As mãos, nas culturas do Médio Oriente Antigo, inclusive a judaica, sempre se revestiram de um enorme significado. O Antigo Testamento é riquíssimo em metáforas quando se refere, por exemplo, ao poder, acção e intervenção de Deus. Das mãos de Deus, os céus, lua, estrelas e o homem são criados (Salmos 8), e enfim todo o universo (Isaías 48:13). É a mão poderosa de Deus que intervém milagrosamente para ferir o Egipto, a fim de libertar os hebreus da mão do faraó (Êxodo 3:19-20). Além de simbolizar a acção e autoridade humana (Isaías 1:15), as mãos, especialmente a direita, estão igualmente associadas à honra, favor e bênção: Deus fortalece, ajuda e ampara com a Sua mão direita e vitoriosa (Isaías 41:10), e sustem e orienta o salmista: “mesmo aí a tua mão há-de guiar-me e a tua direita me sustentará” (Salmo 139:10). E ainda, as mãos, vistas como instrumentos do julgamento divino (Êxodo 9:3), fazem parte da simbólica do ritualismo do culto em toda a literatura bíblica.
Os evangelhos apresentam repetidamente as mãos de Jesus como meios de cura e de compaixão. Todas as vezes em que Jesus toca alguém para curar, ele quebra todas as convenções e costumes da época, inclusive aquelas que estão prescritas na Lei mosaica, em especial nos capítulos 11-14 do livro do Levítico. É assim quando Jesus toca intencionalmente num leproso e o cura (Marcos 1.41), e quando cura o cego de nascença, ungindo os seus olhos com lama (João 9:1-7). Jesus quebra provavelmente outras regras sociais ao curar mulheres, como a sogra de Pedro, curada com o toque das suas mãos (Mateus 8:14-15). As mãos de Jesus tocam, inclusive, no cadáver de uma criança a fim de a ressuscitar, como foi o caso da filha de Jairo (Marcos 5:35-43). As mãos de Jesus são igualmente usadas para abençoar e nutrir. Elas abençoam o pão do alimento multiplicado sobrenaturalmente para repartir pelas multidões famintas (Mateus 14:13-21). Essas mesmas mãos, estão, aliás, intimamente ligadas à eucaristia, no abençoar e partir do pão, símbolo do Seu corpo repartido por todos. Por último, as mãos feridas e trespassadas de Jesus, além de sinais da sua profunda humanidade, da sua dor e sofrimento, revestem-se de riquíssimo significado soteriológico. No evangelho de Lucas 24:36-53, as marcas dos cravos são sinais eternos da identidade no novo corpo glorioso do Jesus ressuscitado. Mesmo com essas mãos marcadas, sinal do seu eterno amor e misericórdia por cada um de nós, o Senhor se deixa tocar, elevando-as finalmente ao abençoar os seus antes da partida para o Pai.

“De mãos, muitas vezes, entendidas como instrumento de poder e domínio, de violência e subjugação do outro, observamos um outro modelo completamente diferente em Jesus.” Gravura: Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669)
Parece-me visível o contraste, embora possa haver excepções, entre as várias imagéticas das mãos usadas nas escrituras hebraicas, e o que vemos das mãos do Verbo encarnado e que habitou entre nós. De mãos, muitas vezes, entendidas como instrumento de poder e domínio, de violência e subjugação do outro, observamos um outro modelo completamente diferente em Jesus. As suas mãos são usadas essencialmente como instrumento de cura, amor e compaixão. Essas mãos não deixam de validar profundamente a dignidade humana, numa sociedade fortemente marcada pelas diferenças sociais abismais e até pelos preceitos ritualistas e legalistas da religião: Jesus, com o seu toque, afirma o valor inerente de cada pessoa, quebrando, obviamente, todos os tabus culturais vigentes. Não deixam também de ser notórios a graça e o amor incondicional de Jesus, até mesmo manifestados na vida daqueles que o “traem”. Não recebeu Judas das mãos de Jesus o pão eucarístico abençoado (João 13:27)? Mesmo no fim, antes de partir para o Pai, Jesus deixa a promessa de que ninguém será tirado da Sua mão (João 10:28).
A nossa sociedade contemporânea, onde muitas vezes se dá prioridade à busca da produtividade e ao sucesso individual, acaba por levar ao esvaziamento do sentido das relações interpessoais. O filósofo Bying-Chul Han, no seu livro A redescoberta do Outro, reforça a importância da adopção de rituais que possam fortalecer os nossos veículos comunitários, como meio de sairmos dessas patologias sociais graves que redundam na alienação em relação ao outro, reforçadas pelas novas tecnologias de comunicação social digital (redes sociais). Nesse sentido, o toque do outro pode revestir-se de real significado – seguindo o paradigma do toque de Jesus – ao sermos nós mesmos, enquanto agentes do seu Reino, instrumentos de empatia, de cura, misericórdia, e até de dádiva incondicional, num mundo cada vez mais fragilizado e carente de Deus. Gosto imenso da ideia desenvolvida pelo papa João Paulo II, a de uma Teologia do Corpo, que remete para uma concepção holística do corpo humano enquanto agente plenamente activo no Reino de Deus, instrumento e manifestação plena do amor de Deus. Que sejamos, efectivamente, através do nosso toque, canais de graça e amor para todos quantos nos cercam. Não tenhamos medo de, como Jesus, tocar os “impuros” do nosso tempo, como sejam os grupos marginalizados pela sociedade, os toxicodependentes, os homossexuais, os vulneráveis física e psicologicamente. Afinal, o toque de Jesus através do nosso toque é o único antídoto contra os males da indiferença, tendo um enorme potencial transformador para o mundo, muito mais do que se possa imaginar.










