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Cristo crucificado na sacristia da cripta da Basílica da Santíssima Trindade, Santuário de Fátima. Foto: Direitos reservados.
Lígia Rodrigues, “Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste”, Cristo crucificado na sacristia da cripta da Basílica da Santíssima Trindade, Santuário de Fátima. Foto: Direitos reservados.

Jornadas dos Bens Culturais

“Uma pintura de Van Gogh pode ser mais religiosa do que a representação do martírio de São Sebastião”

| 15/10/2026

“Uma pintura de Van Gogh pode tocar mais profundamente e ser, no seu efeito espiritual, mais religiosa do que a representação explícita do martírio de São Sebastião”, diz, citando o padre António Vaz Pinto, uma das artistas que nesta sexta-feira, 16, participa nas Jornadas da Pastoral dos Bens Culturais, da Igreja Católica. Estará em debate “a importância dos bens culturais na acção de evangelizar e de anunciar da Igreja Católica”, uma dimensão que “tem sido claramente desvalorizada”.

 

A arte contemporânea pode ser um “lugar privilegiado de encontro com Deus enquanto linguagem viva do presente” e há artistas, mesmo não crentes, capazes de “colherem do transcendente a essência do que querem comunicar – a qualidade da intervenção artística não depende do credo dos artistas”, mas daquela capacidade.

Lígia Rodrigues, artista e autora da intervenção na Ermida de Nossa Senhora da Encarnação, no Carvoeiro (Lagoa), refere-se deste modo à importância dos bens culturais na acção de evangelizar, tema das terceiras Jornadas da Pastoral dos Bens Culturais da Igreja, que decorrem nesta sexta-feira, 16, no Museu Diocesano de Lamego, junto à sé.

Trata-se de colocar “no centro da reflexão a importância dos bens culturais na acção de evangelizar e de anunciar da Igreja Católica”, uma dimensão que “tem sido claramente desvalorizada”, diz ao 7MARGENS Fátima Eusébio, directora do Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja Católica (SNBCI), responsável pela iniciativa (ver caixa ao fundo deste texto).

A iconógrafa Tânia Pires, autora de um painel sobre a misericórdia, inaugurado há dias na catedral de Bragança, e outra das artistas que participa no debate com que o encontro concluirá, irá reflectir sobre os bens culturais, especialmente a arte sacra, “como mediadores de um percurso mistagógico: a partir da beleza visível e do mistério que as obras convidam a contemplar, é possível mergulhar numa experiência profunda com Deus, aumentando a fé e abrindo caminho à autodescoberta e à transformação interior”.

“É bem verdade” que há por vezes uma “proliferação de obras de qualidade duvidosa”, admite ao 7MARGENS Lígia Rodrigues, que tem já várias obras no Algarve, região de onde é natural, e que foi autora também de uma série de postais do Advento na Capela do Rato, em Lisboa.

Além das já referidas, a artista foi autora da peça oferecida pelo Santuário de Fátima ao Papa Francisco, em 2017; de um Cristo crucificado na sacristia da cripta da Basílica da Santíssima Trindade, também em Fátima; Cristo é a Luz, peça na exposição Símbolo, Luz de Niceia, exposta em 2025 na catedral/mesquita de Córdova (Espanha); e interveio na Capela das Irmãs Reparadoras de Nossa Senhora das Dores de Fátima, na Igreja de Nossa Senhora de Fátima em Montenegro (Faro) e na Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, em Viseu, com um mosaico na pala de altar alusivo ao Cântico das Criaturas.

 

“Atitudes bastante infelizes”

Lígia Rodrigues, Santuário de Fátima, Arte, Escultura, "Promessa"

Lígia Rodrigues, Promessa. Oferta do Santuário de Fátima ao Papa Francisco pela celebração do centenário dos acontecimentos de Fátima (2017). Foto: Direitos reservados.

Confrontando-se com esse mau gosto que por vezes impera, Lígia Rodrigues diz que há um papel importante dos responsáveis católicos: “Vivemos num país onde a cultura deixa muito a desejar, o que se verifica em várias escolhas e nos processos de intervenção no espaço sagrado. Basta que o pároco ‘goste ou não goste’ de algo para intervir por vezes com atitudes bastante infelizes.” E compara: noutros âmbitos, recorre-se a “profissionais com formação e experiência comprovadas”; quando se trata de arte “todos se sentem capazes de ser considerados artistas, como se a arte não fosse” uma questão “séria”.

