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Constantino Alves: à procura, agora, de "um tempo de sossegamento interior". Foto © António Marujo/7MARGENS.

Entrevista “Rostos e Rumos”

Constantino Alves, o padre que vestiu o fato-macaco

 

Tinha um bigode que lhe caía pelos cantos da boca e uma boina preta redonda que o definia como um padre especial: o padre do fato-macaco, que às oito horas ligava a máquina. Constantino Alves foi o último entrevistado do programa Rostos e Rumos, parceria da TSF e do 7MARGENS. A entrevista passa na rádio ainda nesta terça, dia 3, às 20h, e pode ser escutada na íntegra na página da TSF.

Constantino Alves foi padre operário, pároco de bairros degradados e sindicalista. Nos anos 80 agitou as bandeiras pretas da Fome, em Setúbal, mas sem filiação partidária. Constantino Gonçalves Alves tem 78 anos e é natural de Castelo de Paiva. Terminava o curso de Teologia no Seminário do Porto em 1974, quando eclodia a Revolução de Abril.

Filho de pequenos proprietários agrícolas, cedo se interessou pelo universo operário. Começa pelo Lavradio, no Barreiro, a formação nos Filhos da Caridade, uma congregação de origem francesa que se dedica à evangelização do meio operário. De servente de obras passa a fresador mecânico na Amadora.

Aqui, e depois em Setúbal, seria eleito delegado sindical. Em novembro de 1980 é ordenado padre por D. Manuel Martins, o primeiro bispo da Diocese de Setúbal.

Por oito anos, é eleito membro da direção do Sindicato dos Metalúrgicos do Sul e integra a sua comissão executiva. Na década de 1980, ergueram-se na península de Setúbal as bandeiras negras dos salários em atraso e da fome, em contexto de forte exploração política. Constantino Alves inspira e funda o Centro de Apoio a Desempregados.

Em 1989 é nomeado pela Conferência Episcopal Portuguesa Assistente Nacional da JOC, a Juventude Operária Católica e da Comissão Nacional da Pastoral Operária. Feito padre operário, Constantino Alves é, na viragem do século, nomeado pároco de Nossa Senhora da Conceição, em Setúbal, uma paróquia integrada por extensos bairros sociais degradados, como o da Bela Vista e o da Quinta da Parvoíce. A criação de voluntariado permitiu-lhe fundar, em 2011, um restaurante social e, em 2015, uma clínica social de medicina dentária.

Além do empenhamento pastoral e social no sindicalismo, o padre Constantino Alves fez mestrado em Serviço Social na Universidade Católica e está matriculado no Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa, onde quer concluir a tese de doutoramento. Desde 2024, é assistente da Comissão de Justiça e Paz de Setúbal.

Já neste ano, cessou, no final de setembro, as funções de pároco e de responsável do Centro Social Dom Manuel Martins.

Populares em festa num carro de combate em Lisboa, durante a Revolução dos Cravos. Foto © Centro de Documentação 25 de Abril, CC BY 4.0 , via Wikimedia Commons.

Populares durante a Revolução de Abril de 1974: “Antes do 25 de Abril, já me impressionava com os mineiros do Pejão, com as caras negras, os dentes brancos e os olhos vermelhos. Foto © Centro de Documentação 25 de Abril, CC BY 4.0.

7M/TSF – Padre Constantino, depois de tanto ter feito na sua terra de predileção, o que lhe resta fazer ainda?

CONSTANTINO ALVES – Um tempo de sossegamento interior, de aquietação, de um certo repouso, para depois me colocar à escuta de apelos que possam surgir, quer de cristãos, quer também de movimentos sociais, de associações, de gente humilde, simples, estar junto a Deus, escutar esses apelos, que no fundo são sinais também de Deus, e continuar próximo das pessoas.

 

7M/TSF – Quer dizer que ficou desactivado da condição de padre operário?

Isso nunca. Nunca, porque a condição operária vive-se desde o nascer até morrer ou a partir de determinada altura da vida. Mesmo a pessoa reformada, que foi operária e vive da sua reforma tantas vezes insuficiente para uma vida de qualidade, continua na sua condição operária e continua igualmente a partilhar dos valores, dos anseios, das preocupações, das acções dos seus companheiros de trabalho.

Não fiquei desactivado; continua o meu coração, o meu pensamento e os meus sentimentos muito próximos e atentos à vida dessas grandes multidões que enchem as ruas, os transportes diariamente até à noite.

