“Alguma coisa de tão forte dentro de nós”: Maria Natália Duarte Silva Teotónio Pereira (1930-1971)

| 22 Abr 2021

Natália era “praticante de uma arte em que, ao mesmo tempo, se olha para dentro e para fora, se escuta a si própria e aos demais.” Foto cedida pela família.

Inspirou-se num excerto da Carta aos Romanos para propor uma comissão de apoio aos presos políticos. Desejava que a sua vida fosse uma aventura e envolveu-se em dezenas de iniciativas de oposição à ditadura. Natália Duarte Silva morreu prematuramente há 50 anos, que se completam neste dia 23, antes de ver chegar a liberdade e a democracia pelas quais lutava. À filha Luísa, que aqui a evoca, escreveu que antes de passar qualquer coisa ao papel, é preciso senti-la fortemente dentro de nós.

 

 

 

 

 

Era uma pessoa inquieta, sempre à procura do sentido das coisas – do que vivia e do que estava à sua volta, perto ou longe. Com vontade de concretizar o que lhe parecia ser fundamental, muitas vezes, naquele tempo anterior a 1974, também urgente. Apaixonada por literatura e por cinema. Especialmente atenta à juventude. Confiante nos outros e confidente, ouvinte, interpelativa. Praticante de uma arte em que, ao mesmo tempo, se olha para dentro e para fora, se escuta a si própria e aos diversos demais.

Nasceu a 7 de julho de 1930, no Brasil, para onde os pais tinham emigrado, vindo para Lisboa em 1931 devido às consequências da crise de 1929. Morreu em resultado de uma insuficiência cardíaca, durante o seu quarto parto, a 23 de abril de 1971. Um problema de saúde que hoje se resolve com facilidade. Um empenho na luta contra a ditadura que não chegou a ver o 25 de Abril de 1974.

Cruzando literatura e a sua intensa experiência enquanto jovem – uma família abalada pela morte repentina do pai quando ela tinha sete anos, uma mãe viúva que cuidava de quatro filhos, três irmãos rapazes que exerciam no quotidiano os seus poderes sobre a mais nova, um primeiro casamento aos 16 anos com Jaime Salazar Sampaio que a introduziu no seu círculo de amigos e companheiros de Letras – surgiu no final de 1963 a coleção de livros Nosso Mundo, da qual a Livraria Sampedro Editora publicou 17 títulos, até 1969. Ideia e aventura tripartida, com Madalena Ferin e Sophia de Mello Breyner Andresen. Capas de Sebastião Rodrigues e traduções cuidadas. Originais portugueses: de Arthur Lambert da Fonseca, de Ilse Losa e de Maria Natália Duarte Silva (Em Verdade Vos Digo…). Colectâneas: Poesia Sempre (dois volumes) com seleção de Sophia (o primeiro volume com a colaboração de Alberto de Lacerda), A Rã Saltadora: Contos e ainda Biografias de Homens Célebres, com seleção e um texto sobre Carlos Seixas dela própria, Maria Natália. Livros que estiveram presentes nas pioneiras I e II Semanas do Livro Infantil e Juvenil (Lisboa, 1964 e 1966) e na Exposição de Livros para Crianças e Adolescentes (Porto, 1965), nas quais colaborou.

Escreveu contos, poesia. Publicou um livro de poemas em vida (Mão Aberta, 1963) e preparou outro para ser editado (incluído em Obra Poética, ed. Afrontamento, 2010). Deixou esta nota, não datada: “Mas, querida, para se pôr alguma coisa no papel é preciso que primeiro se sinta alguma coisa dentro de nós. Alguma coisa de tão forte que possa resultar num desenho [ou num escrito], começando por se sentir a necessidade de se dizer alguma coisa do que se sente (…). Para isso é preciso que aprendas a ver bem as coisas, olhá-las, guardá-las dentro de ti. (…) Sentir e guardar no teu coração. Assim, não seria só uma árvore que poderias desenhar, mas uma árvore alegre, cheia de sol, cheia de tudo aquilo que sentes ao olhá-la. Seria uma árvore muito tua e não uma árvore qualquer.”

 

Da missa à devolução de um direito aos presos políticos

“Da leitura, na missa de hoje, saiu a decisão de fazermos alguma coisa para a resolução dum problema que desde há tempos nos preocupa”, escreveu aos amigos. Era o primerio passo para a constituição da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. Foto cedida pela família.

 

Em janeiro de 1968 dirigiu, em conjunto com Nuno Teotónio Pereira, com quem tinha casado em 1951, uma carta aos amigos: “Da leitura, na missa de hoje, deste texto [Carta do Apóstolo Paulo aos cristãos de Roma], saiu a decisão de fazermos alguma coisa para a resolução dum problema que desde há tempos nos preocupa, como preocupa outros: o apoio a presos e exilados políticos e às suas famílias. (…) a contribuição a prestar, que seria mensal, e atendendo ao que nos parece ser o seu carácter – não de dádiva, mas de devolução de direito – julgamos acertado propor um valor equitativo: 1% do rendimento médio mensal de cada pessoa ou agregado familiar (…). Amigos: não estava organizado entre nós um serviço como o que se anuncia agora; esta certamente a razão de muitos não participarem numa ajuda que cremos se impõe à consciência de todos nós. O serviço fica de pé. Esperamos pela resposta de todos (…), mesmo que seja negativa. E estamos abertos às sugestões e mesmo às objeções que cada qual entenda fazer.” Estava assim dado um passo inicial para a constituição, em 1969, da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos.

Da mesma forma convicta e determinada esteve envolvida, sempre a partir dos pequenos grupos de católicos “progressistas” nos quais participava, no boletim policopiado clandestino Direito à Informação (1963-1969), nos Cadernos GEDOC (1969-70), nos Sete Cadernos contra a guerra colonial: colonialismo e lutas de libertação (1970-1971), que deu origem no ano seguinte a uma nova publicação clandestina, o Boletim Anti-Colonial.

Outras iniciativas em que participou foram o Manifesto dos 101 (1965); a Pragma, uma cooperativa cultural que juntava católicos e não católicos, e onde se encontrava a preparar uma atividade quando irrompeu uma brigada da PIDE para uma busca, acabando no encerramento da cooperativa (1967); e os encontros dos Terceiros Sábados, outra rede discreta de católicos (1970/71-73); bem como na vigília da Igreja S. Domingos, em Lisboa, contra a Guerra Colonial (1 de janeiro de 1969), precursora da ação na Capela do Rato em 1972-1973; e em muitas outras.

Maria Natália: “Que a minha vida seja bem uma Aventura. Luto por isso”. Foto cedida pela família.

Em dois textos que escreveu fala da aventura:

“Cada pessoa traz em si uma vida, e cada vida contém uma dose determinada de Aventura. Que a minha seja bem uma Aventura. Luto por isso”. (outubro de 1949)

“Caminho incerto diz-me: a aventura sabe mal ou bem?
O futuro é miragem, é vertigem que se sente…
Ah, quanto sabor contém
O gesto que nos arranca do presente.”
(12/8/1949)

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