Jesus poderia ter surgido no palco do mundo de outra forma. Por exemplo: descer num disco voador; no alto duma montanha já homem feito; num palácio, mas não… Ele fez-se um Deus-Menino que ousou ser gerado no útero de uma mulher e nascer como os demais homens, tornando-se assim comparticipante da Sua Criação. Tal acontecimento induz a algumas conclusões.
O Deus Incarnado remete para a dignificação geral de todo o ser humano
Lemos no Salmo 8: “Que é o homem mortal para que te lembres dele? e o filho do homem, para que o visites? Pois pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste (v 4,5).” Apesar de sujeito ao pecado, todo o ser humano transporta em si a Imago Dei (imagem de Deus), que é a “glória e honra” de que fala o salmista.
Ao fazer-se homem Jesus veio dignificar todo o ser humano, sem distinções de qualquer espécie.
O Deus Incarnado remete para a dignificação específica da Mulher

“(…) foram mulheres a anunciar a ressurreição aos discípulos (…) Mulheres e a ressurreição. Imagem © Watchtower Online Library
As mulheres foram sempre diminuídas ou diabolizadas ao longo da história, e mesmo na história da fé cristã. Basta ver o que disseram altos dignitários da Igreja sobre a mulher em séculos passados, mesmo tendo em conta o contexto da mentalidade da época.
A Bíblia foi escrita por homens, embora inspirados pelo Espírito Santo, mas eles não eram robôs, todos escreveram de acordo com a sua cosmovisão, vocabulário e quadro de referências, não o esqueçamos. Talvez isso explique em parte porque as Escrituras começam com uma primeira mulher, Eva, que enganou o companheiro e o levou a desobedecer ao Criador, e termina com a figura simbólica da Grande Prostituta…
Para agravar, encontramos na própria genealogia de Jesus algumas mulheres com vidas moralmente muito problemáticas.
Mas, apesar da cultura patriarcal vigente, uma leitura atenta mostra que as Escrituras respeitam a Mulher. Maria é um exemplo de serva do Senhor; o Cristo Ressuscitado apareceu primeiro a uma mulher; foram mulheres a anunciar a ressurreição aos discípulos; muitas mulheres foram cooperadoras de Paulo; Paulo diz que em Cristo não há diferença de sexo; não há baptismos diferentes para homens e para mulheres; há estudiosos que defendem ter existido pelo menos uma mulher-apóstola que terá sido apagada da História; e os dons e os ministérios espirituais são para homens e mulheres indistintamente.
Ao incarnar no ventre duma simples mulher do povo, Jesus veio dignificar de vez todas as mulheres, a maternidade e a condição feminina.
O Deus Incarnado remete para a dignificação específica da Criança
No mundo antigo a criança era considerada um projecto de pessoa, e não contava com direitos próprios. Muitas vezes nem sequer era considerada como membro da comunidade, ao contrário do que sucede hoje em Portugal, uma vez que qualquer bebé recém-nascido sai da maternidade já com o seu documento de cidadania.
A criança só começava a ter valor social a partir da puberdade, cerda dos 12 anos, através dum rito de passagem como, por exemplo, caçar um leão, ou atirar-se do alto duma árvore alta preso no tornozelo por uma liana, a fim de provar a sua coragem, de modo a poder passar a emparceirar com os homens da tribo.
Ao nascer como um ser humano, ao enfrentar a fragilidade, a vulnerabilidade e a dependência dum recém-nascido, ao viver toda a infância, Jesus veio dignificar todas as crianças e a condição infantil.
Ao tornar-se comparticipante da sua Criação, Jesus provocou o maior dos escândalos para a cultura religiosa da época: o escândalo da Incarnação
Há quem não acredite na Incarnação, mas quem crê nela tem que se escandalizar, espantar, surpreender, deslumbrar. Ela só se explica pelo muito amor com que Deus amou o ser humano (cf. Efésios 2:4).
Jesus foi o maior missionário. Deixou o céu para vir a esse vasto campo de Missão chamado Humanidade: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (João 1:14).
José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.