 

7M/TSF – O que é que lhe deu para ser padre operário? Foi a fogueira de Abril de 1974 ou o sonho da revolução?

Antes da fogueira de Abril, já aquecia os pés na lareira na minha aldeia, porque eu via diariamente os mineiros do Pejão, daquelas minas de carvão, que passavam frente à nossa casa, a escassas dezenas de metros. Aquilo impressionava-me, porque eles vinham com as caras todas negras, os dentes brancos e os olhos vermelhos, já com uma caminhada no exterior da mina de duas horas a pé. Não tomavam banho e aquilo impressionou-me desde pequenino.

Depois, tive a sorte de, no seminário – estávamos em pleno Conselho Vaticano II…

 

7M/TSF – No Porto?

No Seminário Maior do Porto, tive a sorte de ter vários professores que acompanhavam o Concílio e que partilhavam connosco essa nova forma de ser Igreja. Destaco muito especialmente um professor que tive, de doutrina social da Igreja, Narciso Rodrigues, que foi assistente nacional da JOC (Juventude Operária Católica), que nos falava constantemente da sua experiência, das suas raízes, do seu pai, fundador de círculos operários católicos, da doutrina social da Igreja, do amor aos operários, da experiência que tinha tido na JOC…

Isso foi importantíssimo para mim, no abrir de mais horizontes de conhecimento e de experiência sobre as vidas operárias.

Samora Machel durante a Guerra da Independência de Moçambique (chamada de Guerra Colonial, em Portugal): “Os capelães legitimavam, de certo modo, a estrutura militar, Foto: Autor desconhecido, CC BY 4.0, através da Wikimedia Commons.

7M/TSF – Em 1978 muda do Porto para o Barreiro. Foi uma descida ideológica?

Foi primeiro uma verdadeira aventura, quase uma odisseia, porque vim à boleia durante a noite num camião, cuja viagem do Porto para Lisboa durou 12 horas. Depois dormi duas horas deitado num banco de jardim no Príncipe Real, à espera de poder encontrar um dos padres, que infelizmente já faleceu, dos Filhos da Caridade, que se dedicam à evangelização do mundo operário.

Isto nasceu também porque um dia o também já falecido padre Jardim Gonçalves realizou um retiro no Seminário Maior do Porto. No final, fui ter com ele, impressionou-me o testemunho que ele deu. Ele disse: “Olha, seria interessante que tu conhecesses, viesses um dia a Lisboa…”

Não foi a chama da revolução, mas foi a paixão de querer conhecer, mergulhar e viver a vida no seio dos trabalhadores e anunciar o Evangelho de Jesus Cristo.

 

7M/TSF – A ideologia estava no seu caminho?

Do ponto de vista teórico, sim. Até porque tinha conhecido [a encíclica do Papa Paulo VI] Octogesima Adveniens, onde é feita uma reflexão da compatibilidade que pode existir entre um cristão militante que assume a metodologia ou os métodos de acção transformadora de raiz marxista, mantendo a sua identidade, a sua fé cristã. Já havia aí esta combinação pacífica entre as duas vertentes.

 

7M/TSF – Depois da ordenação, fez-se objector de consciência; era preciso um padre ser objector?

Ser preciso ou não, não me cabe a mim avaliar, mas apenas transmitir aquilo que realmente vivi. Antes do 25 de abril, eu distribuía informação sobre os presos políticos, sobre a guerra colonial, do CIDAC [o então Centro de Informação e Documentação Amílcar Cabral] e não só; curiosamente, um professor que mais tarde foi bispo, era ele que me passava centenas e centenas destes [folhetos] para distribuir.

Eu trazia dentro de mim, já antes do 25 de Abril, este sentir no sangue e no espírito do anticolonialismo. Eu via que os capelães militares – não quero julgar os trabalhos que eles realizavam – legitimavam, de certo modo, toda a estrutura militar, uma vez que tinham a sua farda, o seu vencimento de oficiais, o seu posto; e isso, interiormente, chocava com o que eu pensava.

Depois do 25 de Abril, eu ainda trazia também essa formatação intelectual anterior; quando fui ordenado, seis anos após o 25 de Abril, interiormente ainda sentia que, se fosse capelão militar, continuaria a ser suporte ideológico, visível e conciliador, desta união entre o poder militar e a acção da Igreja.

