Em 2023, num artigo publicado no Observador e no 7Margens, escrevi:
“Como é que se extirpa uma ideologia radical e uma organização cujo braço armado atinge os 100 mil homens? Bastará destruir as lideranças? As de primeira linha? As de segunda linha? As de terceira linha? Onde é que se para? (…) E uma vez dominado o território, como é que se mantém? Como é que se evitam as insurreições clandestinas, os atentados, as guerrilhas, as focos de resistência? Como, senão com “botas no terreno” durante muitos anos? É que, julgo eu, não basta entregar o território a uma nova autoridade, palestiniana ou internacional; é preciso que esta seja vista como legítima aos olhos do povo e do exército. E estarão dispostos esses muitos milhares que ontem cerravam fileiras no exército do Hamas, os soldados rasos ou os de baixa patente (porque nem todos são terroristas, e é irrealista crer na possibilidade de obliteração total de um exército de 100 mil homens) a prestar obediência à nova autoridade sem conflitos nem dissensões internas? Sem guerra-civil ou algo que lhe pareça?”
Hoje, é evidente que nunca foi verdadeiramente intenção do governo israelita colocar Gaza sob domínio de uma “nova autoridade”, palestiniana ou internacional. A intenção, hoje é patente, é anexar. Ponto final. Anexar e convidar a população a “emigrar voluntariamente”.
Obliterar o Hamas? Mas o que é, hoje, o Hamas? As lideranças, pelo menos em Gaza, já foram todas aniquiladas – e é duvidoso que aqueles que restam, no seu exílio dourado do Qatar, tenham realmente, nas circunstâncias atuais, qualquer real poder para influenciar o que se passa no terreno. Os objetivos operacionais, disse há poucos dias o antigo chefe do Shin Bet (secreta interna) Ami Ayalon, já foram todos atingidos – há um ano! Opinião partilhada pelo antigo chefe da secreta militar, Amos Malka.
O que significa isto? Significa, muito provavelmente, que o governo Israelita já não está realmente a lutar contra o “Hamas”, mas contra a própria população. Dito de outra forma: a organização “Hamas” que Netanyahu quer aniquilar definitivamente é a própria população, porque se confunde com ela. Hoje, quem luta e resiste não é, na esmagadora maioria, o “Hamas” em sentido estrito, mas uma população autóctone – os tais soldados de segunda e terceira linha, os que sobram –, antes de mais nada, palestinianos, filhos de palestinianos, movidos, suponho, pelo mais básico instinto de sobrevivência pessoal, cultural, étnica e nacional – e por muito ódio também, infelizmente.
A questão é mesmo esta: onde é que se para? Onde é que se diz-chega à matança? Há, felizmente, como já vimos, na sociedade e nas cúpulas israelitas, quem ache que esse tempo chegou. Porque entendeu que aniquilar o Hamas significaria, hoje, aniquilar o que resta de uma população, ou então convidá-la a “emigrar voluntariamente”. Porque entendeu claramente que se chegou a um ponto fulcral, perigoso e sem retorno, em que a escolha é entre parar ou levar a cabo uma limpeza étnica, e não está disposto de modo nenhum a deixar-se arrastar para a segunda opção. Por respeito a si mesmo, a Israel e a todo o povo judeu e à sua história. Pois é impossível aniquilar uma ideia, um nacionalismo – e os israelitas sabem-no tão bem, porque o viveram tanto e de forma tão profunda durante milénios! –, especialmente se o rega o sangue de tantos mártires – e que tem feito Netanyahu e companheiros nos últimos dois anos senão criar mártires? – ou seja, dar de beber ao ódio e ao nacionalismo palestiniano?
É irrealista crer que a anexação de Gaza, mesmo que uma pequena percentagem da população aceite “emigrar voluntariamente”, seja pacífica para Israel no médio-longo prazo. Não acredito, além do mais, que a população israelita e grande parte dos responsáveis militares estejam dispostos a pagar o preço de uma “pacificação total” daquele território, a qual pode bem durar anos, senão décadas. Preço a pagar em recursos financeiros, credibilidade internacional, isolamento quase total – inclusive em relação aos países árabes com quem, até há bem pouco tempo, se preparava para regularizar relações –, mais antissemitismo global, e, acima de tudo, sangue israelita.
Israel é uma democracia com uma sociedade civil heterogénea, fervilhante e esclarecida; as brechas no sistema, especialmente nas hierarquias militares, já começam a estar bem visíveis, impossíveis de ocultar. Suspeito que, em breve, haverá grandes mudanças políticas em Israel, e que os planos da atual clique fanática que governa o país não tardarão a gorar-se de forma lamentável, mas exemplar. Um novo ciclo iniciar-se-á. Negociações sérias com a Autoridade Palestiniana serão iniciadas, bem como com o Egipto e outros países árabes, no sentido de criar condições para a criação de uma autoridade palestiniana forte, séria e competente. Idealmente, seria criada uma autoridade tri ou quadripartida, constituída por países árabes e pelas Nações Unidas, e suportada por uma força militar conjunta e membros dos capacetes azuis. Israel também poderia entrar nessa força conjunta, dependendo do consentimento das restantes partes, desde que concordasse à partida, sem ambiguidades, com a criação de um futuro estado palestiniano unificando Gaza e a Cisjordânia.

