Com uma chamada de atenção para o “ateísmo prático” que muitas vezes existe mesmo entre cristãos, e para a necessidade de a Igreja Católica ir ao encontro das feridas do mundo, mesmo quando há pessoas que colocam a sua segurança na tecnologia, no dinheiro, no sucesso, no poder ou no prazer, o novo Papa Leão celebrou a sua primeira missa, na manhã desta sexta-feira, 9 de Maio, na Capela Sistina, com os cardeais que participaram no conclave de onde saiu eleito.
O até agora cardeal Robert Prevost, 69 anos, nascido em Chicago (Estados Unidos), mas que tem também nacionalidade peruana, teve o primeiro acto público com a celebração da missa na Capela Sistina, no mesmo lugar onde os cardeais se reuniram durante pouco mais de 24 horas para a votação, entre quarta e quinta-feiras. Na celebração, estiveram todos os 133 cardeais eleitores e também outros que, por terem já mais de 80 anos e não serem eleitores, não participaram no conclave.
Na homilia, Leão XIV afirmou que há lugares onde a missão da Igreja “se torna urgente, porque a falta de fé, muitas vezes, traz consigo dramas como a perda do sentido da vida, o esquecimento da misericórdia, a violação – sob as mais dramáticas formas – da dignidade da pessoa, a crise da família e tantas outras feridas das quais a nossa sociedade sofre, e não pouco”.
A expressão das feridas era cara ao Papa Francisco, que morreu no dia 21 de Abril. Pouco depois, o Papa Leão evocaria de novo o seu antecessor – e nestes pequenos sinais ele quererá insistir em mostrar a continuidade com os doze anos que agora terminaram. De qualquer modo, depois de ter aparecido na varanda central da Basílica de São Pedro com a murça e a cruz dourada, tradicionais dos papas, Leão XIV terá decidido regressar ao Palácio Apostólico e não residir na Casa de Santa Marta, como aconteceu com Francisco nos últimos 12 anos.
Há muitos ambientes onde se verifica que “não é fácil testemunhar nem anunciar o Evangelho”, disse ainda o Papa vindo dos EUA, ou mesmo “onde quem acredita se vê ridicularizado, questionado, desprezado ou, quando muito, suportado e digno de pena”. E também “não faltam contextos em que a fé cristã é considerada uma coisa absurda, para pessoas fracas e pouco inteligentes”, acrescentou. Concretizando em seguida: “Contextos em que em vez dela se preferem outras seguranças, como a tecnologia, o dinheiro, o sucesso, o poder e o prazer.”

Os cardeais na Capela Sistina, na primeira missa celebrada com os cardeais. Foto © Vatican Media.
O texto do evangelho que acabara de ser lido conta um diálogo entre o apóstolo Pedro e Jesus, em que este pergunta “quem dizem as pessoas que eu sou?”. A confissão de Pedro – “Tu és o messias, o filho de Deus vivo” – “expressa em síntese o tesouro que a Igreja guarda, aprofunda e transmite há dois mil anos”, disse Leão.
O novo Papa acrescentou, voltando um olhar crítico também para o interior da Igreja: “Ainda hoje, não faltam contextos nos quais Jesus, embora apreciado como homem, é simplesmente reduzido a uma espécie de líder carismático ou super-homem, e isto não apenas entre os não-crentes, mas também entre muitos baptizados, que acabam por viver, a este nível, num ateísmo prático.”
Mas é precisamente nesse mundo ferido e com essas realidades contrastantes que Leão XIV quer que os crentes estejam presentes: “Este é o mundo que nos está confiado e no qual, como tantas vezes nos ensinou o Papa Francisco, somos chamados a testemunhar a alegria da fé em Jesus Salvador”, afirmou, recordando o seu antecessor, que o nomeou cardeal em Setembro de 2023.
Recorrendo a uma linguagem metafórica e apresentando-se como bispo de Roma, como tantas vezes fazia o seu antecessor argentino, o novo Papa manifestou o desejo de que a Igreja “seja cada vez mais cidade colocada sobre o monte, arca de salvação que navega sobre as ondas da história, farol que ilumina as noites do mundo”.
Sobre a forma como os responsáveis da Igreja devem agir, Leão XIV disse que eles devem viver juntos a sua pertença a Deus “e levando a todos a sua Boa Nova”. “Digo isto, em primeiro lugar, para mim mesmo, como sucessor de Pedro, ao iniciar a minha missão de bispo da Igreja que está em Roma.” Mas há “um compromisso irrenunciável para quem, na Igreja, exerce um ministério de autoridade: desaparecer para que Cristo permaneça, fazer-se pequeno para que Ele seja conhecido e glorificado, gastar-se até ao limite para que a ninguém falte a oportunidade de o conhecer e amar”, concluiu.
(Uma versão alterada deste texto é publicada na edição deste sábado, 10, no Público.)