Isto era num tempo em que se discutiam várias questões: haver uma televisão católica ou não, ou haver padres que, no seio do exército – como missionários, como padres e não como oficiais – [podiam] viver a sua missão de acompanhamento espiritual e humano aos soldados.

Padre Constantino Alves: “Eu sentia dentro de mim um fogo, uma paixão, uma vontade enormíssima de conhecer a vida operária.” Foto © António Marujo/7MARGENS.

7M/TSF – Quem eram e o que faziam os seus pais?

Vitorino e Maria da Conceição, os dois de condição humilde, pequenos camponeses. O meu pai aprendeu a ler e a escrever quando era criado de servir em casa de um padrinho, e a minha mãe nunca aprendeu a ler nem a escrever.

Tinham um coração muito generoso, muito humilde: recordo-me que, quando havia pobres que passavam por lá, eles davam-lhes comida; o pai tinha um carisma de líder, de organizador de trabalho e de rectidão, de honestidade, e também de arrojo, de ousadia.

 

7M/TSF – Não ficaram confusos quando o padre Constantino vestiu o fato de operário em vez da batina tradicional?

Admito que sim. Mas a proximidade existiu, nos primeiros meses, com outros membros da congregação religiosa Filhas da Caridade; além de convívios entre famílias em que eles partilhavam a experiência que tinham como sacerdotes, e os meus pais viam que, afinal, também eram padres.

Recordo um episódio, um dia, por esta altura [do ano]: um homem que tinha um alambique de aguardente estava a carregar o bagulho para fazer aguardente, depois das vindimas; o meu pai virou-se para ele e disse: “Olhe, o meu filho trabalha, sabe?” Mas disse aquilo com orgulho: o meu filho também trabalha, também é um operário, também é trabalhador. Nunca mais me esqueço disso.

 

7M/TSF – Vamos agora à fábrica de metalurgia: foi com mãos limpinhas que lá apareceu o padre Constantino?

Eu sentia dentro de mim um fogo, uma paixão, uma vontade enormíssima de conhecer a vida operária e alguns membros da congregação, que também eram operários na Lisnave e na Standard Elétrica. Transmitiam essa mística, de que era importantíssimo conhecer não apenas do ponto de vista teórico, intelectual, a vida dos trabalhadores, mas experimentar com as nossas mãos, com o nosso coração. Com as mãos limpinhas significa essa entrega total.

Quando comecei o primeiro trabalho, foi como servente em trabalhos mais difíceis, mais perigosos, mesmo para a saúde, aqui no meio do Tejo, num estaleiro naval: picávamos a ferrugem no fundo dos batalhões, deitados de costas para baixo, sem máscaras, sem protectores nos ouvidos; senti e experimentei isso tudo.

 

7M/TSF – Mas teve de engolir alguns sapos, padre Constantino?

O primeiro foi quando fui denunciar ao Sindicato dos Metalúrgicos a situação em que os trabalhadores viviam, sem o mínimo de condições. Quando apareceu lá o dirigente sindical, falou com o patrão. O patrão, muito zangado, virou-se para nós todos, passou um grande raspanete.

A minha experiência de dez anos no mundo das fábricas de Setúbal, com milhares e milhares de trabalhadores, [foi que,] da parte dos trabalhadores, nunca tive uma única piada clerical, que acontece em outros pontos do país. Mesmo no interior da Igreja, porque tínhamos o bispo D. Manuel Martins, embora eu soubesse que muita gente discordava daquilo que eu fazia, dirigente sindical, andava pelas fábricas, pelas ruas, com manifestações…

Calavam-se, mas, de facto, eles é que engoliam os sapos.

A 211.ª Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa decorreu em Fátima, entre os dias 28 de abril e 1 de maio. Foto © Agência Ecclesia/CB.

Assembleia da Conferência Episcopal Portuguesa: “A vida real e concreta das pessoas, sejam trabalhadores, operários ou não, não está na agenda”, diz Constantino Alves. Foto © Agência Ecclesia/CB.

 

7M/TSF – Os padres operários são uma espécie que já morreu?

Quase, quase. Aqueles que existem são todos, ou praticamente todos, reformados.

 

7M/TSF – Por que é que aconteceu isso?

Está relacionado com várias causas. A dinâmica que a Igreja vive actualmente e a absolutização de algumas formas de ser padre fez desvalorizar e desinteressar pessoas de descobrirem esta missão.

