É um clássico fazer balanços em fim e começo de ano. Desta vez decidi refletir sobre influenciadores motivacionais, a quem me apetece chamar “qualquer coisa” menos influenciadores, já que esta palavra denota o poder que podem ter sobre os outros, apesar das suas insuficiências e futilidades, nunca generalizando, como é óbvio, já que todo o leite tem a sua nata. De qualquer forma, para já, convencionou-se chamar assim a todos e ainda não tenho alternativa ou melhor proposta para grande parte deles.
Se a minha intenção é construir algo diferente e dar o meu humilde contributo na direção certa, presumo eu, distinguirei sobre este assunto e, em síntese, 4 âmbitos:
1. A “Tirania da Positividade Tóxica” – Muitas vezes, a mensagem é que “só não és feliz porque não queres” ou que basta “mudar o teu mindset” e tudo correrá bem. Para quem vê, isto pode criar uma sensação de culpa. Se a pessoa está a ter um dia ou um momento mau, sente que está a falhar voluntariamente quando, na verdade, a vida tem apenas naturais altos e baixos.
2. A “Estetização da Vida Perfeita” – Certos vídeos mostram rotinas matinais irreais: acordar às 5h da madrugada, fazer meditação, ginásio, um pequeno-almoço digno de revista e estar a trabalhar com foco total logo às 8h da manhã. É uma performance da perfeição e, foca-se no “ter” (ter corpo, ter sucesso, ter disciplina férrea) em vez do “ser” nos pequenos detalhes, desde o sorriso ao pedir um café, até ao agradecimento pela cedência de lugar no parque de estacionamento.
3. O Foco no “Grande” e no “Extraordinário” – A motivação destas imagens é quase sempre virada para conquistas hercúleas: faturar milhões, viajar pelo mundo, ser o melhor da sua área. Quase nunca se fala da maravilha que é ser uma pessoa comum que, simplesmente, “faz o bem bem feito”, como pedia S. João de Deus, o Santo português de Montemor-o-Novo, nascido em 1495 e que marcou profundamente a espiritualidade cristã desde o Séc. XVI até aos dias de hoje. Há uma desvalorização do quotidiano em favor da demonstração que asfixia, pelo tom de inalcançável para mais de 95% dos seres humanos.
4. Soluções Rápidas/ soluções mágicas – São vídeos de 30 a 60 segundos que prometem mudar a vida com “3 passos simples para…”, o que se opõe à ideia que professo de que viver bem é uma escolha hora a hora, dia a dia, num trabalho constante de formiga e não num salto repentino e mágico de quem apenas quer ser “malabarista da vida.”

Influenciadores: Ilustração de Sean McCabe e Mathew Cooley / Jornal Digital RollingStone
Olhando para tudo isto, estou cada vez mais convencida de que a nossa saúde mental precisa de perder a ambição de conquistar o mundo, para procurar alguma leveza de ser, assente na ecologia interna e na resistência contra o espetáculo da (pseudo)perfeição.
A ideia de que a discrição e a autenticidade podem “salvar o mundo” é um contraponto, que me parece fascinante, na era do ruído digital.
Vivemos num tempo onde parece que só existimos se formos extraordinários, filmados e editados. Esta “moda de ser” gera uma “fadiga dos comuns”. Estamos tão ocupados a parecer felizes, excecionais e produtivos que nos esquecemos de simplesmente ser humanos e fazer o jantar a horas.
Por outro lado, o valor da discrição está também no facto de que a saúde mental floresce do que não é visto. Discrição não é timidez ou falta de ambição, mas a liberdade de não precisar de aplausos para fazer o que é correto. O mundo não é mudado por quem grita “vejam como sou bom” num vídeo de 15 segundos, mas por quem faz o que é bom quando ninguém está a fazer registos de imagens para postar.
A autenticidade é, complementarmente e nos dias de hoje, um ato de resistência. Num tempo de filtros e scripts motivacionais, ser imperfeito e real é um ato revolucionário. Admitir falhas sem culpa; saber rir dos seus tropeços; reconhecer fraquezas sem vergonha; permitir-se ser “pequeno” e “comum” num mundo que exige gigantismo constante é talvez o caminho para salvar os homens através do invisível.
Acho que não me engano se considerar que salvar o mundo não é, pois, necessariamente, criar uma fundação internacional ou ter milhões de seguidores.
Salvar o mundo é interromper o ciclo de ruído. É a paciência com o vizinho lento ou impertinente; é o trabalho de qualidade e impacto sem necessidade de postar uma fotografia; é a presença real e dedicada junto de quem amamos; é dar de mamar sem o telemóvel na mão…
A paz interior, essencial para toda e qualquer forma de salvação, não se encontra no aplauso digital, mas na coerência entre quem somos sozinhos e quem, de nós, apresentamos ao mundo. A discrição de que falo é o compromisso de fazer o que é correto, precisamente quando ninguém está a registar esse durante. E, quando retiramos a necessidade de validação imediata, libertamos energia para o que importa – a, por assim dizer, micro-cidadania.
Salvar o mundo parece uma tarefa reservada a heróis, mas o mundo salva-se nas, também ditas, micro-decisões. Salva-se quando aceitamos que a nossa “melhor versão” não é um estado de perfeição inatingível, mas a nossa capacidade de sermos honestos com as nossas distrações e gentis com a pressa ou com a lentidão do outro.
E porque será este caminho, de salvação, eficaz?
Porque não precisamos de uma “manhã perfeita” para ter valor. Porque não precisamos de uma casa magnifica para sermos só bons. Porque, se não queremos viver ansiosos, não devemos arrastar o peso da necessidade de reconhecimento permanente. Se ele surgir, acidentalmente, será uma mais-valia. Para estarmos bem não podemos ser pedintes de likes, essa nova forma de (pseudo)amor.
A mudança pela qual o mundo já grita deve começar por aqui – Menos espetáculo e muito mais verdade.
Ser autêntico num tempo de algoritmos é um ato de resistência. Significa ter coragem para dizer não sou capaz, não sei ou não consigo. Esta transparência cria pontes reais, enquanto a perfeição gera uma das emoções secundárias/ sociais mais devastadoras, mas tão comum – a inveja que afasta, distancia e pode até derrubar.
Neste ano, que agora começa, não procuremos ser extraordinários, mas apenas investigadores pragmáticos da melhor versão de nós em cada instante que passa.
Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt
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