A cultura patriarcal predominante nos meios religiosos americanos já vem de muito longe. Trump apenas lhe deu gás e juntou-lhe ingredientes como racismo, xenofobia, misoginia, e um certo marialvismo stars and stripes, além duns pozinhos de neo-nazismo.

“A eleição de Donald Trump em 2016 parece ter legitimado os adeptos da masculinidade do tipo John Wayne.” ( Foto © Michael Slop, Aeroporto de Schiphol, Holanda/ Unsplash)
Pelos vistos o cozinhado agradou a boa parte do eleitorado, o que leva a pensar que aquilo que se denomina como trumpismo na realidade não começou agora nem acaba já com a saída da figurinha pela porta baixa da História.
A American Psychological Association (APA) classificou já em 2019 a masculinidade “tradicional” como sendo prejudicial: “uma constelação particular de padrões que dominaram grandes segmentos da população, incluindo antifeminilidade, conquistas, evasão da aparência de fraqueza e aventura, risco e violência”, tendo derivado daí um aumento das taxas de suicídio, abuso de substâncias, comportamento violento, falta de vontade de procurar ajuda médica ou psicológica e morte prematura de homens. A conclusão é que a masculinidade tradicional ou “tóxica” está a dar cabo dos homens.
Em artigo publicado no The Atlantic, já em 2010 e intitulado “The End of Men” escrevia Hanna Rosin que os homens estavam a ficar atrás das mulheres nas universidades e nas empresas. Outras pessoas defenderam que alguns factores culturais e mesmo biológicos poderiam estar na origem da perda masculina, o que os terá deixado confusos sobre como se comportar nestes novos tempos de alteração do enquadramento social de género. Fenómenos como o Me Too, enquanto denúncia de padrões de assédio e abuso sexual masculino ajudaram a agravar a situação, deixando-os inseguros em como se inserir numa paisagem cultural em mudança acelerada.
A eleição de Donald Trump em 2016 parece ter legitimado os adeptos da masculinidade do tipo John Wayne. Na ausência duma visão alternativa para uma masculinidade positiva, surgiram fenómenos como os Proud Boys, cuja proposta encoraja um tipo de empoderamento que passa pela supremacia do homem branco.
Mas foi o segmento evangélico do cristianismo americano que propôs e liderou um conceito frágil de masculinidade militante através dos “ministérios dos homens”, com base numa compreensão teológica de autoridade patriarcal, modelando o elemento masculino como guerreiro espiritual, com base numa interpretação bíblica descontextualizada. Tinha por base a ideia de que o mundo pós-moderno, resultante da transição da economia industrial para a economia intelectual, estava a privar os homens do pleno desempenho do seu papel de provedor e protector, divinamente conferido. O problema é que esse esforço acabou por conduzir os homens a um ideal cristão muito mais ligado às simbolizações machistas da cultura popular do que a Jesus Cristo.
Os anos noventa nos EUA testemunharam um amplo movimento de fé que procurava valorizar o papel masculino na igreja, denominado Promise Keepers, que sublinhava e reforçava o papel do homem como sacerdote e autoridade suprema na família. Promoveram-se então grandes reuniões em estádios às quais só podiam aceder homens e rapazes, um pouco ao estilo do Clube do Bolinha (“Menina não entra!”). Mas pior do que isso foi a acção de alguns líderes religiosos bem conhecidos que usaram televisão, rádio, livros e conferências para glorificar atributos masculinos culturalmente definidos.
Sendo assim, o Jesus dos Evangelhos revela-se uma pedra de tropeço para quem promove ideais de masculinidade patriarcal, agressiva e dominante, ao arrepio da compaixão, humildade e propósito que Jesus ensinou a desenvolver. Por outro lado, a honestidade e integridade da fé cristã desencoraja a mentira, a manipulação e o roubo que obscurece o coração dos homens e destrói relações. De igual modo a atitude de construtores da paz – pacificadores – avançada no Sermão do Monte, é uma resposta pronta à glorificação da violência e da agressão.
Noah Van Niel diz que a fidelidade dos homens cristãos a Deus e o seu desapego pelos bens materiais pode ajudá-los a centrar no que é verdadeiramente importante na vida, tal como um compromisso com o combate à injustiça poderá inspirar muita gente. De facto, a filosofia do mundo não vai recompensar com riqueza ou fama os homens que ousam imitar Jesus Cristo, mas torna-os livres.
Talvez a solução para os homens de fé que buscam uma orientação no mundo contemporâneo, face à lenta agonia do patriarcado, seja procurar inspiração para a sua masculinidade na mesma fonte inspiradora da vida de qualquer cristão, o modelo intemporal de Jesus Cristo.
José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.