Ainda há dias, numa diocese, a abertura do ano lectivo fez-me lembrar o que acontecia há 60 anos: quando se passava da filosofia para a teologia, todos vestíamos a batina. Também agora fiquei espantado, quando vi todos de batina na abertura do ano escolar. Todo este ambiente não proporciona, sem dúvida, a atenção a estes campos de actividade de fronteira, como o mundo operário e não só.

 

7M/TSF – A hierarquia católica em Portugal e a generalidade da Igreja já não se interessa pelo operariado?

Do ponto de vista teórico, até acredito na boa vontade que existe por parte da hierarquia, que afirma o amor por toda a gente, o amor pelos pobres, o amor pelos trabalhadores, que está muitas vezes na sua reflexão e nos seus discursos, mesmo nos seus programas de acção e de intervenção.

Com tristeza o digo: não faz parte das agendas das reuniões, seja de grupos nas paróquias, seja as reuniões de padres; as de bispos, não sei, porque não estou lá. A vida real e concreta das pessoas, sejam trabalhadores, operários ou não, não está na agenda – estão mais questões internas da Igreja.

As questões do mundo do trabalho ou do mundo operário sempre foram difíceis, desde o nascimento da designada classe operária; esse conflito e o distanciamento ainda continua a repercutir-se e a acontecer hoje.

 

7M/TSF – A Igreja perdeu os operários?

A resposta é um bocadinho ambígua: a maioria de quem participa nas ações religiosas, litúrgicas e demais, obviamente, é gente humilde. Mas que não é fermento, não é luz, não impulsiona, não está próxima das acções, das preocupações dos trabalhadores, da comunhão de vida com eles, do participar em respostas ou em propostas, de encontrar formas específicas de evangelização, tendo em conta a condição, a cultura, a mentalidade, os desafios, os problemas dos trabalhadores. Sem dúvida que a Igreja não está aí presente. Também não está no mundo das artes, da cultura, dos desportos, a não ser pontualmente.

Manuel Martins, bispo de Setúbal: “Ele disse-me: ‘Fala da vida dos operários aos padres’.” Foto: Direitos reservados.

7M/TSF – Deixe-me falar de duas personalidades de Setúbal: D. Manuel Martins, designado por alguns como bispo vermelho, e Eugénio Fonseca, ex-presidente da Cáritas. Como é que se convive com um bispo vermelho?

Vermelho é a cor do nosso sangue. O sangue significa vida, significa amor.

Nós já nos conhecíamos do Seminário do Porto. Ele foi meu professor de moral cristã.

Veio cinco anos antes de mim para a diocese de Setúbal. Quando comecei esta descoberta do mundo do trabalho, através da experiência directa, ele tomou conhecimento disso. E quando me ordenou, em 1 de Novembro de 1980 [fez domingo 46 anos] depois de uma homilia em que metade foi repetir a doutrina da Igreja [perante] uma assembleia muito especial – havia muitos militantes operários, políticos –, quando começou a aprofundar as Bem-aventuranças, deixou de ler aquilo que trazia, o coração saltou e entusiasmou toda a gente. Depois disse: o mundo operário apresenta Constantino à Igreja, para que a Igreja te faça padre e a Igreja envia-te ao mundo operário para ir anunciar a boa nova da libertação de Jesus Cristo.

Muitas vezes, naquele tempo das crises, da fome em Setúbal, eu ia jantar com ele, ainda de fato-macaco, e contava-lhe o que se passava nas fábricas. O primeiro comunicado que a Igreja portuguesa fez sobre este flagelo da fome, da miséria, dos despedimentos na Península de Setúbal, foi no final de uma reunião de padres no Seminário de Almada, em que eu levei uma lista de empresas [com problemas], e ele disse: “Fala disto aos padres” e no final perguntou: “Porque não emitirem um comunicado denunciando esta realidade?” Foi a primeira tomada de posição pública.

A seguir, houve um programa televisivo do Carlos Pinto Coelho, que fez a primeira reportagem, comigo e com outro padre operário, a trazer o empenhamento e a partilha da Igreja desses problemas e sofrimentos dos trabalhadores do distrito de Setúbal.

Também a mim me chamavam padre comunista, mas não era por sermos comunistas – nenhum de nós o era.

 

7M/TSF – O bispo aprendeu a ser bispo por ter vindo para Setúbal?