Foto © Alexandra Lucas Coelho (do livro “Gaza Está em Toda a Parte)
Essa autoridade teria a responsabilidade de reconstruir Gaza, pacificá-la – suprimindo focos remanescentes de terrorismo ex-Hamas, ex-Jihad, etc. –, tratar da questão humanitária mais premente e edificar, em colaboração estreita com o melhor das elites palestinas – técnicas, intelectuais, profissionais, etc. – as instituições do futuro estado. Ao mesmo tempo, todos os esforços desta autoridade e do governo israelita deveriam ser no sentido de integrar, o mais possível, economicamente e noutros domínios, o futuro estado palestiniano e o estado de Israel. Fazê-los colaborar, ab origine, em domínios chave, como a gestão dos recursos hídricos, a segurança, indústrias base, etc. Num território tão pequeno para dois povos – sendo que um deles ficaria, literalmente, partido em dois –, tal integração, mais do que um simples capricho, constitui uma necessidade de longo prazo. Mais integração e interdependência também significa um incentivo muito concreto para uma paz real. Porque, em princípio, não se tenta prejudicar o vizinho se isso significa prejudicar-se a si próprio. E a longo prazo, com a sucessão das gerações, os laços e a confiança mútua tenderão a fortalecer-se.
Inspiro-me aqui, em parte, nas palavras de Samuel Pisar, judeu polaco, ex-interno de Auschwitz, que, primeiro, no livro As armas da paz (1971) e, depois, em O Sangue da Esperança (que li recentemente), preconizava precisamente a integração económica e noutros domínios como “arma de paz” e reconciliação entre povos. Pisar pensava, em primeiro lugar, nos dois blocos antagónicos da Guerra Fria, demoliberal e comunista, mas também a considerava indispensável para a aproximação entre árabes e judeus. Ele, que não deixava de ser um convicto sionista, escreveu em 1979:
“Não haverá realmente areia suficiente no Médio-Oriente para permitir que os poucos milhões de refugiados judeus e árabes dos holocaustos da História coabitem na sua pátria ancestral comum?(…) Há mais de três décadas que árabes e judeus pagam um pesado tributo em vidas humanas e bens materiais. Os seus conflitos armados e boicotes económicos não resolveram nada. Os dois inimigos continuam à mercê dos caprichos políticos das grandes potências, ao mesmo tempo que orçamentos de defesa esmagadores agravam a miséria dos seus povos, até que a viagem corajosa do presidente Anwar Sadate a Jerusalém acendeu uma luzinha de esperança: recomeçarão a viver e a trabalhar juntos? (…) Shimon Peres (…) revelou-me um dia a sua ambição de desviar a longo prazo essas verbas utilizadas para fins militares, de modo que passassem a ser aplicadas para um desenvolvimento pacífico, assim como as suas ideias sobre a criação de um mercado comum próspero à escala da região, que nos permitiria implementar uma coexistência orgânica [itálico meu] com os árabes. Só assim, e não com os vastos territórios que conquistámos pelas armas, Israel poderá acolher todos os exilados – principalmente os judeus russos.”[1]
Não obstante todos os desenvolvimentos que ocorreram depois que estas palavras foram escritas, julgo que, no essencial, é esta a visão que deve servir de horizonte às elites israelitas – e árabes – do futuro. Maior integração económica, social, cultural, para uma coexistência cada vez mais plena e orgânica. Mas, primeiro, é preciso dar uma oportunidade à Palestina para que tenha um estado a sério, solvente, sólido, se possível democrático (o que não será de todo fácil, tendo em conta o panorama geral do mundo árabe, o que não quer dizer que, com tempo e o crescer das interdependências, não venha a ser perfeitamente possível), congregando para esse esforço o maior número possível de estados árabes – e não só. É do interesse de Israel a longo prazo, e de todo o mundo, porque uma paz efetiva e frutífera entre israelitas e árabes na Palestina beneficiará todo o Médio-Oriente, e, no geral, as relações entre o Ocidente e o mundo islâmico. Fará retroceder o terrorismo e promoverá, em toda a parte, uma maior segurança das minorias, quaisquer que elas sejam – cristãos, judeus, árabes, mulheres, crianças, homossexuais, etc.
[1] PISAR, Samuel, O Sangue da Esperança, trad. de Maria do Carmo Cary, Lisboa, Publicações Europa-América, 1979, pp. 255-256.
Ruben Azevedo é professor e autor dos livros Enigma – Noemas em torno do Mistério do Ser e do Existir e What saves us?: Selected writings on Absolute, Consciousness, Freedom, Meaning.










