“É urgente o amor. É urgente um barco no mar.”
(Eugénio de Andrade)
O mundo parece hoje um “lugar estranho” e, no entanto, em muitos aspetos continua a assemelhar-se a “lugares” já conhecidos do passado — lugares que pensávamos longínquos e impossíveis de repetir.
Tal como aconteceu recentemente, durante a pandemia da covid-19, voltei a procurar explicações na literatura e percebi que a essência humana — para o bem e para o mal — permanece, e por isso se repete. Será inevitável?

Albert Camus, no seu livro A Peste, escrito após a II Guerra Mundial, descreveu comportamentos reativos que nos soam familiares em situações de crise: a negação e a acusação. Primeiro, duvida-se e nega-se — “é um mau sonho que vai passar”, “não pode durar muito” — e, em seguida, acusa-se: «o mal vem de fora».
Este eco conduziu-me a Primo Levi e ao seu livro Se Isto é um Homem: “pode acontecer que muitos, indivíduos ou povos, julguem, mais ou menos conscientemente, que «todos os estrangeiros são inimigos».” Levi alerta-nos de que foi precisamente desta perceção que nasceram os campos de extermínio. Para ele, era urgente testemunhar, despertar consciências e apelar a todos para que permanecessem vigilantes.
O testemunho de Levi — jovem químico capturado e deportado para Auschwitz em 1943 e libertado em 1945 — recorda-nos a destruição, a violência e a guerra, mas também a resiliência humana. O seu livro descreve a desumanização — “não foi fácil, não foi rápido, mas os alemães conseguiram-no” — e, ao mesmo tempo, evoca sinais efémeros de esperança, quando alguns companheiros lhe lembravam que ser humano é não perder a humanidade. Levi foi, afinal, um sobrevivente.
Em 1979, o sociólogo Aaron Antonovsky apresentou o conceito de Sentido de Coerência (SCO) para explicar a resiliência humana perante a adversidade. A sua ideia central é que, mesmo diante do sofrimento e do inevitável stress inerente à condição humana, existe a capacidade de encontrar sentido e ordem — força essencial para resistir e sobreviver. Essa visão traduz-se na urgência de sobreviver em cada crise, mas também nas múltiplas formas de exclusão e medo que atravessamos.

Primo Levi disse-o de outra forma: Parece-nos, no entanto, digno de atenção este facto: verifica-se que existem entre os homens duas classes particularmente bem distintas: os que se salvam e os que sucumbem.
Camus revelou a repetição das reações humanas perante a peste; Levi, o perigo da indiferença e do preconceito; Antonovsky, o Sentido de Coerência como elemento capaz de integrar o caos e recuperar a dignidade. Todos nos recordam, entre outras coisas, que sobreviver é mais do que resistir fisicamente — é preservar a humanidade.

Também Patti Smith, em Apenas Miúdos, livro de memórias sobre a sua juventude e a amizade com o fotógrafo Robert Mapplethorpe, lembra que a sobrevivência precisa de algo simples e profundamente humano: “O riso. Um ingrediente essencial à sobrevivência.”
O mundo parece hoje estranho, sério, reativo e agressivo. O que me leva a perguntar: como resistir a esta realidade incompreensível? Como está o nosso sentido de coerência? E a nossa humanidade — a empatia? E, afinal, como está o nosso riso?
Marta Cerqueira é antropóloga de formação académica, trabalha na área da formação, crê em Deus e na humanidade (mesmo nos dias mais difíceis).