Lígia Pires considera, assim, que “a desvalorização” da arte na sua potência e qualidade resulta “numa fé que se liga mais a formas imediatas de sentimento e muitas vezes fanatismos e idolatria do que no encontro com o mistério, o que resultaria num empenho real e entusiasmante do nosso papel na vida”.

A artista entende, assim, que “a contemporaneidade da arte não é apenas uma opção de linguagem, mas uma expressão da própria missão da Igreja, corpo de Cristo, chamada a prolongar na história a presença viva do ressuscitado”. E acrescenta: “Se Deus encarnou num tempo e numa realidade concretos, é também na realidade de cada época que a Igreja é chamada a testemunhar a sua presença, tornando visível e actuante a esperança da Ressurreição.”

Este desiderato pressupõe, na perspectiva da artista algarvia, “uma atitude de escuta e discernimento das inquietações, contradições e desafios do nosso tempo”. Pela capacidade que tem de “questionar padrões estabelecidos, deslocar perspectivas e abrir novas possibilidades de compreensão, a arte contemporânea pode tornar-se um espaço fecundo de diálogo entre a fé e o mundo”, diz.

“Não se trata apenas de comunicar respostas, mas de acolher as perguntas da humanidade e, à luz da ressurreição, abrir caminhos de transformação e esperança.” No fundo, trata-se de fazer “tal como Jesus, que “interpelava as certezas e estruturas cristalizadas do seu tempo, revelando a novidade do Reino: também a arte pode desafiar a Igreja e o mundo a ultrapassar os seus próprios limites, tornando-se lugar de encontro, de escuta e de abertura à acção renovadora de Deus na história”.

 

O medo muito afirmado do “vazio”

Lígia Rodrigues, Catedral-Mesquita de Córdova, Arte, Escultura, Cristo

Lígia Rodrigues, Cristo é a Luz, exposição Símbolo, Luz de Niceia (2025), na catedral-mesquita de Córdova. Foto: Direitos reservados.

Está em causa, considera Lígia Rodrigues, ter também neste campo uma perspectiva alinhada com o Concílio Vaticano II, de uma “realidade encarnada de um Deus que entrou na História e a mudou porque ficou próximo”. A liturgia torna presente essa realidade, acrescenta, “quando a sacralidade e a simplicidade se encontram na participação de todos” e, depois desse encontro se parte para a vida de todos os dias conscientes da “presença do Ressuscitado, que passa no mundo comunicando a alegria, acompanhando a solidão, curando e servindo, como fazia Jesus”.

“Estamos ainda longe de concretizar o Concílio Vaticano II, por diversos motivos, entre os quais a necessidade de afirmação do poder, a segurança que nos proporcionam as formas afastando-nos do empenho, o medo da criatividade, a falta de humildade, enfim, a nossa humanidade”, que se fatiga “em descobrir a liberdade dos filhos de Deus apesar e justamente pela riqueza das diferenças”. E, acrescente-se, há “também um medo muito afirmado do ‘vazio’ dentro de uma sociedade onde o barulho é contínuo, solicitando cada vez máscaras mais elaboradas”.

As questões trazidas pela arte partem “sempre da experiência humana: se temos medo de nos encontrarmos com Deus naquela essência onde, nus, nos reconhecemos dignos da relação que nos [conduz] sempre ao nosso verdadeiro eu”, então há a tendência de “recuperar formas que nestes tempos asseguram distância e submissão a um Deus desencarnado, demasiado ‘sagrado’ para que O reconheçamos entre nós”. Mas, admite ainda, esta é uma observação não absoluta, pois “pode ser que outros se sintam mais próximos de Deus nas formas do passado, talvez por falta de testemunho das nossas vidas”.

Cada tempo, conclui Lígia Rodrigues, deve “deixar a sua marca na história, a nossa pegada de luz como testemunho nos tempos em que vivemos”. Isso implica integrar “a consciência do que no passado fez vibrar multidões e produziu santidade: há um património sagrado na vida da Igreja que não se perde, mas não mumifica”.

 

Uma arte verdadeiramente ecuménica

Tânia Pires, Capela Monte Tabor, Bragança, Arte, Ícones

Tânia Pires, intervenção na Igreja de Santa Maria Madalena (Rapoula do Côa, Sabugal). Foto: Direitos reservados.