A ser bispo, no sentido de servir o povo, de uma Igreja que deve estar para o serviço das pessoas e dos mais pobres. Foi Setúbal que o transformou, sem dúvida.

Eugénio Fonseca. Foto Agência Ecclesia MC

“Eugénio Fonseca doou a sua vida à causa dos mais pobres”, recorda o padre Constaino. Foto © Agência Ecclesia/MC

7M/TSF – Eugénio Fonseca foi, durante duas décadas, a voz da Cáritas e era agora o grande dinamizador do voluntariado. Que memória guarda deste homem?

Várias memórias, todas elas muito gratificantes. Primeiro, um grande amigo, por quem sinto a gratidão pela amizade que tinha da parte dele. Depois, alguém que fez, de certo modo, uma metamorfose: enquanto eu andava nas fábricas, nas ruas, ele era um cristão activo no interior da estrutura eclesiástica, eclesial, do culto. Ele estava contra a minha acção de missionário e de padre no mundo do trabalho – isso contou mais tarde.

Em contacto com o D. Manuel Martins e na experiência e no contacto directo com as realidades, com os pobres, com os trabalhadores e desempregados, ele também operou dentro dele essa transformação radical e profunda, e doou a sua vida à causa dos mais pobres.

Interessava-lhe não apenas a organização de eventos – ele tinha uma grande capacidade, uma enorme rede de gente conhecida e de especialistas –, mas também estava atento aos pequenos problemas concretos dos pobres. Em relação ao lançamento de várias respostas sociais, de certo modo inovadoras, no seio da Igreja e também da sociedade, que desenvolveu, foi em reflexão e diálogo com ele, de muita proximidade e de um acompanhamento permanente, de reflexão de vez em quando, em momentos mais difíceis, que partilhávamos isto e aprofundávamos.

 

7M/TSF – E, de certa maneira, ele embandeirou o voluntariado.

Ele deu voz, deu corpo, tornou-o conhecido, deu motivações, fundamentação teórica ao voluntariado em Portugal, sem dúvida. No nosso caso concreto, foi um grande inspirador e acompanhador permanente das nossas vivências.

 

7M/TSF – Sem o voluntariado, a Igreja Católica quase não poderia organizar-se e abrir as portas, será assim?

Olhando para a realidade, é assim mesmo. O voluntariado parece uma primeira imagem da Igreja: gente generosa, desde o abrir a porta, dar catequese, gente disponível para a gestão, administração, formação – ninguém a ganhar dinheiro. Felizmente que é assim porque, com todo o respeito pela profissionalização que é necessária, o afecto pode correr o risco de enfraquecer; e o voluntariado, pelo contrário, é coração, é entrega, é dádiva, é dom.

 

7M/TSF – E as mulheres estão à frente no voluntariado?

Sim. As mulheres estão à frente, talvez por várias razões: uma é a sua sensibilidade, a sua ternura; outra porque são o maior número na Igreja, na vida celebrativa, nas catequeses, na formação…

Constantino Alves (e Manuel Vilas Boas, à esquerda), durante a entrevista: “É um empobrecimento que as mulheres não possam aceder” aos ministérios na Igreja. Foto © António Marujo/7MARGENS.

7M/TSF – O que pensa de as mulheres não poderem ser ordenadas e desempenharem o ministério de padre e de bispo?

Essa é uma questão complexa. Não sou perito nessa área, mas parece-me que é um empobrecimento não haver coragem, ousadia, de ir avançando nesse sentido, para que as mulheres possam aceder a essa missão, porque isso aparece como uma certa subalternização da condição feminina. Tal como acontece noutras confissões cristais, não me repugna, como me parece que seria um grande contributo para a missão da Igreja.

 

7M/TSF – Da parte do Vaticano, há recuos e avanços: o Papa Francisco tinha uma posição, o Papa Leão XIV tem outra…

Isso demonstra duas coisas: uma realidade complexa que necessita de aprofundamento; e que já houve passos positivos nessa linha. Isso confirma esta legitimidade de ter um espírito aberto à discussão destas realidades.

 

7M/TSF – Uma questão de fronteira também: o celibato dos padres deveria ser optativo?

Sem dúvida: começou a ser obrigatório a partir do século X, salvo erro; das duas, uma: ou até aí toda a gente estava em pecado; ou isto é apenas uma norma da Igreja [que] não está no Evangelho. São Pedro era casado…

 

7M/TSF – Como olha para o momento actual da Igreja portuguesa? Modorra, grande presença pública ou o quê?

