Nesta Semana Santa [cristã], tempo de memória profunda, discernimento atento e esperança persistente, somos convocados a escutar e anunciar o Evangelho num contexto particularmente grave e exigente.
Vivemos num mundo marcado por guerras declaradas e conflitos mais subtis, pela ascensão de regimes autoritários, pela manipulação sistemática da verdade e, de forma particularmente inquietante, pela crescente instrumentalização da fé cristã ao serviço de projectos de dominação e exclusão.
Não é por acaso que me ocorrem dois textos evangélicos (Marcos 12:28-34 e Lucas 4:5-8) que, embora distintos, se iluminam mutuamente com notável intensidade. No primeiro, Jesus proclama o mandamento maior: amar a Deus com todo o coração, com toda a alma, com todo o entendimento e com todas as forças, e ao próximo como a nós mesmos.
No segundo, encontramo-lo no deserto, diante da proposta demoníaca de possuir todos os reinos do mundo… sob a única condição de adorar o poder que se opõe a Deus.
Ambos os textos colocam-nos diante de uma decisão essencial: quem adoramos? A quem servimos?
A adoração de Deus, no horizonte das Escrituras, não é um acto vago ou meramente interior. É uma escolha concreta, com implicações éticas, sociais e históricas. Adorar a Deus é reconhecer que nenhum outro senhor é digno da nossa lealdade. É uma exigência total, que reclama exclusividade, verdade… e resistência. Não se pode amar a Deus… e, ao mesmo tempo, curvar-se perante o poder, a mentira ou o medo.
Neste tempo pascal, em que contemplamos a paixão e a cruz de Cristo, o seu “não” absoluto ao poder violento e a sua fidelidade sem reservas ao Reino do Pai, somos chamados a confrontar, com igual coragem, as lógicas do nosso tempo.
Que significa, hoje, amar a Deus com todo o coração e ao próximo como a nós mesmos? Que significa recusar-se a adorar os reinos deste mundo? E qual tem sido – e qual deve ser – a resposta da Igreja nesta hora decisiva da história?
É neste horizonte que vos convido a meditar. Não apenas com inquietação, mas com esperança. Porque onde a fidelidade é vivida com humildade e coragem… aí o Reino de Deus resiste… e renasce.
A tentação do poder ou quando o Reino de Deus é confundido com os meios deste mundo

As Tentações de Cristo de Sandro Botticelli (1445–1510). Coleção da Capela Sistina. Wikimedia Commons
O Evangelho segundo São Lucas oferece-nos uma cena fundadora da vida pública de Jesus. No deserto, antes de qualquer milagre ou palavra pública, Jesus enfrenta o poder em estado puro. O diabo mostra-Lhe todos os reinos do mundo e propõe-lhe um atalho: “Dar-Te-ei todo este poder e glória… se Te prostrares diante de mim e me adorares.”
Jesus responde com a força das Escrituras: “Adorarás o Senhor teu Deus, e só a Ele servirás.” Esta resposta é decisiva. Jesus recusa instaurar o Reino de Deus através dos meios do mundo. Recusa o poder que se impõe, a glória que subjuga, o prestígio que seduz. Afirma, desde o início, que o Reino que vem de Deus não se constrói com alianças com a força, nem com a mentira, nem com a tentação do sucesso a qualquer preço. A adoração que Deus pede é total. Não admite concorrência. É fidelidade. É resistência.
Ora, esta tentação continua activa nos nossos dias. Apresenta-se com nova linguagem, mas com igual sedução. Manifesta-se na ideologia soberanista e nacionalista que, subtil ou explicitamente, identifica Deus com a pátria, a fé com a identidade nacional, e o próximo com quem se nos assemelha, na cor, na classe social, na confissão religiosa ou na origem…
Esta visão – que cresce em diversos contextos, da Europa às Américas, da Rússia a tantos outros cenários – proclama que só merece amor quem pertence ao “nosso povo”. Os estrangeiros, os pobres, os refugiados, os que crêem de outra forma, passam a ser vistos como ameaça. O cristianismo torna-se escudo identitário, não anúncio do Evangelho.
Mas o mandamento de Jesus é claro e não deixa espaço para esta perversão: Amar a Deus… e amar o próximo!
E quem é o próximo? Na boca de Jesus, o próximo não é o semelhante… é o diferente.
É o samaritano. É o estrangeiro. É o considerado “herético”. É aquele cuja presença questiona a minha zona de conforto.
Se o amor ao próximo se reduz ao amor pelos que me reforçam a identidade, os que pensam como eu, os que me são culturalmente afins, os que não ameaçam os meus privilégios, então já não estamos perante o mandamento do Evangelho, mas diante de uma caricatura do mesmo.
A Igreja é chamada, hoje, com toda a urgência e humildade, a desmascarar esta falsificação da fé. Porque quando o nome de Deus é invocado para proteger fronteiras, para levantar muros ou para justificar ódios, não estamos perante fé cristã… mas diante de idolatria.
Como cristãos não podemos calar-nos. O silêncio, nestes casos, é cumplicidade. A fidelidade ao Deus de Jesus Cristo exige-nos que digamos, com clareza e firmeza:
“Só ao Senhor adorarás.” “E ao teu próximo amarás”, mesmo que te desconcerte, te provoque ou te desafie.
A fidelidade que resiste: a memória de Barmen

