Até Dezembro decorre o ano jubilar de São João da Cruz, celebrando o terceiro centenário da canonização e o primeiro centenário da sua proclamação como Doutor da Igreja Católica. O jubileu tem como lema “A esperança alcança tanto quanto espera” e propõe itinerários de renovação espiritual e mística. A propósito do ano jubilar, o 7MARGENS propõe mensalmente, aos dias 13/14 (assinalando o dia da sua morte, a 14 de Dezembro de 1591, um conjunto de textos do padre carmelita e teólogo Armindo Vaz.
Quem ler os escritos de Frei João da Cruz facilmente conclui que ele está impregnado de espírito bíblico. Aquele que, juntamente com Santa Teresa de Ávila, constitui o melhor que nos foi dado conhecer em matéria de espiritualidade ocidental, viveu a sua experiência de fé a temperaturas altas, que o fazem alinhar com grandes figuras bíblicas, igualmente contemplativas e procuradoras de Deus: Isaías, Jeremias, Oseias, Job, Paulo, João evangelista… Que as suas obras sejam apreciadas por todos deve-se, sem dúvida, à densa experiência humana e mística que transmitem; mas também se deve ao facto de serem eco da palavra de Deus, que ele fazia respirar de forma fresca e viva.
O teólogo Henri de Lubac, depois feito cardeal, ao fim da sua obra monumental Exégèse médiévale, diz que à “exegese beneditina”, que alimentou toda a Idade Média, se seguiu uma verdadeira renovação da interpretação da Bíblia graças à “exegese carmelitana”, da qual a obra de São João da Cruz seria um dos primeiros e luminosos exemplos.
E Henri de Lubac conclui que essa exegese, típica da «via mística», se caracteriza por “um olhar sintético extraordinariamente poderoso, que aparece como o privilégio essencial dos santos quando estão diante da Bíblia” (citado por A. Lanfranchi, “«Die ac nocte in lege Domini meditantes»”, Quaderni carmelitani 22 (2005) 23).
Armindo Vaz é frade da Ordem dos Carmelitas Descalços, biblista e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica; publicou, entre outros, Em vez de «história de Adão e Eva»: O Sentido último da vida projectado nas origens (Edições Carmelo) e Criação Divina sem pecado humano (Paulinas Editora). Este texto foi inicialmente publicado no Boletim de Espiritualidade dos Carmelitas e é aqui reproduzido por acordo do seu autor e dos responsáveis do Boletim.