Modorra lembra fortaleza, aprisionamento; pode lembrar uma uniformidade de pensamento, de trajes, do agir. Modorra pode entender-se o retrocesso a formas demasiado arcaicas e que hoje voltam de novo; como os tentáculos de um polvo a absorver a mentalidade, absorver, as formas de ser, de pensar e de agir no interior da Igreja.

Um exemplo. Há pouco tempo ouvi alguém dizer aos acólitos: “Não se esqueçam, para essa situação, procurem vir de sapatinho preto.”

Não há aquele entusiasmo, aquela paixão que sentimos a seguir ao Concílio Vaticano II: a criatividade, a diversidade, a unidade com os olhos na diversidade…

Muitas vezes é uma verdadeira pobreza, as reuniões que se fazem no interior da Igreja, não apenas de leigos, mas também de padres: não há debate, não há discussão, não há polémica, não no sentido de agressividade, mas de [debate de] pontos de vista…

 

7M/TSF – E a modorra da Igreja vai-se perpetuando, ou seja, o andar devagar…

Andar devagar, devagarinho e parado, muitas vezes; e a retroceder e a recuar também. Isto também se nota muito bem.

Padre Constantino Alves: “O ecumenismo deve comportar formas de cooperação, de interajuda, outras dimensões da vida e da acção pastoral.” Foto © António Marujo/7MARGENS.

7M/TSF – Na paróquia onde esteve havia um espaço de culto ecuménico, ou seja, onde podiam rezar pessoas de diferentes confissões. Fazem falta experiências de diálogo desse género, com quem reza de modo diferente?

Sem dúvida que sim. A Semana da Unidade dos Cristãos é apenas uma vez por ano, com o momento de oração em conjunto. Mas, para além da oração, o ecumenismo deve comportar também formas de cooperação, de interajuda, outras dimensões da vida e da acção pastoral.

Dou um exemplo: com a Igreja Ortodoxa, [cooperamos] constantemente na acção sóciocaritativa, mas não só.

 

7M/TSF – Das muitas actividades que desenvolveu, há duas que sobressaem: um restaurante e uma clínica dentária. Como é que isso aconteceu?

O Restaurante Social nasceu em 27 de Junho de 2011, no quadro da grande crise financeira e das consequências na vida das pessoas e das suas necessidades. E formámo-lo no quadro de uma reflexão com o Eugénio Fonseca e assente no voluntariado.

Até hoje, o Restaurante Social, mesmo durante a pandemia, teve sempre um grupo de voluntários, diferentes todos os dias da semana. Já ultrapassa mais de 350 mil refeições entregues e continua, infelizmente, a ser necessário naqueles bairros da periferia de Setúbal.

A Clínica Social Médica Dentária apareceu, igualmente, como uma resposta a algo que era uma evidência: começámos a reparar que muitas pessoas não tinham dentes, outras tinham os dentes podres, outras a boca cheia de abcessos, outras estavam desempregadas porque o visual não cativava o empresário, o empregador ou o patrão.

Criámos a Clínica em 2015, assente nos mesmos princípios, acreditando que no coração de tanta gente há uma imensa generosidade no voluntariado. Aproveitámos a experiência do restaurante social: toda a gente na Clínica é voluntária, exceto uma [pessoa]. Até 31 de Dezembro, havia já 6.762 pessoas tratadas, havia [mais de] 3.000 próteses dentárias e isso equivalia a [mais de] 21.000 consultas e actos médicos. Todos os médicos [e as outras pessoas] são voluntários.

São duas respostas sociais inovadoras, do ponto de vista social, porque englobam a participação de muita gente e respondem a uma necessidade social premente: infelizmente a saúde oral, juntamente com a saúde mental, são os grandes parentes pobres da saúde em Portugal.

 

7M/TSF – Isso não é concorrência desleal?

Não, porque não há ninguém a fazer isso. As clínicas privadas que existem têm preços incompatíveis com a capacidade das pessoas pobres. Mas toda a gente ali paga qualquer coisa: faz-se o diagnóstico das condições, da pobreza nas famílias. As pessoas não podiam ir às clínicas – basta dizer que na nossa avenida há três clínicas privadas.