A Tânia Pires, que tem trabalhado sobretudo em Trás-os-Montes, interessa-lhe reflectir sobre um “percurso composto por três momentos: o visível, o processo de transformação e o invisível”, afirma, em declarações ao 7MARGENS. Mais do que analisar as obras em si, diz, interessa-lhe “compreender o seu potencial como agentes de transformação espiritual, ou seja, de que forma despertam o olhar, a interioridade e como conduzem ao encontro com o mistério”.

Além do mural na Capela da Misericórdia da Catedral de Bragança, Tânia Pires já interveio nas igrejas de Castanheiro do Sul (São João da Pesquira), Rapoula do Coa (Sabugal), Lombo (Macedo de Cavaleiros) ou Santo Condestável (Bragança). Sobre o seu trabalho, centrado na escrita de ícones, a artista considera-os “a arte cristã mais pura”, por “corresponderem às primeiras imagens cristãs”. Os ícones contrariam “toda a natureza do tempo actual” e, também por isso, Tânia Pires acredita “no seu potencial para os dias de hoje”.

Durante séculos os ícones “eram escritos apenas por monges, a partir de regras próprias e com um estilo de vida muito particular”. Hoje, a artista considera que, enquanto iconógrafa, é chamada a cultivar a sua vida interior e a orientar a sua forma de vida com a consciência de que o ícone também é reflexo do ser e da própria existência: “Deve transmitir harmonia e essa harmonia torna‑se também testemunho silencioso de um estilo de vida mais digno, mais humano e mais verdadeiro.” Ou seja, os ícones são “também um acto de resistência perante este tempo moderno, situando-se entre um tempo divino e um tempo verdadeiramente humano”.

Além do mais, os ícones “surgiram antes da divisão da Igreja, pelo que se trata de uma arte verdadeiramente ecuménica: estamos numa época da história que nos convida à união, à contemplação e a um encontro profundo com Deus; a espiritualidade e a contemplação dos ícones abre espaço para esse encontro”.

Quando intervém em espaços já construídos, Tânia Pires confronta-se com um desafio “sempre interessante: conjugar linguagens que são, por norma, muito distintas”. Mas o ícone “permite uma transformação espiritual do espaço” e um diálogo entre as diferentes linguagens, mesmo se “é mais difícil integrar a linguagem dos ícones” em arquitecturas com mais adornos e informação. “Os espaços contemporâneos, por norma, tendem à neutralidade e ao vazio e o ícone leva densidade simbólica, narrativa e teológica, impõe a calma, o silêncio e a contemplação, o que normalmente se conjuga muito bem na arquitectura contemporânea.” No final, “a linguagem dos ícones é tão específica e tão forte que impõe uma lógica espiritual ao espaço”.

 

“Uma inquietação interior”

Tânia Pires, igreja de Castanheiro do Sul, Baptistério, Arte

Tânia Pires, Baptistério da igreja de Castanheiro do Sul (São João da Pesqueira). Foto: Direitos reservados.

No debate sobre a arte contemporânea e a sua relação com a dimensão do sagrado ou do espiritual, Tânia Pires diz que “há artistas crentes com uma espiritualidade imatura e isso transparece para a sua prática artística; outros, embora não sejam crentes, vivem uma inquietação interior que os leva a criar a partir da profundidade de si mesmos, num verdadeiro processo de crescimento espiritual.”

Cita Wassily Kandinsky que descrevia a “necessidade interior” como “a voz que o artista deve escutar para que a sua obra nasça da vida interior”. Ou o padre jesuíta António Vaz Pinto, que morreu em 2022 e recordava “que toda a arte verdadeiramente autêntica, ao revelar a beleza e a verdade do ser, se torna de algum modo religiosa, pois desperta esperança, abre o desejo de transcendência e aponta para um ‘mais’ que ultrapassa o visível”.

A artista transmontana diz que, assim sendo, e como referia António Vaz Pinto, “uma pintura de Van Gogh pode tocar mais profundamente e ser, no seu efeito espiritual, mais religiosa do que a representação explícita do martírio de São Sebastião”. Assim, “o essencial”, mesmo no contexto da evangelização, “é que o artista seja autêntico, que crie a partir da sua própria interioridade, que revele a sua essência, a sua missão e a sua verdade, colocando-as ao serviço, inclusive em espaços religiosos”, afirma. “Tal como a religião, a arte tem a capacidade de religar o humano ao divino e, por isso, é importante que o artista seja fiel à sua essência, ao que sonha e ao que imagina, criando obras que conduzam à liberdade interior, à beleza, à harmonia, à transformação e à contemplação.”

