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sínodo, sinodalidade, Papa Francisco

Apresentado o Instrumentum Laboris para outubro

Agenda do Sínodo ficou despida de alguns temas polémicos

| 09/07/2024

sínodo, sinodalidade, Papa Francisco

O Papa Francisco com participantes da primeira assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade, em outubro de 2023. Está pronto o documento de trabalho que estará na base da segunda. Foto © António Marujo/7MARGENS

“Uma Igreja Católica viva, num tempo de graça”. Assim sumariou esta terça-feira, 9 de julho, no Vaticano, o cardeal luxemburguês Jean-Claude Hollerich, relator geral do Sínodo, os contributos recebidos de todo o mundo, durante a conferência de imprensa em que foi apresentado o documento de trabalho (Instrumentum Laboris) que vai guiar os trabalhos da segunda sessão deste vasto processo de auscultação e discernimento, da iniciativa do Papa Francisco.

O documento de trabalho que foi, entretanto, tornado público, também em português, compõe-se de um capítulo de “fundamentos” sobre o processo sinodal vivido desde 2021 e três partes ou capítulos designados, respetivamente, relações, percursos e lugares.

As relações (com Deus, com os irmãos, entre os grupos sociais…) e a capacidade de as nutrir são a condição para “uma Igreja não burocrática” ou em busca de uma maior eficiência. “A sinodalidade – sublinha o texto – enquanto exigência da missão, não é entendida como um expediente organizativo, mas sim vivida e cultivada como o conjunto das formas segundo as quais os discípulos de Jesus tecem relações solidárias, (…) que são chamados a testemunhar nos contextos concretos em que se encontram”.

Os percursos, por sua vez, referem-se aos processos que asseguram o cuidado e desenvolvimento das relações, destacando quatro aspetos distintos: a formação, em particular a escuta e o discernimento, “que conduz ao desenvolvimento de modalidades participadas de decisão no respeito pelas diversas funções, com uma circularidade que também ela conduz à transparência, à prestação de contas relativamente às responsabilidades recebidas e a uma avaliação que relança o discernimento para a missão”.

Por fim, no que toca aos lugares, o que está em foco são os diferentes contextos e culturas em que as relações e os lugares se aprofundam. Aqui, procura-se romper com uma visão estática dos lugares e alerta-se para a “rápida mutação” que obriga a não circunscrever a ação da Igreja a limites puramente espaciais, porque isso “iria aprisioná-la num imobilismo fatal e numa preocupante repetibilidade pastoral, incapaz de atingir a parte mais dinâmica da população, em particular os jovens”.

 

O papel das mulheres e a validade do modelo de escuta para todos

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Mulheres participantes no Sínodo sobre a sinodalidade, à saída de uma das sessões da assembleia, em outubro de 2023. O acesso feminino ao diaconado é um dos temas que ficará de fora da próxima assembleia. Foto © António Marujo/7MARGENS

O texto toca em diferentes questões que serão certamente aprofundadas na segunda assembleia sinodal, no próximo mês de outubro. Dois aspetos que podem ser destacados surgem ambos na parte de “Fundamentos” e referem-se ao papel das mulheres e dos homens na Igreja e à potencial validade do método da escuta para o conjunto da sociedade.

Quanto ao primeiro aspeto, o Instrumentum Laboris dedica-lhe seis números, sob o título genérico “Irmãs e irmãos em Cristo: uma reciprocidade renovada”. Começa por defender a “necessidade de conferir um maior reconhecimento aos carismas, às vocações e ao papel das mulheres em todos os aspetos da vida da Igreja, como passo indispensável para promover esta reciprocidade relacional”, para sublinhar, a seguir, que “a primeira mudança a efetuar é a da mentalidade”. Trata-se de “uma conversão a uma visão de relacionalidade, interdependência e reciprocidade entre mulheres e homens, que são irmãs e irmãos em Cristo, com vista à missão comum”, de acordo com o documento.

Nesta matéria, cita contributos recebidos segundo os quais falta concretizar, nesta matéria, muitas possibilidades que já estão abertas, mas não são utilizadas. Por outro lado, prossegue o texto, “é necessário explorar outras formas ministeriais e pastorais, a fim de conferir uma expressão mais apropriada aos carismas que o Espírito infunde nas mulheres em resposta às exigências pastorais do nosso tempo” – e dá, em meia dúzia de alíneas, vários exemplos disso. Neste âmbito, foi referida, na conferência de imprensa, a intenção de dar vida a um ministério da escuta e do acompanhamento.

Quanto ao acesso das mulheres ao diaconado, que o documento diz que uns exigem e outros não querem, o assunto “não será objeto dos trabalhos da segunda sessão”, por estar a ser aprofundado por um grupo criado pelo Papa, que só apresentará resultados em junho de 2025. Mas, acrescenta, “é conveniente que prossiga a reflexão teológica, com tempos e modalidades adequados”. De resto, nesta segunda sessão do Sínodo, caíram da agenda vários assuntos que o Papa entendeu atribuir a grupos de peritos, entre os quais estão, além do das mulheres, as pessoas LGBTQI+, e a condição dos presbíteros (celibato opcional, viri probati, padres casados…).

Quanto à segunda matéria que entendemos destacar, ela surge no ponto 20 do Instrumentum Laboris, onde se afirma que “o estilo sinodal da Igreja oferece muitas pistas importantes para a humanidade”. E explica a sugestão deste modo: “Numa época marcada por desigualdades cada vez mais acentuadas, por uma crescente desilusão face aos modelos tradicionais de governo, pelo desencanto em relação ao funcionamento da democracia, pelo predomínio do modelo de mercado nas relações interpessoais e pela tentação de resolver os conflitos pela força e não pelo diálogo, (…) o modo sinodal de viver as relações é um testemunho social que responde à profunda necessidade humana de ser acolhido e sentir-se reconhecido no seio de uma comunidade concreta. É um desafio ao crescente isolamento das pessoas e ao individualismo cultural, que também a Igreja muitas vezes absorveu, e que nos chama a um cuidado recíproco, a uma interdependência e à corresponsabilidade pelo bem comum. É também um desafio a um comunitarismo social exagerado que sufoca as pessoas e não lhes permite ser sujeitos livres do próprio desenvolvimento”.

E remata assim: “A disponibilidade para a escuta de todos, especialmente dos pobres, promovida pelo estilo de vida sinodal está em nítido contraste com um mundo em que a concentração do poder exclui os pobres, os marginalizados e as minorias. A concretização do processo sinodal veio demonstrar quanto a própria Igreja tinha necessidade de crescer nesta dimensão”.

 

Um documento, múltiplas vozes

Refira-se que o documento de trabalho agora tornado público incorpora contributos de 108 das 114 conferências episcopais do planeta, mas também das igrejas orientais católicas, dos dicastérios da Cúria Romana, das uniões de superiores gerais, em representação das instituições da vida consagrada, de organizações internacionais católicas, de universidades e faculdades de teologia, associações de fieis e até pessoas a título individual.

Desta vez, entraram igualmente no processo achegas de outros atores, nomeadamente através dos resultados de um encontro mundial de párocos, organizado em Roma, em abril último, e de cinco grupos constituídos pela Secretaria Geral do Sínodo e compostos por peritos de diferentes proveniências geográficas, géneros e condições eclesiais, que trabalharam com o método sinodal, tendo em vista um aprofundamento teológico e canónico da noção de sinodalidade e das suas implicações para a vida da Igreja.

 

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