O Serviço Nacional de Saúde, infelizmente, não dá resposta, mínima sequer, a esta necessidade que é prioridade na vida das pessoas.

Luís Martins Ferreira, sindicatos, trabalhadores, trabalho, manifestação,

Fotografia na exposição Liberdade. A força que muda tudo: “O sindicalismo não está ultrapassado, porque um trabalhador sozinho é um trabalhador enfraquecido, Foto © António Marujo/7MARGENS

7M/TSF – Padre operário, também pôs os pés na Universidade Católica…

Sim, como diria a Madre Teresa de Calcutá, não precisamos só de fazer o bem, temos de fazer bem o bem. Para que as nossas respostas sociais pudessem ter qualidade, entendi que devia apetrechar-me de conhecimentos intelectuais, académicos. Daí, ter feito o mestrado de Serviço Social na Católica em 2014.

 

7M/TSF – Além da Católica, frequentou o instituto de Gestão?

O ISEG, de Economia e Gestão, onde estou actualmente na fase da tese de doutoramento em Sociologia Económica das Organizações, precisamente sobre um projecto de inovação social, que é a nossa clínica social médica dentária. Estou na escrita da tese.

 

7M/TSF – O que está a acontecer hoje aos sindicatos e aos sindicalistas? Os sindicatos perderam a batalha contra o capital e o liberalismo dominante?

Quando há greves em Portugal, há longas filas nos transportes públicos; de vez em quando, aparecem notícias ou imagens de trabalhadores à frente de fábricas que encerram ou não pagam os salários, e vemos aí bandeiras sindicais.

Isto também é um assunto muito complexo e há diversas abordagens. Os sindicatos também são a expressão daquilo que se passa na sociedade: estamos numa cultura de muito individualismo, numa realidade em que cada vez mais se acentuam certos poderes económicos, políticos, financeiros.

Há uma desigualdade crescente na correlação de forças entre as organizações dos trabalhadores e as outras organizações poderosíssimas; há a precarização e a vida precária de tantos trabalhadores que vivem numa insegurança permanente – e aquilo que já recebem é tão pouco, porque iriam pagar ao sindicato a sua cota?

Há o receio também de não ser renovado o contrato ou a dificuldade de criar laços permanentes porque os sindicatos implicam necessariamente a dimensão dos laços que se vão criando. Um trabalhador que trabalha três ou quatro vezes numa fábrica ou num call center [não consegue manter esses laços], isto está tudo ligado.

Mas devemos dizer que os sindicatos não têm conseguido acompanhar novas realidades, problemas e desafios e tantas formações na organização do mundo do trabalho. E muitas vezes ainda vão perpetuando formas, slogans já com dezenas de anos. O esvaziamento do número de sócios (ainda há dias a UGT referia que tinha perdido milhares de filiados, a CGTP é a mesma coisa), também faz com que os seus dirigentes ou delegados fiquem cada vez mais ligados à estrutura, ao esqueleto e não à proximidade dos trabalhadores.

Há umas dezenas de anos, o sindicalismo era muitíssimo forte, mas havia uma presença permanente de muitos sindicalistas, de agentes sindicais que percorriam as empresas no dia-a-dia. [Mas] o sindicalismo não está ultrapassado, porque um trabalhador sozinho é um trabalhador mais enfraquecido, mais dependente na correlação de forças do seu empregador ou do seu patrão e é um trabalhador que começa a viver apenas para produzir e perde a alegria, a riqueza de criar laços com outros, em associações.

Criança brinca com robô. Inteligência Artificial. Foto Pavel Danilyuk de Pexels

Criança com robô: os trabalhadores têm de conhecer a Inteligência Artificial. Foto Pavel Danilyuk/Pexels.

7M/TSF – A inteligência artificial vai necessariamente tocar o universo operário e dos trabalhadores?

Sem dúvida que sim. Implicará muito conhecimento das aplicações da Inteligência Artificial, o conhecimento daquelas realidades em que a IA já está a ter fortíssima influência e impacto na organização e no tipo de trabalho que se produz. Os trabalhadores têm de conhecer: tal como há uns anos fizeram a reflexão sobre a introdução das novas tecnologias no mercado de trabalho e houve uma evolução lenta mas também progressiva, [têm de fazer] o mesmo com a IA.

 

7M/TSF – Como olha para este mundo das alterações climáticas, a proliferação de guerras, o agravamento das desigualdades… Está preocupado? O que mais o preocupa?