Dietrich Bonhoeffer: um dos que resistiu aos avanços do nazismo em nome da sua fé. Foto: Direitos reservados.
A fidelidade, quando levada a sério, torna-se sempre exigente. Há momentos na história em que ser fiel a Cristo não significa repetir fórmulas… mas discernir os sinais do tempo e responder-lhes com coragem evangélica.
Um desses momentos ocorreu em 1934, na cidade alemã de Barmen. Ali, num contexto marcado pelo avanço do nazismo, um grupo de teólogos, pastores e fiéis sentiu que a sua consciência cristã não os podia deixar calar.
Enquanto muitos nas igrejas cederam ao regime, uns por medo, outros por conveniência, outros ainda por adesão ideológica, este grupo redigiu um documento simples, mas de enorme densidade espiritual: a Declaração de Barmen. No seu primeiro artigo, lê-se:
“Rejeitamos a falsa doutrina como se a Igreja pudesse reconhecer outras fontes de proclamação além da única Palavra de Deus, como revelada em Jesus Cristo e atestada nas Sagradas Escrituras.”
E ainda: “Face aos erros dos «cristãos alemães» da presente administração da Igreja do Reich (…) Rejeitamos a falsa doutrina de que a Igreja teria o dever de reconhecer – além e aparte da Palavra de Deus – ainda outros acontecimentos e poderes, personagens e verdades como fontes da sua pregação e como revelação divina. (…) Rejeitamos a falsa doutrina de que, em nossa existência haveria áreas em que não pertencemos a Jesus Cristo, mas a outros senhores(…) “
Estas palavras, escritas num tempo de perigo real, eram mais do que uma afirmação doutrinária. Eram um acto de resistência espiritual. Uma recusa clara de submeter a fé cristã a qualquer programa nacionalista, político ou racial. Uma denúncia do esforço, então crescente, de fundir a cruz com a bandeira, Cristo com o Führer.

Declaração Teológica de Barmen. Este texto foi redigido pelo teólogo protestante Karl Barth e constitui a base da oposição protestante ao III° Reich.
Muitos dos que subscreveram esse texto pagaram um preço elevado pela sua fidelidade: foram perseguidos, forçados ao exílio, encarcerados… e alguns conheceram o martírio. Entre eles, destaca-se a figura do pastor e professor de Teologia Dietrich Bonhoeffer, enforcado pelos nazis poucas semanas antes do fim da guerra, acusado de conspiração contra o regime. A sua memória, marcada por uma fé lúcida, corajosa e profundamente evangélica, é hoje honrada por inúmeras confissões cristãs como sinal de uma fidelidade levada até às últimas consequências.
A instrumentalização da fé permanece activa, ora disfarçada de tradição, ora ainda justificada por razões de segurança ou estabilidade social.
É precisamente por isso que a memória de Barmen continua a interpelar-nos. Não como exercício de nostalgia… mas como apelo ao discernimento, como convite a perguntar, com humildade e coragem: que Evangelho estamos a anunciar? E a quem verdadeiramente servimos?
Talvez, também hoje, sejamos chamados a confessar de novo a nossa Fé. Uma confissão que proclame, com clareza e humildade: A Igreja pertence a Cristo. Não pertence ao Estado. Nem a um partido. Nem a uma ideologia. A sua missão não é defender fronteiras, mas anunciar o Evangelho. Não é proteger os poderosos, mas servir os pobres, os pequenos, os esquecidos.
A fidelidade cristã, em qualquer tempo, mede-se pela sua capacidade de resistir ao espírito da época quando este contradiz o espírito do Evangelho. E por isso, como cristãos, somos convidados a redizer com fé tranquila e firmeza interior: “Jesus Cristo é o Senhor.” E só a Ele prestamos obediência.
Entre a cruz e o trono?

