A arte de meditar
“Eis que habitáveis dentro de mim, e eu lá fora a procurar-Vos”
(Santo Agostinho)
De há uns anos para cá temos vindo a assistir a um movimento de divulgação e adesão à meditação, cujos ecos nos chegam através de partilhas ou de anúncios nas nossas ruas ou nas redes sociais. São modelos de meditação inspirados, na sua maioria, em práticas budistas ou hindus. A adesão é considerável, sobretudo entre as camadas mais jovens. Procura-se na meditação uma forma de fugir ao activismo e ao stress do dia-a-dia que, sobretudo no Ocidente, vai consumindo as nossas vidas, e também um meio de encontro consigo próprio. Fomos buscar este instrumento ao Oriente como se, mais uma vez, “do Oriente nos viesse a salvação”…
A meditação, no entanto, também faz parte da tradição cristã. Nos inícios do cristianismo, praticava-se entre os Padres do Deserto [eremitas dos primeiros séculos] e entre os monges. Já no século IV, João Cassiano falava em rezar repetindo um versículo de um salmo, que podemos equiparar ao que hoje chamamos “mantra”, palavra de origem oriental que em sânscrito significa “instrumento para conduzir a mente”. Ainda no século IV, os mesmos Padres do Deserto desenvolveram e praticaram outra forma de meditação, o hesicasmo, palavra que significa quietude, praticada ainda hoje entre os monges do Monte Athos, da Igreja Ortodoxa Grega. Infelizmente, o cristianismo do Ocidente, mais voltado para a acção e para o racional, perdeu essa tradição.
No século XX, John Main, monge beneditino inglês, decidiu reactivar esta prática cristã dos inícios, fundando, em 1975, o Movimento da Meditação Cristã que, a partir de Londres e, depois, do Canadá, se foi estendendo a todo o mundo. Hoje, em várias cidades de muitos países, grupos de cristãos católicos reúnem-se regularmente para meditar.
Aveiro conheceu esta realidade a partir de visitas regulares do padre e teólogo Pablo d’Ors que, por iniciativa do padre João Alves, se tem deslocado regularmente a esta cidade para falar sobre o modo de meditar e as vantagens da meditação. O interesse despertado em quem o tem ouvido e não só, levou o padre João Alves a avançar com um grupo de meditação. Já antes, há cerca de dois anos, um pequeno grupo se tinha encontrado para um fim-de-semana de retiro, no silêncio e meditação, sob a orientação de uma equipa espanhola do movimento criado por Pablo d’Ors, os Amigos do Deserto.
E é assim que, desde há pouco mais de um mês, um grupo de uma vintena de pessoas se tem vindo a reunir todas as quartas-feiras (19h50-20h30) no salão paroquial da Vera-Cruz, para meditar. Que fazemos durante este tempo de gratuidade? Pois… simplesmente estamos. Procurando a quietude do corpo, escutamos o silêncio, escutamo-nos, escutamos Deus. Atentos à nossa respiração, o sopro de Deus em nós, vamos repetindo mentalmente um mantra de inspiração cristã: Cristo Jesus, Maranatha, Sim, ou outro adequado ao gosto pessoal. Os antigos, na sua sede de “rezar sem cessar” como aconselha S. Paulo, usavam muito a chamada oração de Jesus: “Jesus, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador”.
E assim, pela meditação, vamos tentando progredir no nosso crescimento espiritual e na nossa centralidade em Deus, para uma maior fecundidade das nossas vidas.
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