O que mais me preocupa são as vítimas dessas várias realidades: as pessoas mais enfraquecidas, mais desprotegidas, mais pobres.

As guerras são algo de irracional para o nosso tempo, para um ser humano. Aquilo que se vê é irracional, incompreensível: as desigualdades sociais, quando cada vez há um número de pessoas ou estruturas ou organismos cada vez mais poderosos e ricas e cada vez mais vemos trabalhadores pobres, mesmo trabalhando. Antigamente um salário dava para pagar a renda de casa, dava para pagar a alimentação.

Tudo isso preocupa, mas um cristão não pode ser um louco que não faz uma análise ponderada daquilo que se passa, mas deve ser também alguém que cultiva a esperança, que acredita que o sal, a luz e o fermento são uma presença do invisível que é Deus, que é o Espírito de Deus neste mundo e deve olhar com esperança. Vemos com enorme preocupação os rios de sangue a correr, gente mirrada pela fome, pelo desespero ou pelo medo nas migrações ou as catástrofes das alterações climáticas; mas um cristão tem de ter esperança.

O Papa Leão XIV conversa com jornalistas a bordo do avião papal com destino a Beirute. Foto © Vatican Media.

Leão XIV na viagem com destino ao Líbano: “Uma voz importantíssima.” Foto © Vatican Media.

7M/TSF – O que pensa da atitude do Papa frente a este mundo? É uma voz incómoda?

O Papa Leão XIV tem vindo a afirmar-se com uma identidade muito pessoal, como alguém muito livre para expressar a sua opinião, da Igreja inspirada pelo Evangelho, pelo pensamento social cristão, [sobre] as grandes questões do mundo, da paz, da dignidade da pessoa humana, do direito dos migrantes, contra a pena de morte, enfrentando ventos e marés, populismos e tudo o mais.

É uma voz importantíssima e oxalá que ele possa recuperar plenamente as suas faculdades – e uno a minha prece nesse sentido –, para poder continuar o seu ministério.

 

7M/TSF – Que livro anda a ler?

Ando a ler, porque anteriormente não tive oportunidade, e a digerir lentamente a Magnificat Humanitas, [a encíclica do Papa Leão sobre] este quadro da Inteligência Artificial.

No dia 27 de Setembro terminei dezenas de anos de uma vida, de um ritmo intensíssimo, de doação até ficar um bocado mirrado por dentro, também pelo peso das estruturas, das responsabilidades, da dinâmica de tudo isso. Agora estou nos dias de apaziguamento interior, de uma aquietação interior para ler aquilo que possa escolher, não aquilo que seja em função de…

 

7M/TSF – Que música é que um padre operário ouve e que música gostaria de ouvir no final desta nossa conversa?

Um padre operário que continua a sê-lo por coração, gosta muito de música clássica; também gosta de recordar as músicas de intervenção do 25 de Abril; gosta de ouvir fado e gostaria de gostar da música que a juventude hoje gosta e canta, mas não tem o sentido rítmico e tem outra sensibilidade.

A música que gostaria de ouvir é Carmina Burana, a obra de Carl Orff. Segundo li, trata-se da história da revolta de um conjunto de monges, em relação à estrutura em que viviam. Trata-se de uma explosão de vida, de criatividade, de sonho…

 

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Ensaio

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Comecei o dia a interrogar a minha assistente pessoal (IA, Notion) sobre o Halloween, o dia de Todos os Santos e o Pão por Deus. Adoro festas, brincadeiras e celebrações – quem não gosta? A polarização e o antagonismo são geradores de tensões e conflitos – não promovem o diálogo e o reconhecimento do Outro, daquele ou daquela que são diferentes de nós. [Texto de Margarida Belchior].

Recém-criada Aliança Inter-Religiosa pela Paz apela ao envolvimento de todos

“Chuva Pacífica”

Recém-criada Aliança Inter-Religiosa pela Paz apela ao envolvimento de todos

“Uma única gota de chuva parece insignificante. Não pode apagar um incêndio. Não pode parar uma guerra. Não pode curar todas as feridas da história. Mas uma multidão de gotas pode humedecer a terra seca e permitir que uma nova vida brote dela. O mesmo acontece com a construção da paz”. É com esta imagem de um simples pingo de chuva que acaba de ser constituída na cidade croata de Rijeka a Aliança Mediterrânea para a Paz.

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