Vincent van Gogh (1853–1890), O Bom Samaritano:”O próximo é sobretudo quem é diferente, quem sofre, quem é deixado à margem, quem não tem voz.”
E a Igreja, hoje… onde está? Que palavra tem pronunciado diante do mundo? Que gestos tem oferecido? Que presença tem cultivado? A pergunta impõe-se com delicadeza, mas também com urgência.
Vivemos tempos de transformação acelerada. A fé deixou de ocupar o centro da vida pública em muitas sociedades. As Igrejas sentem que perdem influência, visibilidade, espaço.
E perante esta realidade, multiplicam-se os caminhos: Há comunidades cristãs que procuram recuperar poder institucional através de alianças políticas. Outras refugiam-se numa espiritualidade desencarnada, desligada do sofrimento concreto das pessoas. Outras ainda resignam-se a uma irrelevância tranquila.
Mas o Evangelho não nos foi confiado para que nos adaptemos a qualquer custo. O Evangelho é sempre um envio, e esse envio passa pela cruz.
A verdadeira crise que a Igreja enfrenta hoje não é, talvez, a da sua visibilidade… mas a do seu discernimento espiritual. Corre-se o risco de perder o essencial, não por hostilidade externa, mas por esquecimento interno. E o essencial é isto: Amar a Deus sobre todas as coisas… e ao próximo como a nós mesmos.
E quem é o próximo? Não apenas quem partilha connosco a fé ou a cultura. Mas também – e sobretudo – quem é diferente. Quem sofre. Quem é deixado à margem. Quem não tem voz.
Sempre que a Igreja se afasta deste “próximo” bem concreto, afasta-se do Evangelho. Sempre que se aproxima demais do poder que exclui, do discurso que separa, da lógica que violenta, ela trai a memória da cruz.
A Igreja de Jesus Cristo não pertence ao trono, pertence à cruz. O seu lugar é junto dos crucificados da história: os pobres, os migrantes, os abandonados, os esquecidos. A sua missão não é ovacionar o imperador, mas ser sinal de um Reino que não é deste mundo.
E é por isso que a confissão de fé fundamental, repetida ao longo dos séculos, precisa de voltar a ser proclamada, não como slogan, mas como decisão interior: “Jesus Cristo é o único Senhor.” E nenhum outro nome, por muito poderoso que pareça, pode ocupar o lugar que só a Ele pertence.
A fidelidade que renasce do amor

Salvador Dali, O Cristo de São João da Cruz: “A cruz de Cristo é sinal de uma fidelidade levada até ao fim. Uma fidelidade que nos revela quem é Deus e quem somos chamados a ser.”
A Semana Santa é, para todos os cristãos, um tempo de grande sobriedade e esperança. Contemplamos Aquele que, por amor, recusou o caminho da glória fácil e escolheu a via da entrega. Aquele que disse “não” à sedução do poder absoluto para dizer “sim” ao Pai, e a cada ser humano.
A cruz de Cristo não é símbolo de derrota, mas sinal de uma fidelidade levada até ao fim. Uma fidelidade que nos revela quem é Deus e quem somos chamados a ser.
Também hoje, em tempos de tensão, de incerteza, de tentação, a fidelidade continua a ser o caminho da Igreja. Não uma fidelidade abstracta, nem moralista, mas uma fidelidade que brota do amor.
Do amor a Deus que nos chama, não ao domínio, mas ao serviço. Do amor ao próximo que nos desafia a reconhecer a dignidade de cada rosto. Do amor à verdade que nos impede de nos ajoelharmos diante de qualquer mentira, por mais bem vestida que se apresente.
Talvez nunca como hoje seja necessário recordar que a Igreja não é um fim em si mesma. Ela existe para dar testemunho de Cristo. Não para ocupar espaços, mas para os abrir. Não para manter privilégios, mas para gerar comunhão.
Que esta Semana Santa nos ajude, a todos – católicos, ortodoxos, protestantes – a recentrar o olhar. A regressar ao Evangelho. A escutar de novo aquela Palavra que, quando acolhida, renova tudo.
Joel L. Pinto é pastor da Igreja Presbiteriana em Portugal e da Igreja Reformada Suíça em Neuchatel e animador do blogue Itinerários










