Seixas da Costa acrescenta, no texto no Facebook, ter-se voltado a cruzar com o padre Jardim precisamente quando ele “era o braço direito” do cardeal Policarpo.

Tendo pedido ao patriarca para sair, Jardim Gonçalves manteve a sua ligação à paróquia de Alfornelos. Um problema de saúde obrigou-o, há cerca de quatro anos, a mudar a residência para a Casa do Clero do Patriarcado. Mesmo assim, em 2017 decidiu doar à Biblioteca Municipal de Machico 87 caixas com 7500 livros do seu espólio – foi a maior doação de um particular, notaram os responsáveis, a que se somaria uma segunda remessa de mais 120 livros. Teologia, literatura, poesia, ciências humanas, muitos deles em línguas estrangeiras, permitiram à instituição constituir um fundo bibliográfico ao qual foi atribuído o seu nome, como contava a RTP Madeira.

Desencantado com vários rumos da hierarquia católica, admirador confesso do Papa Francisco, mantinha o humor, por vezes cáustico, e dizia-se permanentemente “caminhando com Nosso Senhor”. No Facebook, o embaixador Seixas da Costa acrescentava ainda: “As últimas vezes que o encontrei confirmavam, à evidência, a doença que o afectava. Mas teimava em falar só do futuro. Há duas semanas, no Grémio Literário, esteve no lançamento de um livro que ali apresentei. Fiz-lhe uma especial saudação, nas palavras que proferi. Posso agora confessar que tive o pressentimento de que aquele era o seu último sorriso que eu veria”.

Esse último sorriso guardou muitas memórias que ficaram por contar.

 

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