 

Cooperação ibérica

Tânia Pires, Ressurreição, Arte, Castanheiro do Sul

Tânia Pires, Sacrário e mural da Capela Monte Tabor, Bragança, 2021. Foto: Direitos reservados.

Além das jornadas de sexta-feira, o SNBCI promove a reunião do Conselho Nacional dos Bens Culturais da Igreja, que contará (tal como a iniciativa de sexta-feira) com a participação do director nacional de Património da Igreja Católica em Espanha, padre Pablo Delclaux de Muller.

Este fará uma apresentação sobre os modelos de organização, dinâmicas de trabalho e experiências “que poderão inspirar novas formas de actuação, valorizando o intercâmbio de conhecimentos e a aprendizagem mútua”, explica Fátima Eusébio. Do diálogo poderão mesmo surgir “possíveis projectos de cooperação entre Portugal e Espanha, aproveitando a proximidade histórica, cultural e religiosa dos dois países”.

Iniciativas conjuntas de formação, partilha de boas práticas, valorização e divulgação do património, desenvolvimento de recursos para a sua interpretação pastoral e promoção dos bens culturais como instrumentos de evangelização são alguns dos âmbitos referidos pela responsável portuguesa como áreas onde a colaboração pode ser possível.

O Conselho Nacional é o órgão consultivo do SNBCI, composto por um delegado de cada diocese e alguns delegados convidados de outros organismos da Igreja.

Nas jornadas, trata-se de reflectir de que modo “pode uma igreja, uma imagem, um retábulo, um órgão, uma peça de ourivesaria ou um documento histórico” tornar-se “muito mais do que objectos de contemplação estética”. Ou constituir mesmo “portas de entrada para a compreensão da fé” despertando “perguntas sobre o sentido da vida, suscitando “a procura espiritual” e proporcionando “oportunidades de encontro com a mensagem cristã”

 

A centelha do humano

Tânia Pires, Painel da Ressurreição, Igreja de Castanheiro do Sul (São João da Pesqueira), 2026. Foto: Direitos reservados.

“A beleza, a memória e a linguagem simbólica da arte podem abrir caminhos de diálogo com pessoas que, embora distantes da prática religiosa, permanecem sensíveis à cultura, à história e à dimensão espiritual da existência”, diz a directora do SNBCI, Fátima Eusébio, a propósito do encontro desta sexta-feira, no Museu Diocesano de Lamego.

Um objectivo coincidente com a afirmação do Papa Leão, no início do mês, quando dizia, num discurso a artistas e curadores, que “a cultura e a arte, quando são autênticas, conservam” a centelha do humano.

Realizadas anualmente, as jornadas de 2026 dão um passo em relação às edições anteriores. Sempre com o objectivo de “promover a reflexão, o conhecimento e a partilha de experiências sobre a salvaguarda e a valorização do património religioso”, já foram debatidos os desafios que se colocam à Igreja no domínio dos bens culturais (2024) e a importância da conservação e restauro, intervenção tecnicamente qualificada e acompanhamento especializado (2025).

O programa deste ano pretende enquadrar o tema em âmbitos como a catequese e o ensino da Educação Moral e Religiosa Católica, a liturgia, o turismo, a museologia e a arte contemporânea.

Nas jornadas, participam ainda a professora italiana Barbara Aniello, o jesuíta, arquitecto e professor João Norton, os responsáveis do Secretariado Nacional da Educação Cristã, Fernando Moita e António Cordeiro, o director do Museu do Santuário de Fátima, Marco Daniel Duarte e os artistas Paulo Neves (escultor) e Christopher Sousa (padre de Viana do Castelo).

A.M.

Lígia Rodrigues, "Cântico das criaturas", mosaico, arte, altar, igreja da Ordem Terceira de São Francisco, Viseu.

Lígia Rodrigues, Cântico das Criaturas, mosaico na pala de altar da igreja da Ordem Terceira de São Francisco, Viseu. Foto: Direitos reservados.

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